Quando o Meu Neto Me Disse: ‘Quando Tiveres a Reforma, Fico Contigo’
— Avó, quando tiveres a reforma, fico contigo. — As palavras do Tomás ecoaram na cozinha fria, entre o cheiro do café acabado de fazer e o tilintar das chávenas. Ele disse aquilo com a inocência de quem tem dez anos e acredita que o mundo se resolve com promessas simples. Mas eu, Maria, senti o coração apertar-se como se alguém me tivesse puxado o tapete debaixo dos pés.
Fiquei ali parada, com a colher suspensa no ar, a olhar para ele. O Tomás nem percebeu o peso do que acabara de dizer. Sorriu-me, como se me tivesse dado um presente. Mas eu só conseguia pensar: será que ele vê em mim uma obrigação? Um fardo? Ou será que sou apenas a avó que faz bolos ao domingo e lhe conta histórias antes de dormir?
A minha filha, a Sofia, entrou na cozinha nesse momento, apressada como sempre. — Mãe, já deste o pequeno-almoço ao Tomás? — perguntou sem sequer me olhar nos olhos. — Tenho de sair cedo hoje, há greve no metro e não posso chegar atrasada outra vez.
— Já dei, filha — respondi, tentando disfarçar a voz trémula. — O Tomás estava só a dizer-me uma coisa bonita.
Ela olhou para mim com aquele ar cansado, como se cada palavra fosse mais um peso nos ombros. — Não lhe metas ideias na cabeça, mãe. Ele tem de aprender que as coisas não são assim tão simples.
Fiquei calada. Não quis discutir logo de manhã. Mas dentro de mim fervilhava uma raiva antiga, aquela sensação de ser invisível na própria casa. Desde que o meu marido morreu — já lá vão oito anos — sinto-me cada vez mais à margem. A Sofia trabalha demais, o genro quase não fala comigo e o Tomás… bem, ele é o meu raio de sol. Mas até esse raio parece agora ameaçado por nuvens.
Depois do pequeno-almoço, sentei-me à janela com o meu tricô. Olhei para a rua: os vizinhos apressados, os carros a buzinar, o senhor Joaquim do talho a abrir as portadas. Tudo igual há décadas, mas tudo diferente para mim. Lembrei-me dos tempos em que a casa estava cheia: risos, discussões, festas improvisadas ao domingo. Agora, os silêncios pesam mais do que qualquer barulho.
O telefone tocou. Era a minha irmã, a Teresa.
— Então, Maria? Como vai essa vida? — perguntou ela com aquela voz animada que sempre me irritou um bocadinho.
— Vai-se andando… O Tomás disse-me uma coisa hoje que me deixou a pensar.
— O quê?
— Que quando eu tiver a reforma, fica comigo.
A Teresa riu-se. — Olha que sorte! Os meus nem querem saber se estou viva ou morta.
— Não sei se é sorte… Sinto-me tão sozinha às vezes. E agora parece que até o Tomás já pensa no dia em que eu vou precisar dele.
— Isso é normal, Maria. Os miúdos percebem mais do que pensamos. Mas tens de falar com a Sofia. Não podes ficar aí à espera que tudo mude sozinho.
Desliguei sem grande vontade de continuar a conversa. A Teresa sempre foi mais prática do que eu. Eu sou feita de silêncios e memórias.
À hora do almoço, tentei puxar conversa com a Sofia.
— Lembras-te quando eras pequena e ficavas comigo nas férias? — perguntei-lhe enquanto cortava as batatas.
Ela suspirou. — Mãe, não tenho tempo para essas conversas agora. Tenho uma reunião importante daqui a pouco.
— Só queria saber se eras feliz…
Ela parou por um instante e olhou para mim. — Fui feliz, mãe. Mas agora tenho outras preocupações.
O silêncio voltou a instalar-se entre nós. Senti-me velha e inútil. Como se já não houvesse espaço para mim nesta casa.
À tarde fui ao centro de dia buscar pão e aproveitei para conversar com a dona Rosa.
— Sabes, Maria — disse ela enquanto me dava o troco — às vezes penso que somos como móveis antigos: ninguém quer deitar fora porque têm valor sentimental, mas também ninguém usa.
Ri-me pela primeira vez naquele dia. Talvez seja mesmo isso: sou um móvel antigo nesta casa moderna.
Quando voltei, encontrei o Tomás no quarto dele, agarrado ao telemóvel.
— Tomás, posso falar contigo?
Ele tirou os auscultadores e olhou para mim com aqueles olhos grandes e sinceros.
— O que foi, avó?
— Quando disseste que ficavas comigo quando eu tivesse a reforma… era a sério?
Ele encolheu os ombros. — Claro! Gosto de estar contigo. E assim não ficas sozinha.
Abracei-o com força. Senti as lágrimas nos olhos mas não deixei cair nenhuma.
Nessa noite houve discussão cá em casa. O meu genro chegou tarde e começou logo aos gritos porque o jantar estava frio.
— Isto não é vida! — gritou ele para a Sofia. — Sempre atrasados por tua causa!
Ela respondeu-lhe com voz cansada:
— Se ajudasses mais em casa talvez as coisas corressem melhor!
Eu fiquei ali no canto da sala, invisível como sempre. O Tomás fugiu para o quarto dele e eu fui atrás dele mais tarde.
— Não ligues aos gritos dos teus pais — disse-lhe baixinho. — Às vezes os adultos esquecem-se do que é importante.
Ele sorriu-me e pediu-me para lhe contar uma história antes de dormir. Contei-lhe como era Lisboa quando eu era pequena: as ruas cheias de pregões, os elétricos amarelos a chiar nas curvas, as tardes passadas no jardim da Estrela com os meus irmãos.
Enquanto falava, percebi que estava a contar-lhe não só histórias antigas mas também pedaços de mim mesma que já ninguém queria ouvir.
Nos dias seguintes tentei falar mais com a Sofia sobre o futuro.
— Achas que vou ser um peso para ti quando for mais velha? — perguntei-lhe numa manhã chuvosa.
Ela ficou surpreendida com a pergunta.
— Claro que não, mãe! Mas sabes como é… A vida está difícil para toda a gente. Eu só quero dar o melhor ao Tomás e garantir que nada lhe falta.
— E eu? Falta-me companhia… falta-me sentir-me útil.
Ela abraçou-me pela primeira vez em muito tempo.
— Desculpa se tenho estado ausente… Às vezes esqueço-me que também precisas de mim.
Chorámos as duas nesse abraço silencioso.
Os meses passaram e chegou finalmente o dia da minha reforma. Não houve festa nem bolo; só um envelope dos correios e um silêncio estranho à mesa do jantar.
O Tomás olhou para mim e disse:
— Agora podes vir buscar-me à escola todos os dias?
Sorri-lhe e disse que sim. E nesse momento percebi que talvez ainda houvesse espaço para mim nesta família — mesmo que fosse só nos pequenos gestos do dia-a-dia.
Mas à noite, sozinha no meu quarto, continuei a perguntar-me: será este o destino de todas as avós? Serem lembradas apenas quando fazem falta? Ou haverá ainda tempo para sermos felizes por nós próprias?