Quando o meu marido entregou todo o meu trabalho à mãe dele – tempestade familiar à portuguesa
— Rui, onde estão os pratos que preparei para esta semana? — perguntei, sentindo o coração a bater mais depressa enquanto abria e fechava as portas do frigorífico, incrédula.
Ele hesitou, desviando o olhar para o chão da cozinha. — A minha mãe passou cá hoje à tarde. Achei que ela precisava mais do que nós… Levei-lhe tudo.
Por um momento, o silêncio pesou entre nós como uma pedra. Senti um nó na garganta, uma mistura de raiva, tristeza e humilhação. Passei o fim de semana inteiro a cozinhar — bacalhau com natas, arroz de pato, sopa de legumes, até um pudim de ovos para adoçar a semana. Cada prato era um pedaço do meu esforço, do meu tempo roubado ao descanso e aos meus próprios sonhos.
— Rui… — a minha voz saiu trémula, quase um sussurro. — Nem sequer me perguntaste? Nem uma mensagem?
Ele encolheu os ombros, como se aquilo fosse um detalhe sem importância. — A minha mãe está sozinha desde que o meu pai morreu. Sabes como ela anda…
— E eu? — interrompi, sentindo as lágrimas a quererem saltar. — Eu também ando cansada. Também preciso de sentir que o que faço tem valor nesta casa!
O Rui ficou calado. Oiço ao fundo a televisão da sala, onde a nossa filha Inês brinca com os legos. Senti-me invisível, como se tudo o que faço fosse apenas um dado adquirido, algo que pode ser dado ou tirado sem sequer me consultar.
Naquela noite, não jantámos juntos. Fui para o quarto mais cedo, fingindo ler um livro enquanto as lágrimas me caíam pelo rosto. Lembrei-me de todas as vezes em que abdiquei dos meus próprios planos para agradar à família dele: os almoços de domingo em casa da sogra, as festas de aniversário onde eu era sempre a última a sentar-me à mesa porque estava a ajudar na cozinha.
No dia seguinte, acordei com os olhos inchados e uma decisão tomada: precisava de falar com a minha sogra. Liguei-lhe antes de sair para o trabalho.
— Dona Teresa, posso passar aí depois do trabalho? Precisamos de conversar.
Ela pareceu surpreendida, mas acedeu. Passei o dia inteiro ansiosa, a ensaiar mentalmente o que ia dizer. No escritório, mal consegui concentrar-me nas tarefas. A minha colega Sofia percebeu logo que algo não estava bem.
— O Rui fez das dele outra vez? — perguntou ela, meio a brincar.
Sorri sem vontade. — Desta vez foi longe demais.
Quando cheguei à casa da Dona Teresa, ela recebeu-me com um sorriso caloroso e um prato de arroz doce na mão.
— Olha que querida! Trouxe-te um pouco do arroz doce que fiz ontem. O Rui disse-me que andavas cansada…
Sentei-me à mesa da cozinha dela, onde tantas vezes fui recebida como filha. Mas hoje sentia-me diferente — magoada e zangada.
— Dona Teresa, preciso de lhe pedir uma coisa… Sei que o Rui lhe levou a comida que preparei para nós cá em casa. Não é por mal, mas gostava que ele me tivesse perguntado primeiro. Eu também preciso de sentir que o meu esforço é reconhecido.
Ela pousou o prato e olhou-me nos olhos com uma expressão séria.
— Filha, nunca quis causar problemas entre vocês. O Rui só queria ajudar… Mas percebo-te. Eu também fui nora e sei como é difícil encontrar o nosso lugar numa família que já existia antes de nós.
As palavras dela tocaram-me mais do que eu esperava. Pela primeira vez senti que ela me via — não só como mulher do filho dela, mas como pessoa.
— Às vezes sinto-me só — confessei. — Sinto que tudo o que faço é para os outros e nunca para mim.
Ela segurou-me na mão.
— Tens de falar com ele. Não deixes que isto fique entre vocês.
Voltei para casa mais leve, mas determinada. Esperei até a Inês adormecer para falar com o Rui.
— Preciso que me oiças sem interromper — pedi-lhe. Ele assentiu, finalmente atento.
— Senti-me desrespeitada quando deste toda a comida à tua mãe sem me perguntares. Não é só pela comida — é por sentir que não tenho voz nesta casa. Que tudo o que faço pode ser levado sem sequer me consultares.
Ele ficou calado durante uns segundos longos demais.
— Nunca pensei nisso assim… Só queria ajudar a minha mãe. Mas percebo agora que te magoei.
— Não quero competir com a tua mãe — disse-lhe, sentindo finalmente as palavras saírem com clareza. — Só quero sentir que também conto. Que sou tua parceira, não uma empregada invisível.
Ele aproximou-se e abraçou-me devagar.
— Desculpa. Prometo perguntar-te antes de tomar decisões destas outra vez.
Os dias seguintes foram estranhos — uma mistura de alívio e insegurança. A Dona Teresa ligou-me duas vezes para saber como estava e até trouxe um tupperware com sopa para nós. O Rui começou a ajudar mais em casa e até sugeriu irmos jantar fora só os dois.
Mas as feridas não desapareceram de um dia para o outro. Continuei a pensar em todas as vezes em que me anulei para manter a paz na família dele. E perguntei-me: quantas mulheres portuguesas vivem assim todos os dias? Quantas vezes nos calamos para não criar ondas?
Hoje olho para trás e vejo como foi importante ter falado — mesmo tremendo, mesmo chorando. Porque se não lutarmos pelos nossos limites, quem lutará por nós?
E vocês? Já sentiram que tudo o que fazem pode ser levado sem sequer vos perguntarem? Até onde vão os vossos limites numa família?