“Esta casa também é minha!” – Um dia em que tudo mudou
— Isto não é justo, Miguel! — gritei, sentindo a voz embargar-se-me na garganta. O Miguel olhou para mim, cansado, como se já tivesse vivido esta discussão mil vezes. Mas, naquele dia, tudo era diferente. Na cozinha, Dona Amélia mexia o café como se estivesse na própria casa dela, e o Tio Artur já tinha ocupado o sofá com os pés descalços em cima da mesa de centro.
Acordei com o barulho das chaves na porta. Não era normal. O Miguel tinha dado uma cópia à mãe “para emergências”, mas nunca pensei que ela usasse assim, sem aviso. Levantei-me ainda de pijama e dei de caras com eles no corredor, as malas encostadas à parede.
— Bom dia, filha! — disse Dona Amélia, com aquele sorriso forçado que sempre me deixou desconfortável. — Viemos passar uns dias convosco. O prédio está em obras e não aguento mais aquele pó todo.
O Tio Artur nem se deu ao trabalho de cumprimentar. Passou por mim como se eu fosse invisível. Senti o coração apertar. Aquela casa era o meu refúgio, o único sítio onde podia ser eu mesma, sem máscaras. E agora estava invadida.
Miguel tentou acalmar-me:
— Vai correr tudo bem, amor. É só por uns dias.
Mas eu sabia que “uns dias” na boca da Dona Amélia podiam ser semanas ou meses. Já tinha visto isso acontecer com a cunhada dela, a Teresa, que ainda hoje se queixa de nunca ter recuperado a sala depois de uma “visita” destas.
No início tentei ser cordial. Preparei o pequeno-almoço para todos, mesmo sentindo-me uma estranha na minha própria cozinha. Mas logo começaram os comentários:
— O café está fraco, filha. Na minha casa sempre se fez café forte! — disse Dona Amélia.
— Este sofá não é nada confortável — resmungou o Tio Artur, afundando-se ainda mais.
O Miguel limitava-se a sorrir e a encolher os ombros. Parecia não perceber o peso que tudo aquilo tinha para mim.
Os dias passaram e a tensão foi crescendo. A Dona Amélia começou a reorganizar as gavetas da cozinha “para facilitar”, mudou os móveis da sala “porque assim fica mais arejado” e até criticou as minhas plantas:
— Estas orquídeas estão a morrer de sede! Não sabes cuidar delas?
Eu sentia-me cada vez mais sufocada. Chegava do trabalho e encontrava a casa diferente todos os dias. O cheiro do perfume forte da Dona Amélia impregnava tudo. O Tio Artur monopolizava a televisão com os programas de caça e pesca que eu detestava.
Uma noite, depois de mais uma discussão sobre o jantar — “Na minha casa nunca se come massa ao jantar!” — fechei-me na casa de banho e chorei em silêncio. Senti-me pequena, impotente, como se tivesse perdido tudo aquilo por que lutei desde que saí da casa dos meus pais: independência, respeito, espaço próprio.
Tentei falar com o Miguel:
— Não aguento mais isto! Preciso do meu espaço! Eles não podem simplesmente invadir a nossa vida assim!
Ele suspirou:
— São família… Não posso mandá-los embora.
— E eu? Não sou tua família também? — perguntei, sentindo as lágrimas a quererem cair outra vez.
Ele ficou calado. O silêncio dele doeu mais do que qualquer palavra.
No dia seguinte, cheguei a casa e encontrei a Dona Amélia a remexer nos meus papéis do escritório.
— Estou só a arrumar isto um bocadinho — disse ela, sem olhar para mim.
Senti uma raiva surda crescer dentro de mim. Aquilo era demais. Liguei à minha mãe:
— Mãe, não aguento mais! Eles estão a destruir tudo…
A minha mãe tentou acalmar-me:
— Filha, tens de impor limites. Essa casa também é tua!
Naquela noite, sentei-me com o Miguel na varanda. O ar estava pesado.
— Ou eles vão embora ou eu vou — disse-lhe, finalmente.
Ele olhou para mim assustado:
— Não podes estar a falar a sério…
— Estou sim. Preciso de respirar. Preciso de sentir que pertenço aqui.
No dia seguinte, antes de sair para o trabalho, deixei um bilhete na mesa da cozinha:
“Esta casa também é minha. Preciso do meu espaço e do meu respeito. Por favor, conversem comigo antes de mudarem as coisas.”
Quando voltei, encontrei Dona Amélia sentada à mesa com os olhos vermelhos.
— Não era nossa intenção magoar-te… — disse ela baixinho.
O Tio Artur resmungou qualquer coisa sobre “as mulheres de hoje em dia”, mas pela primeira vez senti que me tinham ouvido.
No fim daquela semana, arranjaram um quarto num hotel perto do prédio deles até as obras acabarem. O Miguel ficou estranho durante uns dias, mas aos poucos voltámos ao nosso ritmo.
Ainda hoje penso naquele período como um teste à minha coragem e aos meus limites. Aprendi que não basta amar alguém — é preciso lutar pelo nosso espaço e pela nossa voz.
Às vezes pergunto-me: quantas pessoas já passaram por isto e ficaram caladas? Quantas vezes deixamos que nos tirem o chão sem sequer darmos por isso? E vocês? Até onde iriam para proteger o vosso lar?