“Que família é esta?” – O dia em que percebi que nunca seria aceite

— Não sei como é que ainda tens coragem de aparecer aqui, Mariana. — A voz da minha sogra cortou o silêncio da sala como uma faca afiada. O garfo caiu-me da mão, fazendo um barulho seco no prato. O meu marido, Rui, olhou para mim, mas não disse nada. Senti o sangue a subir-me ao rosto, o coração a bater tão forte que temi que todos o ouvissem.

A mesa estava posta com o melhor serviço de porcelana, as travessas fumegavam com bacalhau à Brás e arroz de pato, mas o cheiro a comida não conseguia disfarçar o ambiente pesado. Era suposto ser um almoço de domingo, daqueles que se prolongam até ao lanche, mas desde que entrei naquela casa senti que algo estava errado. Os olhares da irmã do Rui, a Joana, eram lâminas frias; o sogro, António, limitava-se a resmungar atrás do jornal.

— Mãe, por favor… — tentou Rui, mas a sogra interrompeu-o com um gesto brusco.

— Não te metas, Rui. Isto é entre mim e ela. — Fixou-me com os olhos escuros, duros como pedra. — Achas mesmo que és boa o suficiente para o meu filho? Desde que entraste nesta família só há problemas.

Senti as lágrimas a quererem saltar-me dos olhos, mas recusei-me a chorar ali. Engoli em seco e tentei manter a voz firme:

— Dona Lurdes, não vim aqui para ser humilhada. Vim porque achei que éramos uma família.

Ela riu-se, um riso amargo.

— Família? Tu nem sabes o que isso é. Olha para ti! Nem sabes cozinhar como deve ser, nem sabes tratar de uma casa… E agora queres ensinar-nos a viver?

O silêncio caiu pesado. A Joana revirou os olhos e murmurou algo para o namorado, que se limitou a encolher os ombros. O António levantou-se e saiu da sala sem dizer palavra. Senti-me sozinha no meio daquela gente.

Rui agarrou-me na mão por baixo da mesa.

— Mariana, vamos embora — sussurrou ele.

Mas eu não queria sair derrotada. Não queria dar-lhes esse prazer. Respirei fundo e tentei explicar:

— Eu amo o Rui. Só isso devia importar. Não vim aqui para vos roubar nada, nem para mudar ninguém. Só queria ser aceite.

A sogra levantou-se de repente, batendo com as mãos na mesa.

— Aceite? Nunca! Enquanto eu for viva, nunca vais ser da nossa família!

O Rui levantou-se também, furioso.

— Já chega! Mãe, se não consegues respeitar a Mariana, então não me respeitas a mim. Vamos embora.

Peguei na minha mala com as mãos a tremer. Ao sair da sala, ouvi ainda a Joana dizer:

— Vai-te embora mesmo! Sempre foste uma sonsa…

No carro, o Rui estava em silêncio. Eu chorava baixinho, olhando pela janela as ruas de Lisboa a passarem depressa demais.

— Desculpa — disse ele finalmente. — Nunca pensei que chegassem a este ponto.

— Achas que algum dia vão aceitar-me? — perguntei-lhe, sem esperar resposta.

Ele encolheu os ombros.

— Não sei… Mas não vou escolher entre ti e eles.

As palavras dele ficaram a ecoar na minha cabeça durante dias. Em casa, tentei agir normalmente: fui trabalhar no escritório de advogados onde sou secretária, fiz o jantar, tratei das roupas… Mas sentia-me vazia por dentro. O Rui evitava falar do assunto; passava mais tempo no trabalho ou fechado no escritório a jogar computador.

Uma noite, ao jantar, arrisquei:

— Achas que devíamos tentar falar com eles?

Ele suspirou.

— Não sei se vale a pena. A minha mãe é teimosa como uma mula. E a Joana… sempre teve ciúmes de mim.

— E tu? Vais ficar assim para sempre?

Ele não respondeu. Levantou-se e foi fumar para a varanda.

Os dias foram passando e comecei a sentir-me cada vez mais isolada. As amigas perguntavam-me porque já não ia aos jantares; a minha mãe ligava todos os dias preocupada:

— Mariana, filha… Não deixes que te tratem assim. Tu vales muito mais do que isso.

Mas eu sentia-me presa entre dois mundos: o do Rui e o da família dele; o meu próprio mundo parecia cada vez mais pequeno.

Um sábado à tarde, recebi uma mensagem inesperada da Joana:

«Podemos falar?»

Fiquei hesitante, mas acabei por aceitar encontrar-me com ela num café perto do Campo Pequeno. Quando cheguei, ela já lá estava, nervosa, mexendo no telemóvel.

— Olá — disse eu, sentando-me à sua frente.

Ela olhou-me nos olhos pela primeira vez sem hostilidade.

— Olha… Eu sei que a minha mãe foi dura demais contigo. Mas tu também tens de perceber: ela sempre sonhou outra coisa para o Rui. Sempre achou que ele ia casar com alguém “do nosso meio”…

— “Do vosso meio”? — repeti, magoada.

Ela corou.

— Não leves a mal… É só que… tu és diferente. E isso assusta-a. Ela tem medo de perder o filho para alguém que não entende as nossas tradições.

Fiquei calada durante uns segundos.

— Eu só quero ser feliz com ele. Não quero afastá-lo de vocês.

Ela suspirou.

— Talvez um dia ela perceba isso. Mas vai demorar…

Saí dali com um peso no peito e uma certeza: nunca seria aceite naquela família como sou. Mas será que devia mudar por eles?

O tempo passou e fui aprendendo a viver com essa rejeição. O Rui acabou por se afastar cada vez mais dos pais; as festas de Natal passaram a ser só nós dois; os aniversários eram silenciosos sem família à volta da mesa. Por vezes sentia culpa — estaria eu a destruir laços antigos? Outras vezes revoltava-me: porque é que tinha de ser sempre eu a ceder?

Um dia, ao arrumar papéis antigos numa gaveta, encontrei uma carta da minha mãe escrita pouco antes de morrer:

«Filha, nunca deixes ninguém fazer-te sentir menos do que és. O amor verdadeiro aceita-nos como somos.»

Chorei ao reler aquelas palavras. Talvez fosse altura de parar de tentar agradar a quem nunca me quis bem.

Nessa noite, sentei-me ao lado do Rui no sofá e disse-lhe:

— Quero ser feliz contigo. Mas não vou continuar a lutar por uma família que não me quer. Se quiseres ir vê-los sozinho, vai. Eu fico bem aqui.

Ele abraçou-me em silêncio e senti finalmente alguma paz.

Hoje olho para trás e pergunto-me: quantas pessoas vivem presas à necessidade de serem aceites por quem nunca as vai aceitar? Será possível perdoar quem nos rejeita só porque somos diferentes? E vocês — já passaram por algo assim?