O Domingo em que a Verdade Rebentou: Entre o Silêncio e a Ruína
— Mãe, prometes que vais ser simpática? — A voz do Marco ecoou no corredor, carregada de ansiedade. Eu estava de costas para ele, a mexer no molho do assado, mas senti o peso das palavras dele como se me tivesse tocado no ombro.
— Marco, por favor… — suspirei, tentando esconder o tremor nas mãos. — Não me peças isso sem me dizeres quem é ela.
Ele riu, nervoso. — Chama-se Beatriz. Vais gostar dela, vais ver.
O nome caiu-me como uma pedra no estômago. Beatriz. O mesmo nome que tantas vezes ouvi nos gritos abafados da minha filha, nas noites em que ela chorava baixinho no quarto ao lado. O mesmo nome que tentei apagar da minha memória para proteger o pouco que restava da nossa paz.
A campainha tocou. O som pareceu mais alto do que nunca, como se anunciasse não só uma visita, mas o início de uma tempestade. O meu marido, António, levantou-se do sofá com um sorriso largo, alheio ao furacão que se aproximava.
— Eu vou abrir! — gritou ele, entusiasmado.
Ouvi passos apressados no corredor e depois vozes. Uma feminina, doce, quase melosa. E outra, a do Marco, cheia de orgulho e esperança. Quando entrei na sala para cumprimentar a visita, o mundo parou por um segundo.
Ela estava ali. Beatriz. Os olhos castanhos, o cabelo apanhado num rabo-de-cavalo perfeito, o sorriso estudado. O tempo não tinha passado para ela — ou talvez tivesse passado apenas para mim e para a minha filha, Sofia.
— Dona Helena! Que prazer conhecê-la finalmente! — disse Beatriz, estendendo-me a mão.
Apertei-lhe a mão com força demais. Senti o olhar do Marco sobre mim, suplicante. Tentei sorrir, mas só consegui um esgar.
— O prazer é meu… — murmurei.
Durante o almoço, cada palavra parecia uma faca. O António ria-se das piadas da Beatriz, encantado com a sua simpatia. O Marco olhava para ela como se fosse o sol. E eu… eu só conseguia pensar na Sofia.
Sofia não quis descer para almoçar. Disse que estava com dores de cabeça. Mas eu sabia que era medo. Medo de enfrentar o passado, medo de ver a cara da rapariga que lhe roubou anos de felicidade.
A certa altura, Beatriz virou-se para mim:
— Sabe, Dona Helena, sempre adorei esta zona de Lisboa. Tantas memórias boas do liceu…
O sangue gelou-me nas veias. O liceu. Onde tudo começou.
— Memórias boas? — perguntei, incapaz de me controlar. — Nem todos partilham dessas memórias, pois não?
O silêncio caiu sobre a mesa como uma nuvem negra. O António olhou para mim, confuso. O Marco franziu o sobrolho.
— Mãe…
Beatriz sorriu, mas os olhos dela endureceram por um segundo.
— Bom, cada um tem as suas experiências…
Levantei-me abruptamente.
— Desculpem-me um momento.
Fui até ao quarto da Sofia. Bati à porta devagarinho.
— Sofia? Posso entrar?
Ouvi um fungar abafado.
— Não quero falar com ninguém, mãe.
Sentei-me ao lado da porta e encostei a testa à madeira fria.
— Ela está cá em baixo… com o teu irmão.
Silêncio.
— Não consigo respirar quando penso nela — sussurrou Sofia finalmente. — Como é que ele não percebe?
As lágrimas começaram-me a escorrer pelo rosto. Eu sabia o que Sofia tinha passado: os bilhetes cruéis no cacifo, as risadas nos corredores, as mensagens anónimas no telemóvel. E eu nunca consegui protegê-la verdadeiramente.
Voltei à sala com o coração apertado. O António tentava manter a conversa animada, mas sentia-se o desconforto no ar.
— Então, Beatriz — disse eu de repente — lembras-te da Sofia?
Ela hesitou por um segundo antes de sorrir novamente.
— Claro! Era muito reservada…
O Marco olhou para mim, alarmado.
— Mãe…
— Reservada? Ou talvez intimidada? — insisti, sentindo a raiva crescer dentro de mim.
Beatriz corou ligeiramente.
— Não sei do que está a falar…
O António interveio:
— Helena! Que conversa é essa?
Levantei-me e encarei todos à mesa.
— Estou farta de fingir! — gritei. — Esta rapariga fez da vida da tua irmã um inferno durante anos! E agora entra aqui como se nada fosse?
O Marco ficou branco como a cal. Beatriz levantou-se também, os olhos cheios de lágrimas falsas ou talvez verdadeiras — já não sabia distinguir.
— Isso não é verdade! — protestou ela. — Eu era só uma miúda…
— Uma miúda cruel! — atirei-lhe eu. — Sabes quantas noites passei acordada ao lado da Sofia porque ela tinha medo de ir à escola?
O António tentou acalmar-me:
— Helena, chega! Não estragues isto tudo!
Mas eu já não conseguia parar:
— Estragar? Já está tudo estragado há muito tempo! Só vocês é que não querem ver!
O Marco levantou-se devagarinho e saiu da sala sem olhar para ninguém. Ouvi a porta do quarto dele bater com força lá em cima.
Beatriz ficou parada no meio da sala, tremendo ligeiramente.
— Eu… eu não sabia que tinha sido assim tão mau…
Olhei para ela com todo o desprezo acumulado em anos de silêncio forçado.
— Pois agora sabes.
Ela pegou na mala e saiu sem dizer mais nada. O António ficou sentado à mesa, derrotado.
Subi ao quarto do Marco. Ele estava sentado na cama, de cabeça entre as mãos.
— Porque é que fizeste isto? — perguntou ele num sussurro furioso. — Porque é que tinhas de estragar tudo?
Sentei-me ao lado dele e tentei tocar-lhe no ombro, mas ele afastou-se.
— Filho… eu só queria proteger-vos. A ti e à tua irmã.
Ele levantou a cabeça e vi nos olhos dele uma mistura de raiva e mágoa que nunca tinha visto antes.
— Eu amava-a…
As palavras dele cortaram-me como facas. Senti-me velha e cansada de repente.
Desci ao quarto da Sofia e abracei-a com força. Chorámos juntas durante muito tempo.
Os dias seguintes foram um inferno de silêncios e portas fechadas em casa. O António culpava-me por ter destruído a relação do Marco; o Marco mal me falava; e a Sofia continuava fechada no seu mundo de dor antiga e renovada.
Pergunto-me agora se fiz bem em escolher a verdade em vez do silêncio. Será que alguma vez poderemos voltar a ser uma família depois disto? Ou será que há verdades demasiado pesadas para serem ditas?