Quem Tem Direito ao Nome do Meu Filho?

— Não admito! O meu neto não vai ter esse nome ridículo! — O grito da Dona Lurdes ecoou pela casa, fazendo estremecer as paredes e o pouco de paz que ainda restava em mim. Eu estava sentada à mesa da cozinha, com as mãos trémulas sobre o tampo de madeira, tentando conter as lágrimas que ameaçavam cair. O meu marido, Rui, olhava para mim, dividido entre a mãe e a mulher, como sempre.

O nome. Tudo por causa do nome. Eu queria chamar o nosso filho de Tomás, um nome simples, bonito, que sempre me fez lembrar o meu avô, o único homem que me ensinou o que era amor sem condições. Mas na família do Rui, todos os primogénitos se chamavam Manuel, há três gerações. Era uma tradição sagrada para eles, uma espécie de maldição para mim.

— Lurdes, por favor… — tentei argumentar, a voz embargada. — É o nosso filho. O Rui e eu é que temos de decidir.

Ela bateu com a mão na mesa, derrubando uma chávena de café. — Tu não percebes nada! Nesta casa, quem manda sou eu! E enquanto viveres aqui, vais respeitar as nossas tradições!

O Rui suspirou alto, mas não disse nada. Senti-me sozinha, como tantas vezes antes. Desde que casei com ele, parecia que tinha deixado de ser a Inês para ser apenas “a mulher do Rui”. A minha opinião era sempre a última a ser ouvida — se é que era ouvida.

A gravidez não tinha sido fácil. Tive enjoos constantes, dores nas costas e noites sem dormir. Mas o pior era o medo: medo de não ser suficiente, medo de falhar como mãe, medo de não conseguir proteger o meu filho daquele ambiente sufocante. E agora, quando finalmente devia sentir alegria por estar quase a dar à luz, sentia apenas angústia.

Naquela noite, depois de todos se recolherem aos quartos, fiquei sozinha na sala escura. Ouvia os passos pesados do Rui no corredor e as vozes abafadas da Dona Lurdes e do sogro no quarto ao lado. Peguei no telemóvel e liguei à minha mãe.

— Mãe… — sussurrei, tentando não chorar.

— O que foi, filha? — A voz dela era um bálsamo.

— Eles não me deixam escolher o nome do meu filho… Dizem que tem de ser Manuel…

— Inês, ouve-me bem. Esse bebé é teu. Tu é que vais cuidar dele, tu é que vais amá-lo todos os dias. Não deixes ninguém roubar-te esse direito.

Desliguei com um nó na garganta. Sabia que a minha mãe tinha razão, mas sentia-me tão fraca…

Os dias seguintes foram um inferno. A Dona Lurdes fazia questão de repetir a toda a gente da aldeia que o neto ia chamar-se Manuel. As vizinhas vinham dar-me os parabéns pelo “nome bonito”, enquanto eu sorria amarelo e sentia o coração apertar.

Uma tarde, enquanto estendia roupa no quintal, ouvi a Dona Lurdes ao telefone:

— Claro que vai ser Manuel! A Inês não tem voto na matéria…

Foi aí que senti uma raiva surda crescer dentro de mim. Pela primeira vez em meses, não chorei. Senti vontade de gritar, de partir tudo à minha volta. Mas limitei-me a apertar os lençóis com força.

Na noite em que entrei em trabalho de parto, o Rui levou-me ao hospital em silêncio. No carro, tentei falar com ele:

— Rui… Por favor… Eu preciso que me apoies nisto.

Ele olhou para mim de relance, os olhos cansados.

— Inês… Não quero problemas com a minha mãe. Ela já está tão nervosa…

Senti uma dor aguda — não só física, mas na alma. Entrei no hospital sozinha.

O parto foi difícil. Horas intermináveis de dor e medo. Quando finalmente ouvi o choro do Tomás — sim, Tomás! — senti uma onda de amor tão forte que quase me afoguei nela.

A enfermeira perguntou:

— Já têm nome?

Olhei para o meu filho e disse:

— Tomás. Vai chamar-se Tomás.

Assinei os papéis com as mãos trémulas mas decididas.

Quando o Rui chegou ao quarto com a Dona Lurdes atrás dele, vi logo nos olhos dela que algo estava errado.

— Então? Já registaram o bebé? — perguntou ela.

— Sim — respondi, sem desviar o olhar. — Chama-se Tomás.

O silêncio foi ensurdecedor. A Dona Lurdes ficou vermelha de raiva.

— Tu não tinhas esse direito! — gritou ela. — O Rui devia ter decidido!

O Rui ficou calado. Eu tremia por dentro, mas mantive-me firme.

— O Tomás é meu filho também. E eu decidi.

A partir desse dia, tudo mudou em casa dos meus sogros. A Dona Lurdes deixou de me falar durante semanas. O Rui tornou-se ainda mais distante. Sentia-me uma intrusa na minha própria casa.

Comecei a pensar em sair dali. Falei com a minha mãe e ela disse-me para ir para casa dela até as coisas acalmarem.

Na noite em que fiz as malas, o Rui apareceu no quarto.

— Vais mesmo embora?

Olhei para ele com lágrimas nos olhos.

— Preciso de respirar, Rui… Preciso de ser eu outra vez.

Ele não tentou impedir-me.

Na casa da minha mãe encontrei finalmente algum sossego. O Tomás dormia tranquilo no berço improvisado no meu antigo quarto. Às vezes chorava baixinho à noite, mas eu embalava-o e sussurrava-lhe ao ouvido:

— Ninguém te vai tirar quem tu és.

Os dias passaram devagarinho. O Rui ligava de vez em quando para saber do bebé, mas nunca falava sobre voltar para casa dos pais dele ou sobre a decisão do nome.

Um dia recebi uma carta da Dona Lurdes:

“Nunca te vou perdoar pelo que fizeste ao meu neto e ao meu filho.”

Chorei muito nesse dia. Mas depois olhei para o Tomás e percebi: eu tinha feito o certo.

Meses depois, o Rui apareceu à porta da minha mãe. Trazia um ramo de flores e um olhar cansado.

— Inês… Podemos falar?

Sentámo-nos no jardim enquanto o Tomás brincava na relva.

— Sinto muito por tudo — disse ele baixinho. — Devia ter-te apoiado desde o início…

Olhei para ele e vi sinceridade nos olhos dele pela primeira vez em muito tempo.

— O Tomás vai crescer a saber quem é — respondi. — E eu também.

Voltámos a tentar reconstruir a nossa vida juntos — longe da casa dos sogros e das tradições sufocantes. Não foi fácil; houve muitas discussões e mágoas pelo caminho. Mas aprendi a lutar por mim e pelo meu filho.

Às vezes pergunto-me: quantas mulheres vivem presas às expectativas dos outros? Quantas perdem a sua voz antes mesmo de terem oportunidade de falar? Será que algum dia vamos conseguir ser donas da nossa própria história?