Só é família, diziam… Mas até onde vai o amor quando só um lado cede?
— Só é família, Mariana, vais dizer que não consegues arranjar mais um sandes para o teu sobrinho? — A voz da minha mãe ecoou pela cozinha, carregada de uma doçura forçada que eu conhecia demasiado bem. Era aquele tom que usava sempre que queria que eu cedesse, mesmo quando tudo dentro de mim gritava para dizer não.
Olhei para a bancada, para as fatias de pão já contadas, para o queijo e o fiambre que eu tinha comprado com o meu ordenado curto de assistente administrativa. O meu sobrinho, o Tiaguinho, corria pela sala, rindo alto, alheio à tensão que se instalava entre os adultos. A minha irmã, a Sofia, estava sentada ao telemóvel, nem sequer olhou para mim. Era sempre assim: eu fazia, ela agradecia com um sorriso apressado e seguia com a vida dela.
Mas naquele dia, algo em mim estalou. Talvez tenha sido o cansaço de semanas a fio a cuidar do Tiaguinho depois do trabalho, enquanto a Sofia dizia que tinha “coisas importantes” para tratar. Talvez tenha sido o olhar da minha mãe, sempre pronta a defender a filha mais nova, como se eu fosse feita de ferro e ela de vidro.
— Mãe, não é só uma sandes — respondi, tentando manter a voz firme. — Não é só hoje. É sempre. Sempre sou eu a dar, sempre sou eu a ceder.
A minha mãe suspirou, pousando as mãos nas ancas. — Mariana, não faças dramas. A família é para ajudar.
A família é para ajudar. Quantas vezes ouvi aquela frase? Quantas vezes engoli em seco e disse sim, mesmo quando queria dizer não? Lembrei-me dos dias em que era eu a precisar de ajuda e ninguém tinha tempo. Lembrei-me do Natal passado, quando fiquei sozinha porque “a Sofia precisava de descansar” e a mãe foi com ela para o Algarve.
O Tiaguinho apareceu à porta da cozinha com as bochechas coradas. — Tia, posso ver desenhos animados?
Sorri-lhe, mas por dentro sentia-me a desmoronar. — Podes, querido. Vai lá para a sala.
A Sofia levantou finalmente os olhos do telemóvel. — Mariana, se não podes tomar conta dele hoje à noite também, diz já. Tenho um jantar importante com o Rui.
O Rui. O namorado novo da Sofia, que nunca conheci porque ela nunca achou importante apresentar-mo. O Rui que era sempre prioridade, enquanto eu era apenas o plano B.
— Não posso — disse, surpreendendo-me com a firmeza da minha própria voz. — Hoje não posso.
O silêncio caiu pesado na cozinha. A minha mãe olhou-me como se eu tivesse cometido uma traição. A Sofia bufou.
— A sério? Vais-me deixar pendurada por causa de quê? Vais ficar em casa a ver novelas?
Senti as lágrimas a quererem saltar-me dos olhos, mas recusei-me a chorar ali. — Sofia, eu também tenho vida. Também preciso de tempo para mim.
A minha mãe abanou a cabeça. — Mariana, tu és tão egoísta às vezes…
E foi aí que perdi o controlo.
— Egoísta? Eu? Eu sou egoísta por querer uma noite só para mim? Por querer descansar depois de semanas a trabalhar e a cuidar do filho da Sofia? Porquê é que nunca pedes à Sofia para ajudar? Porquê é que sou sempre eu?
A minha mãe ficou vermelha. — Não fales assim comigo!
A Sofia levantou-se de rompante. — Esquece! Não preciso de ti para nada! — Agarrou no Tiaguinho pelo braço e saiu porta fora sem olhar para trás.
Fiquei ali parada, com as mãos a tremer e o coração aos pulos. A minha mãe saiu também, murmurando qualquer coisa sobre “filhas ingratas”.
Quando finalmente fiquei sozinha na cozinha, sentei-me à mesa e chorei tudo o que tinha guardado durante anos. Chorei pelo cansaço, pela solidão, pela sensação de nunca ser suficiente.
Nos dias seguintes, ninguém me ligou. O silêncio era ensurdecedor. No trabalho, os colegas perguntavam se estava tudo bem e eu sorria como se nada fosse. Mas por dentro sentia-me vazia.
Uma semana depois, recebi uma mensagem da Sofia: “Preciso que fiques com o Tiaguinho no sábado à tarde.” Só isso. Sem desculpas, sem perguntas sobre como eu estava.
Respirei fundo antes de responder: “Desculpa, não posso.” E desliguei o telemóvel.
No domingo seguinte, fui almoçar sozinha ao café da esquina. Vi mães com filhos pequenos, irmãos a discutir sobre futebol, casais de idosos de mãos dadas. Senti inveja daquela simplicidade toda. Senti falta de uma família onde todos se apoiam sem cobranças nem jogos de culpa.
À noite, recebi uma chamada da minha mãe. Atendi com o coração apertado.
— Mariana… — A voz dela estava mais suave do que nunca ouvi antes. — Podemos falar?
— Podemos.
— Eu… talvez tenha sido injusta contigo. Só queria manter a família unida.
— Eu sei, mãe. Mas às vezes sinto que só eu é que faço esse esforço.
Houve um silêncio longo do outro lado.
— Vou falar com a Sofia — disse ela finalmente. — Talvez tenhamos todos de mudar um bocadinho.
Desliguei com uma sensação estranha: alívio misturado com medo do que viria a seguir.
Os dias passaram devagar. A Sofia não me falou durante semanas. No Natal desse ano, fui convidada para jantar em casa dos meus pais como sempre, mas desta vez levei um bolo feito por mim e sentei-me à mesa sem me oferecer para ajudar em tudo. Observei enquanto a Sofia tentava entreter o Tiaguinho sozinha e percebi que ela também estava cansada à sua maneira.
No fim do jantar, ela aproximou-se de mim na varanda enquanto fumava um cigarro às escondidas da mãe.
— Desculpa — disse baixinho. — Sei que abuso muitas vezes.
Olhei para ela e vi ali a minha irmã mais nova outra vez, não aquela mulher distante dos últimos tempos.
— Também devia ter dito alguma coisa há mais tempo — respondi. — Mas não posso ser sempre eu a ceder.
Ela assentiu e ficámos ali em silêncio durante uns minutos, cada uma perdida nos seus pensamentos.
Hoje olho para trás e percebo como um simples pedido pode ser o início de uma avalanche silenciosa dentro de nós. Quantas vezes dizemos sim só porque é mais fácil do que enfrentar o conflito? Quantas vezes deixamos os nossos limites serem pisados em nome da paz familiar?
E vocês? Já sentiram que só vocês é que seguram tudo nas vossas famílias? Até onde estão dispostos a ir antes de dizer basta?