Nunca Mais Vou Permitir Que Me Magoe: Uma História Sobre a Minha Sogra e os Limites
— Marta, não achas que já chega de fazeres as coisas à tua maneira? — A voz da Dona Lurdes ecoou pela cozinha, cortando o silêncio como uma faca afiada. Eu estava a preparar o jantar, as mãos a tremer ligeiramente enquanto cortava cebolas. O cheiro forte misturava-se com o nó na minha garganta.
Olhei para ela, sentada à mesa com aquele olhar crítico que me acompanhava desde o dia em que casei com o Rui. Tentei sorrir, mas saiu-me um esgar forçado. — Dona Lurdes, só estou a tentar fazer o melhor para todos…
Ela interrompeu-me com um gesto brusco. — O melhor? O melhor era ouvires quem tem mais experiência! Sempre fiz assim, e nunca ninguém morreu por isso. — O Rui entrou na cozinha nesse momento, apanhando o fim da frase. Olhou para mim, depois para a mãe, e suspirou.
— Mãe, deixa a Marta em paz. Ela sabe o que faz — disse ele, mas sem convicção. Sabia que não queria conflitos, mas também nunca me defendia verdadeiramente. Senti-me sozinha naquele instante, como tantas outras vezes.
A verdade é que desde que me casei com o Rui, há sete anos, a Dona Lurdes fez questão de estar presente em todos os momentos da nossa vida. No início achei que era carinho, preocupação de mãe. Mas rapidamente percebi que era controlo. Ela criticava tudo: a forma como arrumava a casa, como educava os meus filhos, até como cozinhava o arroz.
Lembro-me de uma noite em particular, há três anos. O meu filho mais novo, o Tiago, tinha febre alta. Eu estava aflita, sem saber se devia levá-lo ao hospital ou esperar mais um pouco. Liguei ao Rui, que estava a trabalhar até tarde. Ele disse para perguntar à mãe dele. Quando Dona Lurdes chegou cá a casa, nem olhou para mim. Pegou no Tiago ao colo e disse: — Isto é porque não sabes cuidar dele. Eu avisei-te que não devias dar-lhe gelado ontem.
Senti-me tão pequena naquele momento. Quis gritar, quis dizer-lhe que era minha responsabilidade, que eu era mãe dele. Mas calei-me. Sempre me calei.
Os anos foram passando e fui perdendo partes de mim. Deixei de convidar amigas para casa porque sabia que ela ia criticar tudo. Deixei de cozinhar os meus pratos preferidos porque ela dizia que eram “modernices” sem sabor. Até comecei a duvidar das minhas capacidades como mãe e mulher.
O Rui continuava a ser o filho perfeito para ela. Sempre disponível, sempre pronto a agradar. E eu? Eu era apenas um acessório na vida deles.
As discussões começaram a ser mais frequentes entre mim e o Rui. Uma noite, depois de mais uma visita inesperada da Dona Lurdes — ela tinha chave de casa, claro — explodi:
— Não aguento mais! Ela entra aqui quando quer, critica tudo o que faço… Isto não é vida!
O Rui olhou para mim com ar cansado. — Marta, ela só quer ajudar…
— Ajudar? Isto não é ajudar! Isto é controlar! — As lágrimas começaram a cair-me pelo rosto abaixo. — Preciso que me escolhas a mim, Rui. Preciso que sejas meu marido antes de seres filho dela.
Ele ficou em silêncio. E eu percebi que estava sozinha nesta luta.
Foi nesse dia que decidi procurar ajuda. Falei com uma psicóloga do centro de saúde da nossa freguesia. Contei-lhe tudo: as críticas constantes, o sentimento de invasão, a falta de apoio do Rui.
— Marta, você tem direito ao seu espaço e à sua voz — disse-me ela com uma calma reconfortante. — Tem de aprender a impor limites.
Limites. Era uma palavra estranha para mim. Na minha família sempre me ensinaram a respeitar os mais velhos, a engolir sapos para manter a paz. Mas aquela paz estava a destruir-me por dentro.
Comecei devagarinho. Primeiro troquei a fechadura da porta sem dizer nada à Dona Lurdes. Quando ela apareceu no dia seguinte e não conseguiu entrar, tocou à campainha furiosa.
— O que é isto? Não posso entrar na casa do meu filho?
Respirei fundo e respondi: — Dona Lurdes, esta é a minha casa também. Preciso do meu espaço e privacidade.
Ela ficou vermelha de raiva e saiu porta fora sem dizer mais nada.
O Rui ficou chocado quando soube. Discutimos durante horas naquela noite.
— Estás a criar problemas onde não existem! A minha mãe só quer ajudar!
— Não quero saber! Preciso de respirar! Preciso de ser eu nesta casa!
Durante semanas mal nos falámos. O ambiente era pesado, os miúdos sentiam-no também.
A Dona Lurdes começou a ligar todos os dias ao Rui para se queixar de mim. Ele ficava dividido entre nós as duas. Eu sentia-me cada vez mais isolada.
Até que um dia, o Tiago chegou da escola triste.
— Mãe, porque é que a avó diz que tu és má?
O meu coração partiu-se naquele momento. Sentei-me ao lado dele e abracei-o com força.
— Filho, às vezes as pessoas dizem coisas quando estão chateadas ou não compreendem os outros. Mas tu sabes que eu te amo muito, não sabes?
Ele assentiu com a cabeça e abraçou-me ainda mais forte.
Foi aí que percebi: não podia continuar assim. Não podia deixar que aquela relação tóxica destruísse a minha família e me destruísse a mim.
Marquei uma conversa com o Rui numa tarde em que os miúdos estavam na escola.
— Rui, ou isto muda ou eu vou embora — disse-lhe com toda a firmeza que consegui reunir.
Ele olhou para mim assustado. — Estás a falar sério?
— Nunca estive tão séria na vida. Amo-te, mas não posso continuar nesta prisão emocional.
Pela primeira vez vi lágrimas nos olhos dele.
— Não quero perder-te… Nem aos miúdos…
— Então ajuda-me! Ajuda-nos! Temos de ser uma família independente da tua mãe.
Foi um processo lento e doloroso. O Rui começou finalmente a impor limites à mãe dele: deixou de atender todas as chamadas dela; explicou-lhe que precisava de respeitar o nosso espaço; defendeu-me quando ela tentava manipular as situações.
A Dona Lurdes ficou meses sem nos falar direito. Fez chantagem emocional com toda a gente da família: tias, primos, até vizinhos souberam da “ingratidão” da nora má.
Mas eu mantive-me firme. Pela primeira vez na vida senti-me dona do meu destino.
Hoje as coisas estão melhores — não perfeitas, mas melhores. A Dona Lurdes aprendeu (à força) que não pode controlar tudo nem todos. O Rui percebeu finalmente o quanto me magoou ao não me apoiar antes.
Às vezes olho para trás e pergunto-me como aguentei tanto tempo calada. Quantas mulheres portuguesas vivem presas nestas teias familiares sem voz nem vez?
Será preciso chegar ao limite para sermos ouvidas? Ou podemos ensinar as próximas gerações a amar sem anular?