Um Verão em Cascais: Segredos de Família, Traição e o Encontro Comigo Mesma
— Não me olhes assim, Sofia. Não é nada do que estás a pensar.
As palavras do Ricardo ecoaram na minha cabeça como um trovão abafado. Estávamos sentados na varanda da casa alugada em Cascais, o cheiro a maresia misturava-se com o aroma do café acabado de fazer. A Leonor corria lá fora, os pés enterrados na areia, rindo-se com a inocência de quem ainda não conhece as sombras do mundo.
Mas eu conhecia. E naquele verão, as sombras pareciam crescer à minha volta.
— Então explica-me, Ricardo. Explica-me porque é que tens estado tão distante. Porque é que passas horas ao telefone, sempre a sussurrar, sempre a esconder o ecrã de mim? — perguntei, tentando controlar o tremor na voz.
Ele desviou o olhar para o mar, como se as ondas pudessem levar para longe as respostas que eu tanto precisava de ouvir.
— É trabalho. Sabes como está difícil no escritório… — murmurou.
Mas eu sabia que não era só isso. O instinto de mulher, de mãe, de quem já sofreu desilusões antes, gritava dentro de mim. E foi nesse momento que percebi: aquele verão não seria como os outros.
Naquela noite, depois de adormecer a Leonor com uma história inventada sobre sereias e piratas, sentei-me sozinha na sala. O silêncio era pesado. Peguei no telemóvel do Ricardo — ele tinha deixado desbloqueado em cima da mesa. Não queria ser aquela mulher desconfiada, mas a dor da dúvida era maior do que qualquer orgulho.
As mensagens estavam lá. “Saudades tuas”, “Quando voltas para Lisboa?”, “Não aguento mais esta distância”. O nome era Mariana. Mariana… O nome soava-me familiar. Era colega dele do escritório, lembro-me de a ter cumprimentado uma vez numa festa da empresa. Senti um nó no estômago.
No dia seguinte, tentei agir normalmente. Preparei o pequeno-almoço para todos, fingi sorrisos para a Leonor. Mas dentro de mim, tudo estava a desmoronar-se.
— Mamã, vamos à praia? — pediu ela com os olhos brilhantes.
— Vamos sim, meu amor — respondi, forçando um sorriso.
Na praia, sentei-me na toalha enquanto via o Ricardo brincar com a Leonor dentro de água. Por momentos, quase consegui esquecer tudo. Mas depois vi-o olhar para o telemóvel e afastar-se para atender uma chamada. O meu coração apertou-se.
À noite, depois de adormecerem ambos, liguei à minha irmã, Inês. Ela sempre foi o meu porto seguro.
— Sofia? Está tudo bem? — perguntou ela assim que atendeu.
— Não… Inês, acho que o Ricardo me está a trair — confessei num sussurro.
Do outro lado ouvi um suspiro pesado.
— Já desconfiavas há muito tempo, não já? — perguntou ela com aquela franqueza típica dela.
— Sim… mas agora tenho provas — respondi, sentindo as lágrimas escorrerem-me pelo rosto.
— O que vais fazer?
Não soube responder. O medo do desconhecido era maior do que a raiva ou a tristeza. Tínhamos uma filha pequena, uma vida construída juntos… Como se recomeça do zero?
Nos dias seguintes, tentei confrontar o Ricardo várias vezes. Ele negava tudo ou desviava o assunto. A tensão entre nós era palpável; até a Leonor começou a perguntar porque é que estávamos tão calados.
Uma noite, depois de um jantar silencioso, explodi:
— Chega! Não aguento mais esta mentira! Eu vi as mensagens da Mariana! — gritei-lhe.
Ele ficou pálido. Pela primeira vez vi medo nos olhos dele.
— Sofia… Eu… Eu não queria magoar-te. Foi um erro… Eu sinto-me perdido… — balbuciou.
— Perdido? E eu? Achas que não me sinto perdida também? — respondi entre soluços.
Ele saiu de casa nessa noite. Fiquei sozinha com a Leonor, abraçada a ela enquanto dormia, sentindo-me mais só do que nunca.
Os dias seguintes foram um turbilhão de emoções. A minha mãe ligava todos os dias a perguntar se estava tudo bem; eu mentia-lhe para não a preocupar. A Inês veio passar uns dias connosco para me ajudar com a Leonor e para me dar força.
Foi ela quem me obrigou a sair de casa uma tarde e ir até ao paredão ver o pôr-do-sol.
— Tu mereces mais do que isto — disse-me ela enquanto caminhávamos lado a lado. — Não deixes que o medo te impeça de seres feliz.
Olhei para o mar e senti uma pontada de esperança misturada com tristeza. Será que ainda era possível recomeçar?
O Ricardo voltou uns dias depois para falar comigo. Sentámo-nos frente a frente na sala silenciosa.
— Sofia… Eu quero tentar salvar o nosso casamento — disse ele com lágrimas nos olhos. — Quero ser melhor por ti e pela Leonor.
Olhei para ele e vi o homem por quem me tinha apaixonado há tantos anos atrás. Mas também vi o homem que me tinha traído e mentido durante meses.
— Não sei se consigo perdoar-te — respondi honestamente. — Preciso de tempo… Preciso de me encontrar primeiro.
Ele assentiu em silêncio e saiu novamente.
Nesse verão aprendi muito sobre mim mesma. Aprendi que sou mais forte do que pensava, que consigo enfrentar as tempestades mesmo quando tudo parece perdido. Passei tardes longas com a Leonor na praia, rimos juntas, chorámos juntas. Contei-lhe histórias sobre mulheres corajosas e expliquei-lhe que às vezes os adultos também têm medo.
No final das férias, decidi voltar para Lisboa sozinha com a Leonor. O Ricardo ficou em Cascais mais uns dias. Não sabia o que o futuro nos reservava como família, mas sabia que precisava de me reencontrar antes de tomar qualquer decisão definitiva.
Agora olho para trás e vejo aquele verão como um ponto de viragem na minha vida. Ainda dói lembrar-me da traição e das mentiras, mas também sinto orgulho por não ter desistido de mim mesma.
Será que alguma vez conseguimos realmente perdoar quem nos magoa? Ou será que o verdadeiro perdão é aquele que damos a nós próprios por termos acreditado até ao fim?