Filhos e netos esqueceram-se de mim: nunca pensei envelhecer sozinha

— Mãe, não podes ligar-me a esta hora, estou numa reunião! — A voz do meu filho, António, ecoou fria do outro lado da linha. Olhei para o relógio: eram apenas seis da tarde. O silêncio da casa pesava-me nos ombros como um cobertor húmido. Sentei-me na poltrona, a mesma onde embalei os meus filhos em bebés, e perguntei-me: como é que cheguei aqui?

Sempre fui Maria do Carmo, a mulher que nunca deixava faltar nada a ninguém. Cresci no bairro de Campo de Ourique, onde todos se conheciam pelo nome e as portas ficavam entreabertas para vizinhos e amigos. Casei cedo com o Manuel, um homem bom, mas que partiu demasiado cedo, deixando-me com dois filhos pequenos e uma vida inteira para reconstruir. Trabalhei como costureira durante quarenta anos, fiz vestidos de noiva para metade das raparigas do bairro. Os meus filhos, António e Sofia, eram tudo para mim. Lembro-me de noites sem dormir a costurar para poder pagar-lhes os estudos.

Agora, aos 78 anos, a casa está vazia. O relógio da sala marca as horas com uma precisão cruel. Os meus filhos vivem ambos em Lisboa, a menos de meia hora de metro. Os meus netos — o Diogo, a Matilde e o Tomás — cresceram depressa demais. No início vinham todos os domingos almoçar comigo. Depois começaram a faltar por causa dos trabalhos da escola, dos treinos de futebol, das festas de aniversário. Agora passam-se meses sem que eu veja alguém da família.

No Natal passado, preparei o bacalhau com todos, como sempre. Pus a mesa com a toalha bordada pela minha mãe e esperei. Esperei até às nove da noite. O telefone tocou: era a Sofia.

— Mãe, desculpa, o Tomás está com febre e o António ficou preso no trabalho. Vamos passar aí amanhã, pode ser?

No dia seguinte vieram por meia hora. Trouxeram um bolo comprado no supermercado e saíram apressados. Fiquei sozinha a arrumar os pratos.

A solidão começou a pesar mais do que nunca. Oiço os vizinhos a rir nos corredores, vejo famílias inteiras no jardim em frente ao prédio. Eu? Fico à janela a ver a vida passar.

Um dia, ao descer para ir ao supermercado, tropecei no tapete da entrada e caí. Fiquei ali estendida no chão frio durante minutos que pareceram horas. Ninguém apareceu. Quando finalmente consegui levantar-me, sentei-me nas escadas e chorei como uma criança.

Naquela noite liguei à Sofia.

— Filha, preciso de falar contigo.
— Agora não posso, mãe. Estou a dar banho ao Tomás.
— Sofia… sinto-me muito sozinha.
— Mãe, todos temos vidas ocupadas. Não podes depender tanto de nós.

Desliguei sem dizer mais nada. Senti-me egoísta por querer atenção dos meus próprios filhos.

Os dias passaram todos iguais: acordar cedo, preparar o pequeno-almoço para ninguém, ver televisão até adormecer na poltrona. Comecei a perder vontade de sair à rua. O mundo parecia ter-se esquecido de mim.

Uma tarde ouvi uma discussão no corredor: era a Dona Amélia do 3º esquerdo a ralhar com o neto adolescente. Sorri pela primeira vez em semanas — pelo menos alguém ainda se importava com os avós.

Foi então que recebi uma carta na caixa do correio. Era um convite da Junta de Freguesia para um grupo de convívio para idosos. Hesitei durante dias, mas acabei por ir.

Na primeira reunião conheci o Sr. Joaquim, viúvo como eu, e a Dona Teresa, que perdeu o filho num acidente há anos. Partilhámos histórias e lágrimas. Pela primeira vez em muito tempo senti-me vista.

Comecei a ir todas as semanas ao grupo. Fiz amizades verdadeiras. Organizámos passeios ao Jardim da Estrela, tardes de fado e até aulas de informática — imagine-se! Aprendi a enviar mensagens pelo telemóvel e até criei uma conta no Facebook.

Um dia publiquei uma fotografia antiga dos meus filhos pequenos e escrevi: “Saudades do tempo em que éramos inseparáveis.” Não demorou muito até receber uma mensagem do António:

— Mãe, está tudo bem? Porque publicaste isto?
Respondi apenas: “Tenho saudades vossas.” Ele não respondeu.

Mas algo mudou depois disso. Uns dias depois, o António apareceu sem avisar com o Diogo.

— Mãe… desculpa não termos vindo mais vezes. A vida tem sido uma confusão.
Olhei para ele nos olhos pela primeira vez em anos.
— Eu só queria sentir que ainda faço parte da vossa vida.
O Diogo abraçou-me sem dizer nada.

A partir desse dia começaram a visitar-me mais vezes — não todas as semanas, mas mais do que antes. A Sofia ligou-me para saber das minhas aulas de informática e até pediu ajuda para coser um botão.

Não voltei a sentir-me tão invisível como antes. Descobri que não posso obrigar ninguém a amar-me como eu gostaria — mas posso procurar novas formas de me sentir viva.

Às vezes pergunto-me: quantos pais e avós estarão agora sentados sozinhos à espera de um telefonema? Será que os nossos filhos sabem mesmo o quanto precisamos deles? E vocês — já ligaram hoje aos vossos pais?