A Minha Família Tornou-se Um Peso: Com o Rui, Demos-lhes Uma Lição Que Nunca Esquecerão

— Outra vez, mãe? — perguntei, com a voz a tremer entre o cansaço e a raiva. — Disseste que vinhas só buscar uns ovos, mas já estás aqui há duas horas, sentada na sauna com a tia Lurdes e o primo Tiago.

A minha mãe olhou-me com aquele ar de quem não percebe o problema. — Oh filha, é só um bocadinho. A sauna faz tão bem às minhas costas… E a Lurdes precisava mesmo de relaxar, sabes como ela anda nervosa com o divórcio.

Suspirei. Já não era só a minha mãe. Desde que eu e o Rui comprámos aquela sauna — um sonho antigo que finalmente conseguimos realizar depois de anos a poupar —, a nossa casa em Sintra transformou-se num autêntico spa familiar. No início até achei graça. Era bom ver a família reunida, rir, partilhar histórias. Mas rapidamente aquilo passou de encontros ocasionais para visitas diárias, quase sempre sem aviso prévio.

O meu irmão, o Pedro, vinha com a namorada nova todos os sábados. A minha prima Joana trazia as amigas do ginásio. Até o meu pai, que sempre foi reservado, agora aparecia com colegas do café para “mostrar como a filha está bem na vida”. O frigorífico esvaziava-se num instante, as toalhas desapareciam misteriosamente e eu sentia-me cada vez mais uma empregada do que uma anfitriã.

O Rui tentava manter-se calmo, mas via-lhe nos olhos o mesmo desconforto que sentia. Uma noite, depois de todos saírem, ele sentou-se ao meu lado no sofá e disse:

— Clara, isto não pode continuar. Eu gosto da tua família, mas isto já passou todos os limites. Não temos privacidade nenhuma.

Assenti em silêncio. Sentia-me culpada por pensar assim dos meus próprios familiares, mas era verdade. O nosso lar já não era nosso.

Na semana seguinte, tentei impor algumas regras. Mandei uma mensagem no grupo da família: “Queridos, agradeço que avisem antes de virem cá a casa. E por favor tragam as vossas toalhas e comida se quiserem usar a sauna.” Recebi respostas mistas: emojis de riso do Pedro, um “Claro filha!” da mãe e silêncio absoluto do resto.

Mas nada mudou. No sábado seguinte, acordei com vozes na cozinha. O Pedro estava a fazer panquecas com os ovos que eu tinha guardado para o jantar. A Joana já estava na sauna com duas amigas e música alta. Senti um nó na garganta.

— Isto é demais! — gritei, perdendo finalmente a paciência.

Todos pararam e olharam para mim como se eu fosse louca.

— O que foi agora? — perguntou o Pedro, com ar de gozo.

— O que foi? Vocês tratam esta casa como se fosse um hotel! Não respeitam nada! — As lágrimas começaram a escorrer-me pelo rosto.

A minha mãe tentou acalmar-me: — Oh filha, não exageres… Somos família!

— Pois somos! Mas família também respeita! — respondi, já sem filtro.

O Rui apareceu à porta da cozinha e ficou ao meu lado. Pela primeira vez senti-me verdadeiramente apoiada.

— Acho que está na altura de fazermos uma pausa nas visitas — disse ele calmamente. — Precisamos do nosso espaço.

O silêncio foi pesado. A Joana levantou-se indignada:

— Se não querem cá ninguém, digam logo!

— É isso mesmo que estamos a dizer — respondi, firme.

Durante semanas ninguém apareceu lá em casa. O grupo da família ficou silencioso. Senti-me aliviada mas também triste. O Rui tentava animar-me:

— Eles vão perceber, Clara. Só precisam de tempo.

Mas não foi bem assim. A minha mãe deixou de me ligar todos os dias. O Pedro mandava mensagens secas: “Preciso de ir buscar umas coisas” ou “Quando posso passar?”. A Joana deixou de me seguir no Instagram.

Comecei a duvidar de mim própria. Será que exagerei? Será que fui egoísta? Mas depois olhava para o Rui e para o nosso lar finalmente tranquilo e sabia que era necessário.

Um dia, a minha mãe apareceu à porta sem avisar. Trazia um bolo de laranja nas mãos e os olhos marejados de lágrimas.

— Desculpa filha… Acho que abusámos mesmo. Só queria estar perto de ti…

Abraçámo-nos em silêncio. Senti o peso dos últimos meses a desvanecer-se um pouco.

Aos poucos, as visitas voltaram — mas desta vez com respeito pelas nossas regras. A Joana demorou mais tempo a perdoar-me, mas acabou por perceber também.

Hoje olho para trás e percebo que às vezes é preciso dizer basta para nos reencontrarmos connosco próprios e com quem amamos.

Será que é possível amar sem nos anularmos? Ou será que o medo de magoar os outros nos impede de sermos verdadeiros connosco mesmos? Gostava de saber se já passaram por algo assim…