“Será que vivi sempre numa mentira?” – Confissões de uma mulher de Coimbra

— Não me mintas, Rui! Diz-me a verdade, por favor! — gritei, com a voz embargada, enquanto as minhas mãos tremiam tanto que mal conseguia segurar o telemóvel.

O silêncio dele do outro lado da linha era ensurdecedor. O relógio da cozinha marcava 22h17, e eu sentia o coração a bater tão forte que parecia querer saltar do peito. Lá fora, chovia torrencialmente, como se o céu quisesse lavar as mágoas que se acumulavam dentro de mim há meses.

Sempre fui uma mulher discreta, daquelas que preferem ouvir a falar. Cresci em Coimbra, numa família onde as discussões eram abafadas pelo som da televisão e onde os segredos se guardavam como relíquias. A minha mãe dizia sempre: “Filha, não faças ondas. O mar calmo é mais seguro.” E eu cresci a acreditar nisso.

Quando conheci o Rui, ele era tudo aquilo que eu achava que precisava: trabalhador, educado, com um sorriso tímido e um olhar que parecia prometer estabilidade. Casámo-nos cedo, numa cerimónia simples na Sé Velha, rodeados apenas pela família mais próxima. Nunca houve grandes paixões ou gestos arrebatadores, mas havia respeito e uma rotina confortável. Achei que isso bastava.

Os anos passaram e vieram os filhos: primeiro a Mariana, depois o Tiago. A nossa vida era feita de pequenos rituais — o café juntos ao domingo de manhã, os passeios pelo Mondego, as noites de filmes em casa. Eu sentia-me segura, mesmo quando o Rui começou a chegar mais tarde do trabalho ou quando se fechava no escritório a responder a e-mails até de madrugada.

Mas naquela noite, tudo mudou. O telemóvel dele vibrou em cima da mesa enquanto ele tomava banho. Uma mensagem apareceu no ecrã: “Sinto tanto a tua falta… Quando voltas?” O nome era Ana Paula. O meu coração gelou.

Esperei que ele saísse do banho e sentei-me à mesa da cozinha, com o telemóvel entre as mãos. Quando entrou, olhou para mim e percebeu logo que algo estava errado.

— O que se passa? — perguntou, tentando soar casual.

— Quem é a Ana Paula? — perguntei, sem conseguir conter as lágrimas.

Ele hesitou. O silêncio dele foi uma resposta mais clara do que qualquer palavra. Senti-me ridícula por não ter visto antes os sinais: as desculpas esfarrapadas, os sorrisos ausentes, as viagens de trabalho inesperadas.

— Não é nada do que estás a pensar… — começou ele, mas eu já não conseguia ouvir. Levantei-me e saí para a rua, sem saber para onde ir.

Caminhei durante horas pelas ruas molhadas de Coimbra. Lembrei-me da minha mãe e das suas palavras sobre mares calmos. Mas agora percebia: o mar calmo pode esconder tempestades profundas.

Nos dias seguintes, tentei manter a normalidade para os meus filhos. Mariana tinha 14 anos e Tiago 10; ambos perceberam que algo estava errado. Mariana começou a fechar-se no quarto e Tiago fazia perguntas às quais eu não sabia responder.

A minha irmã, Sofia, foi a primeira pessoa a quem contei tudo.

— Tu não tens de aguentar tudo sozinha — disse-me ela, abraçando-me com força. — Não és menos mulher por quereres ser feliz.

Mas como é que se recomeça depois de uma traição? Como é que se olha para os filhos e se explica que o pai já não vai dormir em casa? Como é que se enfrenta a família, os vizinhos, os colegas de trabalho?

O Rui tentou pedir desculpa. Disse que tinha sido um erro, que ainda me amava, que queria tentar outra vez. Mas eu já não conseguia confiar nele. Cada vez que olhava para ele via a mensagem da Ana Paula escrita em letras vermelhas na minha memória.

As discussões tornaram-se frequentes. Uma noite, Mariana desceu as escadas a chorar:

— Por favor, parem! Eu não aguento mais!

Foi nesse momento que percebi que não podia continuar assim. Não podia deixar que os meus filhos crescessem num ambiente de gritos e silêncios pesados.

Decidi pedir o divórcio. Rui saiu de casa numa manhã fria de janeiro. O vazio que deixou parecia impossível de preencher. Os dias seguintes foram um borrão de papéis para assinar, reuniões com advogados e olhares de pena dos vizinhos.

A minha mãe ficou em choque quando lhe contei:

— Filha… tens a certeza? Não queres tentar mais uma vez?

— Mãe, já tentei tudo. Agora preciso pensar em mim… e nos miúdos.

Ela chorou baixinho ao telefone. Sempre quis proteger-me do mundo, mas agora percebia que não podia viver eternamente escondida atrás do silêncio.

Os meses passaram devagar. Tive de aprender a viver sozinha: pagar contas, arranjar pequenos problemas em casa, lidar com a solidão das noites longas. Mariana começou a sair mais com as amigas; Tiago refugiou-se nos jogos do computador.

Houve dias em que pensei em desistir de tudo. Em que me perguntei se algum dia voltaria a confiar em alguém ou se conseguiria voltar a ser feliz.

Mas aos poucos fui encontrando pequenas alegrias: um café com uma amiga antiga; um passeio sozinha à beira do rio; um livro lido até tarde na sala silenciosa. Comecei a perceber que não precisava de ninguém para me sentir completa.

Um dia, ao arrumar o sótão, encontrei uma caixa com cartas antigas do meu pai. Ele morreu quando eu era pequena e sempre senti falta dos seus conselhos. Numa das cartas ele escrevia: “A vida é feita de escolhas difíceis, filha. Mas nunca deixes de lutar pela tua felicidade.”

Chorei ao ler aquelas palavras. Senti-me abraçada à distância por alguém que sempre quis o melhor para mim.

Hoje olho para trás e vejo uma mulher diferente daquela que começou esta história. Uma mulher mais forte, mais consciente do seu valor. Os meus filhos também mudaram: Mariana tornou-se mais independente; Tiago aprendeu a falar dos seus sentimentos.

O Rui tentou voltar várias vezes. Mandou flores no meu aniversário, escreveu cartas longas onde pedia perdão. Mas eu sabia que não podia voltar atrás. A confiança é como um espelho: quando parte, nunca volta a ser igual.

Às vezes ainda me pergunto se fiz tudo certo. Se devia ter lutado mais pelo nosso casamento ou se devia ter perdoado mais depressa. Mas depois olho para mim ao espelho e vejo alguém de quem me orgulho.

Será possível reconstruir-se depois de perder tudo aquilo em que acreditávamos? Ou será que só nos encontramos verdadeiramente quando somos obrigados a recomeçar do zero?