Este não é o homem que eu casei: A história de Madalena e o abismo no casamento

— Não foi isto que combinámos, Pedro! — gritei, sentindo a voz embargar-se de cansaço e raiva. A loiça ainda estava por lavar, os brinquedos dos gémeos espalhados pelo chão da sala, e Pedro, sentado no sofá, olhava para o telemóvel como se nada fosse com ele.

Ele levantou os olhos, frios, distantes. — Madalena, não tenho cabeça para isto agora. Acabei de chegar do trabalho.

A minha vontade era chorar ali mesmo, mas engoli em seco. Desde que a Sofia e o António nasceram, há seis meses, parecia que tudo o que fazíamos era discutir. Antes, Pedro era o meu porto seguro. Agora, era como se um estranho tivesse ocupado o lugar dele.

Lembro-me do dia em que nos conhecemos na faculdade em Coimbra. Ele fazia-me rir com as suas piadas secas e tinha sempre um abraço pronto quando eu precisava. Casámos numa igreja pequena em Aveiro, rodeados de amigos e família. Jurámos amor eterno, na saúde e na doença. Mas ninguém nos avisou que a doença podia ser o desgaste do dia-a-dia.

A primeira vez que senti que algo estava errado foi numa noite em que a Sofia chorava sem parar. Tentei acalmá-la durante horas enquanto Pedro dormia profundamente. Quando finalmente lhe pedi ajuda, ele resmungou:

— Não podes tu tratar disso? Amanhã tenho uma reunião importante.

Senti-me sozinha como nunca antes. E essa solidão foi crescendo, alimentada por pequenas indiferenças: ele chegava tarde, não perguntava como eu estava, evitava olhar-me nos olhos. Até as conversas banais sobre o supermercado ou as contas da casa acabavam em discussões.

A gota de água foi quando a minha sogra começou a aparecer lá em casa quase todos os dias. Dona Teresa sempre foi controladora, mas agora parecia ter encontrado uma missão: apontar tudo o que eu fazia de errado.

— Madalena, não devias dar tanto colo à Sofia. Vais habituá-la mal — dizia ela, enquanto pegava no António com um sorriso vitorioso.

Pedro nunca me defendia. Limitava-se a encolher os ombros ou a sair de casa para “arejar a cabeça”. Uma vez, ouvi-o ao telefone com ela:

— Mãe, tens razão… A Madalena anda muito nervosa ultimamente.

Senti-me traída. Não bastava sentir-me invisível em minha própria casa; agora era também a má da fita.

As noites tornaram-se longas e solitárias. Por vezes, sentava-me no quarto dos gémeos a vê-los dormir só para me lembrar do porquê de ainda estar ali. O cheiro deles, a pele macia, os sorrisos desdentados… Era por eles que eu aguentava.

Mas até isso começou a ser posto em causa quando Pedro sugeriu:

— Talvez devesses voltar a trabalhar. Assim distraías-te e deixavas de estar tão obcecada com as crianças.

Obcecada? Eu? Fui eu quem ficou acordada noites inteiras, quem aprendeu a dar banho aos dois ao mesmo tempo, quem decorou os horários das vacinas e das consultas. E agora era “obcecada”?

Comecei a duvidar de mim própria. Será que estava mesmo a exagerar? Falei com a minha mãe ao telefone:

— Mãe, sinto-me tão perdida… O Pedro já não é o mesmo.

Ela suspirou do outro lado da linha:

— Filha, os homens às vezes demoram mais a adaptar-se. Dá-lhe tempo.

Mas quanto tempo? Quantas noites mais eu teria de chorar sozinha na casa de banho para não acordar os bebés?

Certa tarde, depois de mais uma discussão sobre quem devia ir buscar fraldas ao supermercado, Pedro saiu batendo com a porta. Fiquei ali parada na cozinha, com as mãos trémulas e o coração aos pulos. Foi então que Dona Teresa apareceu sem avisar.

— O Pedro está muito cansado — disse ela, olhando-me de cima abaixo como se eu fosse uma criança birrenta. — Tens de ser mais compreensiva.

— E eu? — perguntei-lhe, incapaz de conter as lágrimas. — Quem é compreensivo comigo?

Ela encolheu os ombros e foi ver os netos como se eu não existisse.

Nessa noite, sentei-me à mesa da cozinha com um caderno à frente. Escrevi tudo o que sentia: raiva, tristeza, medo de perder o Pedro, medo de perder-me a mim própria. Escrevi sobre os sonhos que tínhamos juntos — viagens pelo Douro, tardes preguiçosas na praia da Costa Nova — e sobre como tudo isso parecia agora tão distante.

Quando Pedro voltou para casa já passava da meia-noite. Olhou para mim com ar cansado.

— Podemos falar? — perguntou ele.

Assenti em silêncio.

— Não sei o que se passa connosco — começou ele. — Sinto-me sufocado… E tu pareces sempre zangada comigo.

— Sinto-me sozinha — respondi-lhe num fio de voz. — Sinto que perdi o homem por quem me apaixonei.

Ele passou as mãos pelo rosto e ficou calado durante um longo minuto.

— Talvez precisemos de ajuda — disse finalmente.

Foi a primeira vez em meses que senti uma réstia de esperança. Procurámos terapia de casal nas semanas seguintes. As sessões eram duras; muitas vezes saíamos mais zangados do que entrávamos. Mas também aprendemos a ouvir-nos sem gritar, a reconhecer o cansaço um do outro.

A relação com Dona Teresa continuou tensa. Houve dias em que tive vontade de lhe fechar a porta na cara. Mas aprendi a impor limites:

— Dona Teresa, agradeço a sua ajuda mas preciso de espaço para ser mãe à minha maneira.

Ela não gostou mas respeitou — ou pelo menos fingiu respeitar.

Pedro começou a chegar mais cedo a casa e ajudava mais com os gémeos. Houve noites em que voltámos a rir juntos enquanto dávamos banho aos miúdos ou víamos séries no sofá. Mas havia feridas profundas entre nós; algumas talvez nunca sarassem completamente.

Hoje olho para Pedro enquanto ele brinca com Sofia e António no tapete da sala. Ainda sinto medo: medo de voltar àquele abismo silencioso onde quase nos perdemos; medo de não ser suficiente; medo de um dia acordar e perceber que já não há nada para salvar.

Mas também sinto esperança — esperança de que juntos possamos reconstruir algo novo sobre as ruínas do que fomos.

Pergunto-me: quantos casais sobrevivem ao caos dos primeiros anos de parentalidade? Quantos conseguem reencontrar-se depois das tempestades? Será possível amar alguém diferente daquele por quem nos apaixonámos?