“Traz os miúdos, mas não te esqueças da carteira”: Quando a família é mais do que uma visita
— Então, pai, vais poder ajudar-nos este mês ou não? — A voz do meu filho Pedro ecoou na sala, misturada com o tilintar das chaves da porta que ele mal fechara atrás de si. Senti o coração apertar. Não era a primeira vez que aquela pergunta surgia, mas cada vez doía mais.
Olhei para Rosa, sentada ao meu lado no sofá, as mãos entrelaçadas no colo, o olhar perdido na chávena de chá já fria. Ela não disse nada, mas conheço-lhe o silêncio: era um grito abafado, uma súplica para que eu dissesse “não”, para que finalmente impusesse um limite. Mas como dizer não ao nosso filho? Como negar algo aos nossos netos, que correm pela casa sempre que vêm, enchendo-a de vida e barulho?
— Pedro, sabes que as coisas não estão fáceis para nós também… — tentei começar, mas ele interrompeu-me com um suspiro impaciente.
— Oh pai, é só até ao fim do mês. A Leonor ficou sem trabalho outra vez e as contas não param de chegar. Não te estou a pedir nada de mais. — O tom dele era quase zangado, como se eu tivesse obrigação de ajudar.
Lembrei-me dos tempos em que eu próprio lutava para pôr comida na mesa. Trabalhava na Carris, turnos longos e cansativos, mas nunca pedi nada aos meus pais. Eles também tinham pouco. O mundo mudou tanto? Ou fui eu que falhei em ensinar aos meus filhos o valor do esforço?
Rosa pousou a mão na minha perna. — Manuel… — disse baixinho, como quem pede desculpa por existir.
Pedro olhou para ela e depois para mim. — Se não querem ajudar, digam logo. Não preciso de me humilhar.
O silêncio caiu pesado. O relógio da parede marcava sete horas. Lá fora, o céu começava a escurecer e eu sentia-me cada vez mais pequeno dentro da minha própria casa.
Quando Pedro saiu, batendo a porta com força, Rosa chorou baixinho. Fiquei ali sentado, sem saber o que fazer. O cheiro do jantar arrefecia na cozinha. Mais uma noite em branco.
No dia seguinte, a campainha tocou cedo. Era a minha filha mais nova, Mariana, com os dois filhos pela mão.
— Olá pai! Olá mãe! — disse ela com aquele sorriso apressado. — Preciso que fiquem com eles hoje. Tenho uma entrevista de emprego e não tenho com quem os deixar.
Antes que eu pudesse responder, os miúdos já corriam para o quintal. Mariana deu-me um beijo na face e saiu quase a correr.
Fiquei a ver os netos brincarem entre as roseiras que plantei há anos. Senti uma alegria breve — eles eram a razão pela qual ainda suportava tudo isto. Mas logo veio a culpa: será que só nos procuram porque precisam? Será que alguma vez vêm só porque querem estar connosco?
Ao almoço, Rosa serviu sopa aos meninos e olhou-me com tristeza.
— Eles amam-nos, Manuel… Só não sabem demonstrar.
— Ou talvez nunca lhes ensinámos como se faz — respondi, amargo.
À tarde, Mariana voltou para buscar os filhos. Trazia um ar cansado e nem perguntou como estávamos.
— Obrigada pai, mãe. Depois ligo-vos — disse, já de costas.
Quando a porta se fechou, Rosa suspirou fundo.
— Lembras-te de quando eles eram pequenos? — perguntou-me. — Vínhamos todos juntos ao jardim botânico, fazíamos piqueniques…
— Agora só vêm buscar ou deixar coisas — respondi, sem conseguir esconder o ressentimento.
Os dias passaram assim: visitas apressadas, pedidos de dinheiro ou favores, telefonemas curtos só para saber se podíamos ajudar com isto ou aquilo. Os fins-de-semana eram silenciosos; só o som da televisão preenchia a casa.
Uma noite, sentei-me à mesa da cozinha com Rosa e desabafei:
— Sinto-me um estranho na vida dos nossos filhos. Como é possível termos dado tudo e agora sermos apenas um recurso?
Ela chorou outra vez. Eu abracei-a como quem tenta segurar água nas mãos: impossível.
No domingo seguinte, decidi convidar toda a família para jantar cá em casa. Preparei tudo: bacalhau à Brás, arroz doce feito pela Rosa, vinho do Dão guardado para ocasiões especiais.
Quando chegaram, percebi logo o ambiente tenso. Pedro estava calado; Mariana mexia no telemóvel; os netos discutiam por causa do tablet.
Durante o jantar tentei puxar conversa:
— Lembram-se daquele verão em Sesimbra? Quando quase perdemos o autocarro porque o Pedro queria apanhar conchas?
Ninguém respondeu. Só ouvi um “passa-me o sal” e o tilintar dos talheres.
No fim da refeição, Pedro levantou-se primeiro:
— Pai… sobre aquilo do dinheiro…
Levantei a mão para o interromper.
— Hoje não falamos disso. Hoje quero só estar convosco. Só isso.
Ele ficou surpreendido, mas não insistiu.
Quando todos foram embora, Rosa sentou-se ao meu lado no sofá e encostou a cabeça ao meu ombro.
— Achas que algum dia vão perceber? — perguntou ela.
Fiquei muito tempo calado antes de responder:
— Não sei… Talvez quando forem velhos também.
Os dias seguintes foram iguais: solidão intercalada por pedidos de ajuda. Mas comecei a dizer “não” mais vezes. Custava-me ver o olhar magoado dos filhos, mas sentia que era preciso proteger o pouco que nos restava: dignidade e paz.
Um dia recebi uma carta do Pedro. Dizia apenas: “Desculpa pai. Não percebi antes.”
Chorei como há muito não chorava.
Agora passo as tardes no jardim com Rosa. Às vezes vêm os netos brincar; outras vezes estamos só nós dois e as flores que plantámos juntos ao longo dos anos.
Pergunto-me muitas vezes: será que amar demais pode afastar quem mais queremos perto? Será que algum dia aprendemos todos a estar juntos sem esperar nada em troca?