Entre o Meu Filho e a Minha Nora: O Almoço de Domingo que Mudou Tudo
— Mãe, precisamos de falar contigo. — A voz do Miguel tremeu, enquanto pousava o guardanapo ao lado do prato. O cheiro do arroz de pato ainda pairava na sala, misturado com o aroma doce do bolo de laranja que acabara de sair do forno. Sofia, sentada ao lado dele, olhava para as mãos, os olhos vermelhos como se já tivesse chorado antes de chegar.
O silêncio caiu sobre nós como uma toalha pesada. O relógio da parede marcava três da tarde, mas o tempo parecia ter parado. Senti o coração apertar-se no peito. Tantas vezes imaginei este almoço como um reencontro feliz, depois de semanas em que mal falávamos. Mas nunca imaginei isto.
— O que se passa? — perguntei, tentando sorrir, mas a voz saiu-me fraca.
Miguel olhou para Sofia, depois para mim. — Vamos divorciar-nos.
As palavras caíram como pedras. Senti-me afundar na cadeira. Olhei para Sofia, que finalmente ergueu os olhos. Havia dor ali, mas também uma espécie de alívio.
— Já tentámos tudo, Dona Teresa — disse ela, baixinho. — Mas não conseguimos mais.
O meu filho passou as mãos pelo cabelo, nervoso. — Não é culpa de ninguém. Só… acabou.
Fiquei sem saber o que dizer. Oiço histórias destas na televisão, leio nos jornais, mas nunca pensei que me tocasse assim. O Miguel e a Sofia eram o casal perfeito aos olhos dos outros: casaram-se na igreja da aldeia, fizeram uma festa bonita no salão dos bombeiros, compraram casa juntos em Almada. Lutei tanto para os ajudar quando começaram do zero. E agora isto.
— E… o que esperam de mim? — perguntei, sentindo as lágrimas a quererem saltar.
Sofia respirou fundo. — Queremos que saibas primeiro por ti. Mas também… precisamos do teu apoio.
Miguel interrompeu-a: — Não quero que fiques do lado dela só porque és mulher. És minha mãe.
Senti-me rasgada ao meio. Sofia sempre foi como uma filha para mim. Quando os pais dela morreram num acidente, foi cá em casa que ela encontrou colo. Lembro-me das noites em que lhe levava chá ao quarto porque não conseguia dormir de tanto chorar.
— Não me peçam para escolher — sussurrei. — Não posso.
O Miguel levantou-se abruptamente, a cadeira a arrastar-se no chão com um som áspero. — Então vais ficar neutra? Como se isto não te dissesse respeito?
— Miguel! — Sofia tentou acalmá-lo, mas ele já estava de costas voltadas.
Fiquei ali sentada, sem saber o que fazer com as mãos. Olhei para o bolo intocado na mesa. Tinha passado a manhã inteira a prepará-lo, a pensar que talvez um pouco de doçura ajudasse a sarar feridas antigas entre eles. Em vez disso, tudo desabava à minha frente.
O Miguel saiu para a varanda, batendo a porta com força. Sofia ficou sentada à minha frente, os olhos fixos na chávena de chá.
— Desculpe, Dona Teresa. Sei que isto é difícil para si também.
Aproximei-me dela e segurei-lhe as mãos. — Sofia, tu sempre foste como uma filha para mim. Não sei viver sem ti por perto.
Ela sorriu tristemente. — Eu também não sei como vai ser agora.
Olhámos uma para a outra em silêncio. Lembrei-me das tardes em que fazíamos bolos juntas, das conversas à janela enquanto víamos o Tejo ao longe. Tudo isso parecia tão distante agora.
O Miguel voltou à sala com os olhos vermelhos. — Vou sair por uns dias. Preciso de pensar.
— Vais para onde? — perguntei, aflita.
— Para casa do Rui — respondeu ele, referindo-se ao amigo de infância que vivia em Setúbal.
Sofia levantou-se devagar. — Eu fico num hotel até arranjar casa.
Olhei para eles e senti-me impotente. Como é que se repara uma família partida? Como é que se escolhe entre um filho e alguém que se ama como filha?
Depois daquele dia, a casa ficou vazia demais. O telefone tocava menos vezes; as mensagens eram curtas e formais. Os vizinhos começaram a perguntar porque é que já não víamos a Sofia ao sábado no mercado ou porque é que o Miguel parecia tão abatido quando vinha buscar pão à padaria.
Uma noite, sentei-me sozinha na sala e chorei tudo o que tinha para chorar. Lembrei-me do meu próprio casamento falhado com o pai do Miguel, das noites em claro a tentar perceber onde tinha errado. Sempre prometi a mim mesma que faria tudo diferente com o meu filho: dar-lhe-ia apoio incondicional, nunca julgaria as suas escolhas.
Mas agora sentia-me perdida entre dois amores impossíveis de conciliar.
Os dias passaram devagar. O Miguel ligava-me às vezes, mas evitava falar da Sofia. A Sofia mandava mensagens curtas: “Está tudo bem consigo?” ou “Precisa de alguma coisa?”
No Natal desse ano, tentei juntar os dois à mesa. Convidei-os separadamente, sem dizer nada um ao outro. No dia 24 à noite, ambos apareceram à porta ao mesmo tempo.
O constrangimento era palpável. O Miguel entrou primeiro, cumprimentando-me com um beijo apressado na testa. A Sofia ficou à porta, hesitante.
— Entra, filha — disse-lhe eu, tentando sorrir.
Sentaram-se à mesa em silêncio. O bacalhau arrefeceu nos pratos enquanto trocavam olhares furtivos e palavras soltas sobre o tempo e o trabalho.
No fim da noite, quando já só restavam migalhas de bolo-rei na toalha branca, o Miguel levantou-se:
— Mãe… desculpa por te pôr nesta posição.
A Sofia olhou para mim com lágrimas nos olhos:
— Eu também peço desculpa por tudo.
Levantei-me e abracei-os aos dois ao mesmo tempo. Senti-os tremer nos meus braços como crianças perdidas num temporal.
— Vocês são ambos parte de mim — disse-lhes baixinho. — Não me peçam para escolher porque não consigo amar menos nenhum dos dois.
Naquela noite percebi que talvez nunca houvesse uma solução perfeita para aquela dor. Mas também percebi que o amor de mãe não se divide: multiplica-se nas ausências e nas presenças, nas memórias e nas saudades.
Hoje ainda me pergunto: será possível ser justa quando o coração está dividido? Como é que se aprende a viver com esta escolha impossível? Talvez nunca encontre resposta… Mas gostava tanto de ouvir as vossas histórias.