Não És Meu Filho, Então Por Que Me Sacrificaria?

— Não és meu filho, então por que me sacrificaria? — As palavras do António ecoaram pela cozinha fria, cortando o silêncio como uma lâmina. Eu tinha doze anos e, até aquele momento, nunca tinha sentido tanto frio dentro de casa. A minha mãe, Maria, baixou os olhos para o chão, as mãos trémulas a apertar o pano da loiça. Eu fiquei parado, com o coração a bater tão alto que parecia que todos podiam ouvir.

Lembro-me de pensar: “Se não sou filho dele, então de quem sou?” Cresci a ouvir sussurros na aldeia de Alenquer. “O Dário não se parece nada com o António”, diziam as vizinhas enquanto penduravam roupa nos estendais. Mas a minha mãe nunca me explicou nada. Sempre que perguntava pelo meu pai verdadeiro, ela desviava o olhar para o horizonte, como se lá longe estivesse uma resposta que nunca chegava.

Naquela noite, depois daquele jantar desfeito em gritos e portas a bater, fui para o meu quarto e enterrei a cara na almofada. Ouvia-os a discutir na sala. O António dizia que não ia gastar mais dinheiro comigo, que já bastava ter-me dado um teto. A minha mãe chorava baixinho, pedindo-lhe que não fosse tão duro. Eu só queria desaparecer.

No dia seguinte, na escola, tentei fingir que estava tudo bem. Mas a professora Ana percebeu logo. “Dário, está tudo bem em casa?” perguntou ela, com aquela voz suave que só os professores de primária sabem ter. Quis dizer-lhe tudo, mas calei-me. Não queria ser motivo de pena.

Os anos passaram e o António nunca me deixou esquecer que não era dele. Quando fiz quinze anos, quis inscrever-me no futebol do clube local. “Para quê? Não vou gastar dinheiro em ti”, disse ele. A minha mãe tentou convencer-lhe, mas acabou por me dar uma bola velha e dizer para jogar no quintal. Passei tardes inteiras a chutar contra a parede, a imaginar que era o Eusébio a marcar golos no Estádio da Luz.

Aos dezassete anos, descobri finalmente a verdade. A minha mãe chamou-me à cozinha numa tarde de verão. O cheiro a sopa de feijão enchia a casa. “Dário, está na altura de saberes tudo”, disse ela, com lágrimas nos olhos. Contou-me que o meu pai biológico era um homem chamado Joaquim, um pescador de Peniche com quem ela se apaixonou antes de conhecer o António. Mas o Joaquim desapareceu no mar antes de eu nascer. O António aceitou casar com ela grávida, mas nunca conseguiu amar-me como filho.

Senti raiva e alívio ao mesmo tempo. Raiva por me terem escondido tudo, alívio por finalmente saber quem era. Saí de casa nessa noite e fui até ao rio. Sentei-me na margem e chorei até não ter mais lágrimas.

A relação com o António piorou ainda mais depois disso. Ele começou a chegar tarde a casa, muitas vezes bêbado. Uma noite, entrou no meu quarto aos gritos:

— Achas que és melhor do que eu? Achas? Não passas de um bastardo!

Levantei-me e olhei-o nos olhos pela primeira vez sem medo.

— Não pedi para nascer — respondi, com a voz firme apesar do medo.

Ele levantou a mão, mas parou a meio caminho. Saiu do quarto e ouvi-o chorar na sala.

A minha mãe tentou manter a paz entre nós, mas era impossível. O ambiente em casa tornou-se insuportável. Comecei a passar mais tempo fora: estudava na biblioteca, ajudava o senhor Manuel na mercearia em troca de uns trocos.

Foi aí que conheci a Sofia. Ela era nova na aldeia, vinda de Lisboa com os pais depois do divórcio deles. Tinha um sorriso triste e olhos curiosos. Tornámo-nos amigos rapidamente. Ela ouvia-me sem julgar e ria-se das minhas piadas secas.

Uma tarde de outono, sentados no muro da igreja, contei-lhe tudo.

— Sinto que nunca vou ser suficiente — confessei.

Ela pegou na minha mão.

— Tu és suficiente para mim.

Essas palavras foram um bálsamo para as feridas abertas pelo António.

Com o tempo, comecei a sonhar com uma vida diferente. Queria sair dali, estudar em Lisboa, ser alguém. Mas o dinheiro era pouco e as oportunidades ainda menos. A minha mãe incentivava-me:

— Vai atrás dos teus sonhos, Dário. Não deixes que ninguém te diga quem és.

O António ignorava-me ou lançava bocas:

— Vais acabar como o teu pai: perdido no mar.

No dia em que recebi a carta da universidade, chorei de alegria e medo ao mesmo tempo. Fui mostrar à minha mãe; ela abraçou-me com força.

— Estou tão orgulhosa de ti!

O António nem olhou para mim durante o jantar.

Antes de partir para Lisboa, fui despedir-me dele. Estava sentado no alpendre, cigarro na mão.

— Vou embora amanhã — disse eu.

Ele não respondeu durante uns segundos longos demais.

— Faz o que quiseres — murmurou por fim.

Na estação de autocarros, a minha mãe chorou muito. Prometi-lhe voltar sempre que pudesse.

Lisboa era um mundo novo: ruas cheias de gente apressada, prédios altos e luzes por todo o lado. No início senti-me perdido, mas também livre pela primeira vez na vida. Arranjei trabalho num café para pagar as contas e estudava à noite.

A Sofia veio visitar-me algumas vezes; acabámos por namorar à distância até ela também entrar na universidade.

Os anos passaram depressa. Licenciei-me em Psicologia — talvez porque sempre quis entender as dores invisíveis das pessoas à minha volta… ou talvez porque queria entender as minhas próprias feridas.

Quando voltei à aldeia para visitar a minha mãe no Natal, encontrei o António muito doente: magro, envelhecido antes do tempo. A minha mãe pediu-me para falar com ele.

Entrei no quarto dele; estava deitado na cama, olhos fixos no teto.

— Olá — disse eu baixinho.

Ele virou-se devagar.

— Vieste ver se já morri?

Sentei-me ao lado dele.

— Vim ver se precisava de alguma coisa…

Ele ficou calado muito tempo antes de falar:

— Nunca soube ser pai para ti… Desculpa.

As lágrimas correram-lhe pelo rosto enrugado. Pela primeira vez vi fragilidade naquele homem duro.

— Eu só queria ser amado — respondi eu.

Ele estendeu a mão trémula e eu apertei-a entre as minhas.

Naquele momento percebi que perdoar não é esquecer; é libertar-nos do peso da mágoa.

O António morreu poucos meses depois. No funeral estavam poucos amigos; muitos já tinham partido ou afastado-se ao longo dos anos pela sua amargura.

Hoje vivo em Lisboa com a Sofia — agora minha mulher — e os nossos dois filhos pequenos. Às vezes olho para eles e pergunto-me como alguém pode negar amor a uma criança só porque não partilha o mesmo sangue.

A minha mãe vem visitar-nos sempre que pode; é uma avó dedicada e carinhosa. Ainda sinto saudades do passado que nunca tive — um passado onde teria sido apenas filho sem condições nem reservas.

Às vezes pergunto-me: quantas crianças crescem assim, à margem do amor dos adultos? E quantos adultos carregam feridas antigas porque nunca foram aceites? Talvez partilhar estas perguntas seja já um passo para quebrar o ciclo… O que acham vocês?