“Tens um mês para sair da minha casa!” – A história de uma nora entre expectativas familiares e sonhos próprios
“Tens um mês para sair da minha casa!”
As palavras da Dona Amélia ecoaram pela cozinha como um trovão inesperado. Eu estava de costas, a lavar a loiça do jantar, quando ela entrou, sem sequer bater à porta. O cheiro do bacalhau ainda pairava no ar, misturado com o aroma amargo do detergente e o peso da tensão que se vinha acumulando há meses. O prato escorregou-me das mãos e partiu-se na pia, mas nem isso quebrou o silêncio que se seguiu àquela frase. Só o som dos cacos parecia fazer sentido.
Olhei para trás, com as mãos ainda molhadas, e vi-a ali, hirta, com os braços cruzados e o olhar frio. O João, meu marido, estava sentado à mesa, olhos baixos, a brincar com a aliança. Não disse nada. Não me defendeu. Não me olhou sequer.
“Amélia, por favor…”, tentei começar, mas ela interrompeu-me com um gesto brusco.
“Já chega, Inês. Já te dei oportunidades demais. Esta casa não é tua. Nunca foi. E eu não vou ficar a ver o meu filho ser arrastado para uma vida que não é dele.”
A minha garganta fechou-se. Senti as lágrimas a quererem saltar, mas engoli-as com força. Não ia dar-lhe esse prazer.
O João levantou-se devagar, como se cada movimento lhe doesse. “Mãe…”, murmurou, mas ela nem lhe deu ouvidos.
“Ou ela vai, ou vais tu”, disse-lhe, sem desviar os olhos de mim.
Aquela noite foi longa. Dormi no sofá da sala, porque não consegui enfrentar o João no quarto. Ele também não veio atrás de mim. Fiquei ali, enrolada numa manta velha, a ouvir os passos dela pelo corredor e a pensar em tudo o que tinha abdicado para estar ali: deixei o meu emprego em Lisboa para vir para esta vila no interior do Alentejo, onde toda a gente se conhece e as mulheres ainda são vistas como donas de casa antes de tudo o resto.
Conheci o João numa festa de São João em Évora. Ele era divertido, tinha sonhos grandes – ou assim pensei – e prometeu-me uma vida diferente daquela que eu sempre conheci. Mas depois do casamento, tudo mudou. A mãe dele fez questão de nos ter debaixo do mesmo teto: “É tradição”, dizia ela. “Aqui ninguém abandona a família.”
No início tentei adaptar-me. Ajudava nas tarefas, sorria às vizinhas que vinham comentar tudo e mais alguma coisa sobre mim – “A lisboeta”, diziam elas, como se fosse uma ofensa. Mas nunca fui aceite verdadeiramente. A Dona Amélia controlava tudo: desde o que cozinhávamos ao dinheiro que entrava em casa. O João foi-se apagando aos poucos, sempre a tentar evitar conflitos.
As discussões começaram por coisas pequenas: o sal na sopa, a roupa estendida fora de horas, o tempo que eu passava ao telefone com a minha mãe. Mas foram crescendo até se tornarem insuportáveis.
“Não percebo porque é que não arranjas um trabalho aqui”, dizia-me ela quase todos os dias. “Ou pensas que és melhor do que nós?”
Eu tentava explicar-lhe que não havia oportunidades na vila para alguém com o meu curso de comunicação social. Ela encolhia os ombros: “Sempre podes ajudar na padaria do tio Manuel.”
O João limitava-se a encolher-se ainda mais na cadeira.
Uma noite, depois de mais uma discussão sobre o jantar – “Isto não é comida de gente!” – fechei-me na casa de banho e chorei até não ter mais lágrimas. Liguei à minha mãe em Lisboa:
“Mãe… eu não aguento mais.”
Ela ouviu-me em silêncio e depois disse: “Filha, ninguém pode viver a tua vida por ti. Tens de decidir se queres continuar aí ou se queres voltar para ti própria.”
Mas como voltar? O João era o meu marido. Eu amava-o – ou queria acreditar nisso. Mas ele parecia cada vez mais distante, mais filho da mãe do que meu companheiro.
Na manhã seguinte à ameaça da Dona Amélia, sentei-me com ele na varanda.
“João, precisamos de falar.”
Ele olhou para mim como quem olha para um estranho.
“Não posso ir contra a minha mãe”, disse ele finalmente. “Ela só quer o melhor para mim… para nós.”
“E eu? Não contas comigo? Não sou tua família também?”
Ele suspirou e desviou o olhar para os campos dourados lá fora.
“Tu sabias como isto era quando vieste para cá.”
As palavras dele foram como facas. Levantei-me sem dizer mais nada.
Durante os dias seguintes tentei encontrar soluções: procurei quartos para alugar na vila – todos caríssimos ou já ocupados por estudantes da universidade agrícola; tentei falar com amigas em Lisboa – todas tinham as suas vidas feitas; até pensei em ir trabalhar para Espanha, onde uma prima minha vivia há anos.
A Dona Amélia fazia questão de me lembrar todos os dias do prazo: “Já só faltam três semanas… duas semanas…”. O João evitava-me cada vez mais.
Na última semana antes do prazo terminar, recebi uma chamada inesperada: era a minha antiga chefe em Lisboa.
“Inês! Ouvi dizer que estás por aí… Precisamos de alguém para um projeto novo aqui no jornal. É só por três meses, mas pode ser uma porta aberta.”
O coração bateu-me forte no peito. Era a oportunidade que eu precisava – mas também significava deixar tudo para trás.
Nessa noite esperei pelo João até tarde na sala.
“Recebi uma proposta de trabalho em Lisboa”, disse-lhe assim que entrou.
Ele ficou calado durante muito tempo.
“Vais mesmo deixar-me?”, perguntou finalmente.
“Não sou eu que te estou a deixar”, respondi com voz trémula. “Foste tu que escolheste ficar do lado dela.”
Ele não respondeu. Subiu as escadas devagar e fechou-se no quarto.
No dia seguinte comecei a fazer as malas. A Dona Amélia passou pelo corredor e parou à porta do meu quarto.
“Vais mesmo embora?”, perguntou com um sorriso quase vitorioso.
“Vou lutar pelos meus sonhos”, respondi-lhe sem hesitar.
Ela encolheu os ombros: “As mulheres de hoje já não sabem o que é família.”
Sorri-lhe tristemente: “Talvez saibam melhor do que nunca.”
Saí daquela casa numa manhã fria de março, com uma mala pequena e o coração apertado. O João não apareceu para se despedir. No autocarro para Lisboa chorei baixinho, mas também senti um alívio imenso – como se finalmente pudesse respirar outra vez.
Hoje vivo num pequeno apartamento perto do Campo Pequeno. O trabalho no jornal é duro mas gratificante; faço amigos novos todos os dias e reencontrei partes de mim que julgava perdidas para sempre.
Às vezes pergunto-me se fiz bem em partir – se devia ter lutado mais pelo João ou tentado integrar-me naquela família que nunca me quis verdadeiramente. Mas depois olho à minha volta e vejo tudo o que conquistei sozinha.
Será que vale sempre a pena sacrificar quem somos pelo bem da família? Ou será que há momentos em que temos mesmo de escolher por nós? E vocês… já passaram por algo assim?