Baran, Koza, Cão – Como Sobrevivi à Małgorzata
— Outra vez, António? Não consegues fazer nada direito! — O grito da Małgorzata ecoou pela casa, misturando-se com o latido frenético do Cão e o balido irritado da nossa velha cabra, a Koza. Eu estava de joelhos no chão da cozinha, a tentar limpar o molho de tomate que tinha acabado de entornar. O cheiro ácido misturava-se com o cheiro a palha húmida que vinha do quintal. Senti o rosto arder, não só pelo esforço, mas pela vergonha.
“Como é que cheguei aqui?”, pensei. Lembro-me de quando conheci a Małgorzata na feira de Santarém. Ela era um furacão: olhos verdes, cabelo desgrenhado, riso fácil e uma língua afiada. Apaixonei-me por ela como um miúdo se apaixona pelo primeiro cão — sem pensar nas consequências. Ela dizia que eu era o seu Baran, o carneiro teimoso que precisava de alguém para o guiar. E eu deixei-me guiar.
Os primeiros meses foram doces. Íamos ao café do senhor Américo, ríamos dos mexericos das vizinhas e sonhávamos com uma vida simples. Mas a simplicidade fugiu-nos entre os dedos assim que nos mudámos para a casa herdada do meu avô. A casa era velha, cheia de buracos e memórias. E foi aí que tudo começou a descambar.
— António! A Koza fugiu outra vez! — gritava ela da janela, enquanto eu corria pelo quintal atrás da cabra teimosa. O Cão, um rafeiro castanho de olhar triste, ladrava como se quisesse ajudar, mas só atrapalhava. Os vizinhos espreitavam por detrás das cortinas, prontos para comentar mais uma das minhas trapalhadas.
O senhor Joaquim, do lado, nunca perdia uma oportunidade:
— Ó António, homem! Ainda não aprendeste a fechar o portão?
Eu sorria amarelo e respondia:
— Pois, senhor Joaquim… isto hoje está complicado.
A verdade é que tudo estava complicado. Małgorzata queria ordem, queria progresso, queria respeito dos vizinhos. Eu só queria paz. Mas paz era coisa rara naquela casa.
As discussões começaram pequenas: sobre quem devia lavar a loiça, sobre o dinheiro que nunca chegava para tudo, sobre os sonhos que ela tinha e que eu não sabia se podia acompanhar. Depois vieram as acusações:
— Tu não fazes nada certo! — dizia ela.
— Faço o melhor que posso… — respondia eu, cada vez mais baixo.
Uma noite, depois de mais uma discussão por causa do Cão ter roído as botas dela novas, sentei-me no degrau da entrada e chorei. Chorei como um miúdo perdido. O Cão veio encostar-se a mim, abanando a cauda devagarinho. Senti-me menos sozinho.
No dia seguinte, tentei surpreendê-la: limpei a casa toda, tratei dos animais e até fiz o jantar. Quando ela chegou do trabalho, olhou em volta e disse:
— Fizeste isto tudo? — Havia surpresa na voz dela.
Assenti com um sorriso tímido.
Ela suspirou:
— António… às vezes acho que não te conheço.
Fiquei sem saber se aquilo era um elogio ou uma crítica. Mas naquela noite dormimos lado a lado sem discussões. O silêncio soube-me bem.
Os meses passaram e as coisas não melhoraram muito. O dinheiro continuava curto; ela arranjou outro trabalho em Lisboa e vinha cada vez mais cansada. Eu fazia biscates: pintava casas, limpava terrenos, vendia ovos da Koza no mercado. Mas nada parecia suficiente.
Um dia, ouvi-a ao telefone com a mãe:
— Mãe, não sei se isto vai resultar… Ele é bom homem, mas falta-lhe ambição.
Senti um nó na garganta. Fui para o quintal e atirei pedras ao poço velho até os dedos me doerem.
A tensão aumentou quando o senhor Américo nos chamou para conversar:
— Ouvi dizer que andam a discutir muito… Isto não faz bem nem a vocês nem aos bichos.
Małgorzata respondeu seca:
— Não se meta onde não é chamado.
Eu baixei os olhos. Sentia-me pequeno.
Nessa noite, ela chegou tarde e cheirava a vinho barato. Sentou-se à mesa e disse:
— António… achas que ainda faz sentido?
Fiquei calado. O silêncio pesou entre nós como uma pedra.
— Eu amo-te — disse finalmente — mas já não sei se basta.
Ela chorou baixinho. Pela primeira vez em muito tempo, abracei-a sem medo de ser rejeitado.
No dia seguinte, tentei mudar as coisas: procurei trabalho fora da aldeia, inscrevi-me num curso noturno de eletricista em Santarém. Queria mostrar-lhe que podia ser mais do que o Baran desastrado de sempre.
Mas as mudanças trazem outros problemas. Ela começou a desconfiar das minhas ausências:
— Onde estiveste até tão tarde?
— No curso…
— Não me mintas!
A desconfiança corroía-nos por dentro. O Cão adoeceu nessa altura; levei-o ao veterinário com dinheiro emprestado do senhor Joaquim. Quando voltei para casa com ele nos braços, Małgorzata olhou-me nos olhos e disse:
— Porque é que te preocupas tanto com esse cão? Nem dos teus problemas cuidas assim!
Explodi:
— Pelo menos ele não me julga! Pelo menos ele fica feliz quando me vê!
Ela atirou um prato contra a parede. O barulho assustou até a Koza.
Durante dias mal nos falámos. Eu dormia no sofá com o Cão aos pés; ela trancava-se no quarto. Os vizinhos começaram a cochichar ainda mais alto.
Um domingo de manhã, Małgorzata fez as malas.
— Vou passar uns dias em casa da minha mãe — disse seca.
Fiquei parado à porta enquanto ela desaparecia estrada fora.
Foram dias longos e silenciosos. Cuidei da casa como nunca antes: limpei tudo, tratei dos animais, pintei as paredes velhas do corredor. Senti falta dela até nas discussões.
Quando voltou, trazia um olhar diferente: cansado mas decidido.
— António… ou mudamos juntos ou isto acaba aqui.
Assenti. Sentei-me com ela à mesa e falámos como nunca antes: dos nossos medos, das nossas falhas, dos sonhos adiados.
Decidimos tentar outra vez — mas desta vez sem fingir que tudo estava bem. Fomos juntos ao psicólogo da vila; ouvimos conselhos do senhor Américo (desta vez sem ironias). Aprendi a pedir ajuda; ela aprendeu a confiar mais em mim.
Hoje olho para trás e vejo quanto me perdi nas pequenas guerras do quotidiano: querer agradar aos outros, querer ser perfeito aos olhos dela e dos vizinhos… Esqueci-me de quem era antes de tudo isto começar.
Agora pergunto-me: quantos de nós já se perderam assim? Quantos continuam a lutar todos os dias para serem vistos e respeitados dentro das suas próprias casas?
E vocês? Já sentiram que estavam a desaparecer nas pequenas batalhas do dia a dia?