O Meu Pai Cobrou-me Renda Pelo Meu Quarto – Agora Espera Que Eu O Sustente
— Não é justo, pai! — gritei-lhe, com a voz embargada, enquanto segurava a mala na mão. O cheiro a café requentado e a humidade das paredes da nossa casa em Almada misturavam-se com a raiva que me subia pelo peito. — Não posso pagar mais este mês. O estágio não me paga quase nada!
O meu pai, o António, olhou-me com aquele olhar duro que sempre teve desde que a mãe morreu. — Aqui ninguém vive de borla, Mariana. Se não podes pagar, tens de arranjar outro sítio para ficar. — A sua voz era fria, quase indiferente.
Lembro-me de ter sentido o chão fugir-me dos pés. Tinha acabado de fazer dezoito anos. Enquanto as minhas amigas celebravam a liberdade, eu sentia-me presa numa armadilha. Não havia espaço para discussões: ou pagava, ou saía.
Durante anos, trabalhei em cafés e supermercados, estudando à noite. Via as famílias dos outros com inveja: mães que faziam sopa quente ao jantar, pais que perguntavam como correu o dia. Em minha casa, o silêncio era regra. O meu pai limitava-se a deixar um papel na mesa da cozinha com o valor da renda do mês seguinte.
Quando consegui o meu primeiro emprego a sério, já tinha vinte e quatro anos. Aluguei um quarto minúsculo em Lisboa, com vista para um pátio onde os gatos miavam noite fora. O meu pai não me ligou uma única vez para saber se estava bem. Nem no Natal.
Os anos passaram. Fui-me habituando à solidão, à independência forçada. Fiz amigos, apaixonei-me e desapaixonei-me, aprendi a viver com pouco. Sempre que via pais e filhos juntos no metro ou na praia da Costa da Caparica, sentia uma pontada de inveja e tristeza.
Foi numa tarde chuvosa de novembro que recebi a chamada da vizinha do lado: — Mariana, o teu pai está muito mal. Anda cá depressa.
Corri para Almada como se tivesse quinze anos outra vez. Encontrei-o magro, encolhido na poltrona onde costumava ver os jogos do Benfica. O cheiro a mofo era mais forte do que nunca.
— Mariana… — murmurou ele, com uma voz que já não reconhecia. — Preciso de ti.
Senti uma raiva antiga misturada com pena. Ele nunca tinha precisado de mim antes. Sempre foi orgulhoso, distante. Agora estava ali, vulnerável, a pedir ajuda.
— Precisas de mim agora? Depois de tudo? — perguntei-lhe, sem conseguir esconder as lágrimas.
Ele baixou os olhos. — Não tenho mais ninguém. A reforma mal chega para comer…
Durante semanas cuidei dele: fazia-lhe sopa, dava-lhe banho, levava-o ao centro de saúde. Os papéis da Segurança Social acumulavam-se na mesa da cozinha. O dinheiro era pouco e as despesas muitas.
Uma noite, enquanto lhe mudava os lençóis, ele agarrou-me a mão com força inesperada.
— Desculpa… — sussurrou. — Fiz tudo mal contigo.
Fiquei sem saber o que dizer. Tantos anos à espera de ouvir aquelas palavras e agora pareciam vazias.
— Porque é que me cobraste renda? Porque é que nunca foste como os outros pais? — perguntei-lhe, a voz trémula.
Ele olhou para mim com lágrimas nos olhos pela primeira vez na vida.
— Tinha medo… Medo de não te preparar para o mundo. Depois da tua mãe morrer… não sabia como ser pai sozinho. Achei que te estava a ensinar a ser forte.
Senti um nó na garganta. Lembrei-me das noites frias em que chorava sozinha no quarto, das vezes em que desejei ter alguém a quem pedir colo.
Os dias seguintes foram uma mistura de raiva e compaixão. Queria perdoá-lo, mas não conseguia esquecer tudo o que passei sozinha.
A família começou a comentar: tias e primos diziam que era minha obrigação cuidar dele agora. — É teu pai! — diziam-me ao telefone. — Se não fores tu, quem será?
Mas ninguém se ofereceu para ajudar. Todos tinham desculpas: filhos pequenos, trabalho, falta de tempo.
Uma tarde, depois de mais uma discussão sobre dinheiro — porque o pouco que eu ganhava mal chegava para nós os dois — sentei-me no banco do jardim em frente à casa e chorei como há muito não chorava.
Oiço ainda hoje as palavras da minha tia Lurdes: — Mariana, família é família. Não se vira as costas ao sangue.
Mas será mesmo assim? O que é que devemos àqueles que nunca estiveram lá por nós? Até onde vai o dever de filha?
O meu pai foi piorando. Passei noites em claro ao lado dele no hospital Garcia de Orta. Vi-o definhar lentamente até já não conseguir falar.
No último dia, segurou-me a mão e sorriu-me com uma ternura que nunca lhe conheci.
— Obrigado…
Quando tudo acabou, fiquei sozinha na casa onde cresci. Olhei para as paredes descascadas e senti um vazio imenso.
Agora sou eu quem tem de decidir o que fazer com esta herança pesada: memórias amargas misturadas com um amor difícil de explicar.
Pergunto-me muitas vezes: teria feito diferente se fosse mãe? Teria conseguido perdoar mais cedo? Ou será que há feridas que nunca saram?
E vocês? O que fariam no meu lugar? Até onde vai o nosso dever para com quem nos magoou?