O Fim de Semana da Sogra: Sou Apenas uma Empregada na Minha Própria Casa?

— Maria, já puseste o café a coar? — A voz da minha sogra ecoa pela cozinha antes mesmo de eu conseguir abrir os olhos por completo. O relógio marca sete e meia da manhã de sábado. Sinto o corpo pesado, mas levanto-me, porque sei que se não for eu a preparar tudo, ninguém o fará. O cheiro do café ainda nem se espalhou pela casa e já sinto o peso do fim de semana a cair-me em cima dos ombros.

O António, meu marido, continua a dormir profundamente. Ele nunca acorda com o barulho da mãe. Eu acordo sempre. Talvez porque, desde que casei com ele, nunca consegui sentir que esta casa era realmente minha. A sogra, Dona Lurdes, aparece sem avisar quase todos os fins de semana, como se fosse ela a dona do espaço. E eu? Eu sou só a Maria, a nora que faz tudo para agradar, mas que nunca é suficiente.

— Maria, o pão está duro! — grita ela da sala. — Não podias ter comprado fresco?

Respiro fundo e tento sorrir quando entro na sala com a bandeja do pequeno-almoço. — Bom dia, Dona Lurdes. O padeiro ainda não passou hoje, mas posso ir buscar pão fresco se quiser.

Ela revira os olhos. — Não te preocupes, querida. Eu como isto mesmo. — Mas sei que não está satisfeita. Nunca está.

Sento-me à mesa, mas mal toco no café. O António aparece finalmente, despenteado e com ar de quem não percebe o que se passa à sua volta.

— Mãe! Já cá estás? — diz ele, surpreendido.

— Claro, filho. Vim ver como estavam as coisas por aqui. A Maria tem-se portado bem?

Eles riem-se. Eu sorrio amarelo. Sinto-me uma criança a ser avaliada na escola.

O resto da manhã passa-se entre tarefas domésticas e comentários passivo-agressivos da Dona Lurdes. “A minha casa nunca estava assim desarrumada”, “No meu tempo fazia-se tudo à mão”, “As mulheres agora têm tudo tão fácil”. Cada frase é uma facada discreta.

Ao almoço, ela insiste em cozinhar. — Maria, vai buscar-me os tachos grandes. Não sabes onde estão? Ai filha… — E lá vou eu, tropeçando nos meus próprios passos dentro da minha cozinha.

Enquanto ela mexe o arroz de pato, eu corto a salada em silêncio. O António está na sala a ver futebol com o nosso filho mais novo, o Diogo. Sinto-me sozinha no meio do barulho.

Durante o almoço, Dona Lurdes fala sobre tudo: vizinhos, política, as receitas antigas que ninguém sabe fazer como ela. O António acena com a cabeça e eu limpo os pratos sujos.

— Maria, não te sentes! Ainda falta trazer a sobremesa! — diz ela quando tento finalmente sentar-me à mesa.

Olho para o António à espera de algum apoio, mas ele limita-se a olhar para o telemóvel.

À noite, depois de todos irem dormir, sento-me na varanda com um copo de vinho barato. Oiço os grilos e penso: “Será que sou invisível? Será que algum dia vão perceber que também sou gente?”

No domingo de manhã, acordo antes de todos. Sinto uma raiva surda a crescer dentro de mim. Lembro-me da minha mãe a dizer: “Maria, não deixes ninguém passar por cima de ti”. Mas eu deixei. Deixei tantas vezes que já nem sei quem sou.

Quando Dona Lurdes entra na cozinha para mais um dia de críticas veladas, decido falar.

— Dona Lurdes, posso falar consigo um momento?

Ela olha-me surpreendida. — Diz lá, filha.

— Eu sei que quer ajudar e gosta de estar connosco… Mas às vezes sinto que não tenho espaço na minha própria casa. Sinto que tudo o que faço está errado aos seus olhos.

Ela fica em silêncio por um momento longo demais. Depois sorri, mas é um sorriso tenso.

— Maria… Eu só quero o melhor para o meu filho e para os meus netos. Se faço ou digo alguma coisa que te magoa… não é por mal.

Sinto as lágrimas a quererem sair, mas engulo-as.

— Eu sei… Mas preciso que confie em mim para cuidar da minha família à minha maneira.

O António entra na cozinha nesse momento e percebe o clima pesado.

— O que se passa aqui?

Dona Lurdes levanta-se abruptamente. — Nada, filho! Estávamos só a conversar.

Ele olha para mim e vejo nos olhos dele um misto de surpresa e desconforto.

O resto do dia passa-se num silêncio estranho. Dona Lurdes fala menos e eu sinto-me mais leve, mas também cheia de dúvidas: será que fiz bem? Será que agora vão olhar para mim de outra forma?

Quando ela se despede ao final da tarde, abraça-me mais forte do que o habitual.

— Maria… És uma boa nora. Só tens de acreditar mais em ti.

Fico ali parada na porta depois dela sair. O António aproxima-se e finalmente pergunta:

— Estás bem?

Olho para ele e respondo:

— Não sei… Mas pela primeira vez em muito tempo sinto que existo nesta casa.

Agora pergunto-me: quantas mulheres como eu vivem caladas dentro das suas próprias casas? Quantas vezes deixamos de ser nós mesmas só para agradar aos outros? Será que algum dia aprendemos mesmo a dizer basta?