Quando a minha sogra perguntou: “Vamos pedir um crédito?” – e eu era invisível

— Mariana, achas mesmo que é boa ideia comprarmos casa agora? — perguntou a minha sogra, Dona Teresa, com aquele tom de voz que nunca era só uma pergunta. O Rui olhou para mim de relance, mas não disse nada. Eu senti o coração apertar-se no peito. Estávamos todos sentados à mesa da cozinha, o cheiro do café misturava-se com o nervosismo no ar. O meu sogro, o Senhor António, folheava papéis do banco como se fossem cartas de jogar.

— Eu… acho que devíamos pensar bem — tentei dizer, mas a minha voz saiu baixa, quase inaudível. Ninguém me ouviu. Dona Teresa já falava por cima de mim:

— Rui, tu sabes que isto é para o vosso bem. Se pedirmos o crédito juntos, conseguimos uma casa maior. A Mariana ainda não percebeu como as coisas funcionam.

O Rui encolheu os ombros. — Sim, mãe. Acho que faz sentido.

Senti-me pequena. Invisível. Como se fosse uma peça de mobiliário naquela casa onde nunca fui verdadeiramente bem-vinda. Quando casei com o Rui, há dois anos, achei que tudo seria diferente. Ele era carinhoso, divertido, fazia-me rir mesmo nos dias mais cinzentos. Mas nunca me preparou para a força da família dele, para a presença esmagadora da mãe e do pai em tudo o que fazíamos.

No início, tentei adaptar-me. A Dona Teresa era daquelas mulheres que controlava tudo: desde o que se comia ao domingo até à cor das toalhas de banho. O Senhor António era mais calado, mas quando falava, todos paravam para ouvir. Eu vinha de uma família pequena, só eu e a minha mãe depois do divórcio dos meus pais. Sempre sonhei com uma família grande, barulhenta, cheia de vida. Mas ali percebi que o barulho podia ser ensurdecedor.

As discussões começaram cedo. Pequenas coisas: como dobrava as roupas, como cozinhava o arroz, até como arrumava os sapatos no hall de entrada. — Aqui em casa faz-se assim — dizia Dona Teresa. E eu tentava não contrariar, tentava agradar. Mas cada tentativa era um passo atrás na minha própria identidade.

O Rui? Ele dizia sempre: — Deixa estar, Mariana. A minha mãe é assim mesmo. Não vale a pena stressares.

Mas valia a pena? Eu sentia-me cada vez mais sufocada.

Quando surgiu a ideia do crédito para comprar uma casa maior — para todos vivermos juntos — percebi que estava a perder-me. Não era só a casa deles; era a vida deles, as regras deles, os sonhos deles. Eu era apenas um adereço.

Nessa noite, depois do jantar, tentei falar com o Rui:

— Rui, eu não quero pedir um crédito com os teus pais. Eu quero uma casa nossa, só nossa.

Ele suspirou e passou as mãos pelo cabelo.

— Mariana, tu sabes que não temos dinheiro suficiente sozinhos. E os meus pais querem ajudar…

— Ajudar? Rui, isto não é ajuda! É controlo! Eu sinto-me invisível nesta casa!

Ele ficou em silêncio. O silêncio dele doeu mais do que qualquer palavra dura da Dona Teresa.

Os dias seguintes foram um arrastar de conversas sussurradas entre eles e olhares de lado para mim. Senti-me cada vez mais isolada. Até as pequenas alegrias — um café ao fim da tarde na varanda ou um passeio ao domingo — foram desaparecendo.

A minha mãe ligava-me todos os dias:

— Filha, estás bem? Pareces tão em baixo…

Eu mentia:

— Está tudo bem, mãe. Só estou cansada.

Mas não estava tudo bem. Uma noite ouvi Dona Teresa dizer ao Rui:

— A tua mulher tem de perceber que aqui quem manda sou eu. Se ela não gosta, pode ir embora.

Chorei baixinho no quarto para ninguém ouvir.

No dia em que fomos ao banco assinar os papéis do crédito, levei comigo um peso no peito tão grande que mal conseguia respirar. O funcionário explicou tudo devagarinho, mas eu só ouvia um zumbido distante. Quando chegou a minha vez de assinar, hesitei.

— Mariana? — disse o Rui baixinho.

Olhei para ele e vi nos olhos dele mais medo do que amor.

— Não consigo — murmurei.

A Dona Teresa bufou:

— Sempre soube que eras ingrata.

Saí do banco a correr, lágrimas a escorrerem-me pela cara. Liguei à minha mãe:

— Mãe… posso voltar para casa?

Ela respondeu sem hesitar:

— Podes sempre voltar para casa, filha.

Arrumei as minhas coisas naquela noite enquanto o Rui ficava sentado na sala sem dizer nada. Nem um pedido para eu ficar. Nem uma palavra de consolo.

Voltei para casa da minha mãe com uma mala cheia de roupas e outra cheia de mágoas. Os dias seguintes foram um nevoeiro de tristeza e alívio ao mesmo tempo. Senti falta do Rui — ou talvez da ideia do Rui que tinha criado na minha cabeça — mas não senti falta daquela casa onde nunca fui vista.

Aos poucos fui reconstruindo-me. Arranjei um emprego novo numa loja de roupa no centro da cidade. Conheci pessoas novas, fiz amigas que me ouviam sem julgar. A minha mãe fazia-me chá todas as noites e dizia:

— Um dia vais perceber que fizeste o melhor por ti.

Ainda hoje me pergunto: quantas mulheres vivem assim? Quantas Marianas existem por aí, presas em casas onde são invisíveis? Será que algum dia vou conseguir confiar outra vez? O que é preciso para sermos vistas e ouvidas nas nossas próprias vidas?