Espelhos Partidos: O Jogo do Reflexo Entre Nora e Sogra
— Não precisa vir este fim de semana, mãe. Estamos muito ocupados — disse o meu filho, Rui, sem sequer olhar para mim, enquanto arrumava as compras na bancada da cozinha da casa deles.
Senti o peito apertar, como se alguém me tivesse tirado o chão. Não era a primeira vez que ouvia aquelas palavras, mas naquele sábado de janeiro, com o vento a bater nas janelas e o cheiro a café frio no ar, doeu mais do que nunca. Olhei para a minha nora, Mariana, que fingia não ouvir, entretida com o telemóvel. O silêncio entre nós era pesado, quase palpável.
“Será que sou um estorvo?”, pensei. Desde que Rui casou com Mariana, parecia que eu tinha deixado de existir para eles. Antes, era eu quem lhe fazia o jantar favorito ao domingo, quem lhe passava as camisas para o trabalho, quem ouvia os seus desabafos. Agora, mal me atendiam o telefone.
Naquele dia, voltei para casa de autocarro, com as mãos geladas e o coração ainda mais frio. Sentei-me à mesa da cozinha, sozinha, e olhei para a moldura com a fotografia do Rui em pequeno. As lágrimas caíram sem pedir licença. “Basta”, sussurrei para mim mesma. “A partir de hoje, vou tratá-los exatamente como me tratam.”
No domingo seguinte, Mariana ligou-me às oito da manhã:
— Dona Teresa, pode vir cá ficar com a Matilde? Temos de sair cedo para um compromisso.
Respirei fundo antes de responder:
— Hoje não posso, Mariana. Tenho planos.
Do outro lado da linha, silêncio. Quase podia ver a expressão de surpresa dela. Pela primeira vez em anos, disse não. E soube-me bem.
Os dias passaram e comecei a recusar convites de última hora, a não estar sempre disponível para resolver os problemas deles. Quando Rui me ligava só para pedir favores, respondia com educação mas sem aquela urgência de mãe que tudo faz pelo filho.
Certa tarde, encontrei a minha vizinha D. Amélia no café.
— Então Teresa, está tudo bem? Tem estado tão calada…
Contei-lhe o que se passava. Ela sorriu com tristeza:
— Filha, às vezes é preciso ensinar os outros a dar valor à nossa presença.
As palavras dela ecoaram em mim durante dias. Comecei a sair mais de casa: fui ao cinema sozinha, inscrevi-me num curso de pintura na junta de freguesia, voltei a encontrar amigas antigas para lanchar. Aos poucos, fui recuperando partes de mim que julgava perdidas.
Mas em casa do Rui e da Mariana, o ambiente mudou. Eles começaram a estranhar a minha ausência. Um sábado à tarde, Rui apareceu à minha porta com a Matilde pela mão.
— Mãe… podemos entrar?
Sentei-os à mesa da cozinha. Rui parecia nervoso.
— Tens estado diferente — disse ele. — Quase não falas connosco.
Olhei-o nos olhos:
— Só estou a tratar-vos como vocês me tratam há meses.
Mariana baixou os olhos. Matilde brincava com uma colher de pau, alheia à tensão.
— Não sabíamos que te sentias assim — murmurou Mariana.
— Nunca perguntaram — respondi.
O silêncio voltou a instalar-se entre nós. Mas desta vez era diferente: havia perguntas por fazer, mágoas por sarar.
Na semana seguinte, recebi um convite para jantar em casa deles. Fizeram o meu prato favorito: bacalhau à Brás. Rui ajudou-me a tirar o casaco quando cheguei; Mariana perguntou-me sobre o curso de pintura.
Aos poucos, fomos reconstruindo pontes. Não foi fácil: houve discussões, lágrimas e pedidos de desculpa tardios. Mas aprendi que impor limites não é falta de amor — é respeito por mim mesma.
Hoje em dia vejo-os menos vezes do que gostaria, mas quando estamos juntos há mais verdade entre nós. Já não sou apenas “a avó disponível” ou “a sogra conveniente”; sou Teresa, mulher com vida própria e sentimentos.
Às vezes pergunto-me: quantas mães e sogras vivem anos inteiros anulando-se pelos filhos? Quantas famílias poderiam ser mais felizes se todos se olhassem como espelhos — dando e recebendo respeito na mesma medida?
E vocês? Já sentiram que precisavam de se fazer ouvir na vossa família? O que fariam diferente se tivessem coragem de impor limites?