Não sou a empregada da família: o dia em que disse basta
— Gabriela, podes passar aqui amanhã às oito? Preciso que fiques com os miúdos, tenho uma reunião importante — disse a voz da minha nora, Joana, do outro lado do telefone, sem sequer perguntar se eu tinha planos.
Olhei para o relógio da cozinha. Eram quase dez da noite. Oiço o tic-tac e sinto o peito apertado. O meu marido, António, já dorme no sofá, ressonando baixinho. A casa está em silêncio, mas dentro de mim há um turbilhão. Não era a primeira vez que Joana me ligava assim, de véspera, a pedir — ou melhor, a exigir — ajuda. Mas ultimamente, os pedidos tinham-se tornado ordens. E eu… eu já não sabia onde acabava o amor de avó e começava o abuso.
— Joana, amanhã tenho consulta no centro de saúde… — tentei explicar, mas ela interrompeu-me:
— Oh Gabriela, não podes remarcar? É só uma manhã. Preciso mesmo de ti. Sabes como é difícil arranjar alguém de confiança.
Fiquei calada uns segundos. Senti-me pequena, quase invisível. Lembrei-me dos tempos em que era eu quem pedia ajuda à minha mãe, e ela nunca dizia que não. Será que estava a repetir o mesmo padrão? Será que era suposto sacrificar-me sempre?
No dia seguinte, acordei cedo. Preparei o pequeno-almoço para António e fui à consulta. O médico olhou-me nos olhos e disse:
— Gabriela, tem de começar a cuidar mais de si. A tensão está alta e o colesterol também. O stress não ajuda nada.
Saí do centro de saúde com um nó na garganta. Senti-me velha e cansada. Quando cheguei a casa, havia três mensagens da Joana:
1. “Gabriela, já chegaste?”
2. “Preciso mesmo que fiques com eles à tarde também.”
3. “Responde por favor!”
Respirei fundo e liguei-lhe.
— Joana, hoje não posso mesmo. Preciso de descansar.
Do outro lado ouvi um suspiro impaciente.
— Mas Gabriela, não percebes que preciso de ti? O Pedro (meu filho) está sempre a trabalhar e eu não tenho ninguém! — a voz dela subiu de tom.
Senti uma raiva surda a crescer dentro de mim. Porque é que era sempre eu? Porque é que ninguém perguntava como eu estava?
Quando António chegou do café com os amigos, contei-lhe o que se passava.
— António, estou cansada disto. A Joana trata-me como se eu fosse uma empregada! — desabafei, com lágrimas nos olhos.
Ele encolheu os ombros.
— Sabes como são as mulheres hoje em dia… querem tudo feito à maneira delas. Não ligues.
Senti-me ainda mais sozinha. O meu próprio marido não me entendia.
Naquela noite não dormi. Fiquei a pensar em tudo o que tinha feito pela família: os anos em que abdiquei do meu emprego para criar os filhos; as férias nunca tiradas; os aniversários passados na cozinha a preparar bolos para todos menos para mim; as vezes em que disse sim quando queria dizer não.
No dia seguinte, decidi ir visitar a minha irmã mais nova, Teresa. Ela sempre foi mais independente, mais dona de si.
— Gabriela, tu tens de aprender a dizer não! — disse ela, assim que lhe contei tudo.
— Mas se eu não ajudar… quem ajuda? — perguntei, sentindo-me culpada só por pensar nisso.
— Eles arranjam solução! E se não arranjarem, aprendem! Tu não és menos mãe ou avó por cuidares de ti.
As palavras dela ficaram-me na cabeça durante dias. Comecei a reparar em pequenas coisas: como Joana nunca agradecia verdadeiramente; como Pedro só me ligava quando precisava de alguma coisa; como António achava tudo normal.
Uma tarde, estava eu sentada no jardim a ler um livro — coisa rara — quando Joana apareceu sem avisar, com as crianças pela mão.
— Gabriela, preciso que fiques com eles agora. Tenho uma urgência no trabalho.
Olhei para ela e depois para os meus netos, que me sorriram inocentes.
— Joana, hoje não posso. Estou ocupada.
Ela ficou boquiaberta.
— Ocupada? Com quê?
— Comigo mesma — respondi, surpreendendo-me até a mim própria.
Ela bufou e saiu porta fora, arrastando as crianças atrás de si. Senti-me mal durante uns minutos… mas depois veio uma onda de alívio. Pela primeira vez em muitos anos, tinha escolhido a mim.
Nos dias seguintes houve silêncio. Pedro ligou-me:
— Mãe, o que se passa? A Joana diz que andas estranha.
Expliquei-lhe calmamente:
— Filho, eu amo-vos muito. Mas também preciso de tempo para mim. Não sou vossa empregada.
Houve um silêncio do outro lado.
— Nunca pensei que te sentisses assim… — murmurou ele.
— Pois… porque nunca perguntaram — respondi, sem mágoa mas com firmeza.
António começou a reparar nas minhas mudanças. Um dia perguntou:
— Estás zangada comigo?
Olhei-o nos olhos:
— Não estou zangada. Só estou cansada de ser invisível nesta casa.
Ele ficou calado durante muito tempo. Depois levantou-se e foi buscar flores ao jardim — coisa que nunca fazia — e deixou-as na mesa da cozinha sem dizer nada.
Aos poucos, comecei a sentir-me mais leve. Inscrevi-me numa aula de hidroginástica no centro comunitário; comecei a ir ao cinema com Teresa; comprei um livro de receitas só para mim e experimentei pratos novos sem pensar nos gostos dos outros.
A família estranhou ao início. Houve comentários velados:
— A avó agora anda muito moderna…
— Já viste como ela se arranja?
— Deve estar com alguma crise da idade…
Mas eu sorria por dentro. Pela primeira vez em décadas sentia-me viva.
Um domingo à tarde, Pedro veio cá a casa sozinho.
— Mãe… queria pedir-te desculpa. Acho que nunca reparei no quanto te sobrecarregámos.
Olhei para ele e vi o meu menino crescido, finalmente atento ao que eu sentia.
— Não faz mal, filho. O importante é percebermos enquanto ainda temos tempo para mudar.
Ele abraçou-me com força e senti as lágrimas quentes caírem-lhe no ombro.
Joana demorou mais tempo a aceitar as minhas novas regras. Houve discussões acesas:
— Mas então para que serve ter família se não podemos contar uns com os outros?
— Podemos contar uns com os outros sim… mas não abusar uns dos outros — respondi-lhe calmamente.
Com o tempo, ela também começou a mudar pequenas coisas: passou a avisar com antecedência quando precisava de ajuda; começou a agradecer mais; até me trouxe flores no meu aniversário — pela primeira vez desde que entrou na família.
Hoje olho para trás e vejo tudo o que perdi por medo de desagradar aos outros: tempo comigo mesma, saúde, sonhos pequenos e grandes. Mas também vejo tudo o que ganhei quando finalmente disse basta: respeito próprio, paz interior e uma nova relação com quem me rodeia.
Às vezes pergunto-me: porque é tão difícil para nós mulheres portuguesas pôr limites à família? Será egoísmo ou amor-próprio? E vocês… já tiveram coragem de dizer basta?