Quando o Miguel Voltou: Um Regresso Inesperado Após a Traição

— O que estás aqui a fazer, Miguel? — perguntei, a voz embargada, enquanto segurava a porta entreaberta. O vento frio da noite entrava pela entrada, misturando-se com o cheiro do meu chá de camomila esquecido na sala. Estava de pijama, o cabelo preso num coque desalinhado e os olhos inchados de tanto chorar. Não esperava visitas, muito menos dele.

Miguel ficou ali, parado, com a mesma expressão que usava quando não sabia como começar uma conversa difícil. O casaco molhado colava-se-lhe ao corpo, e as mãos tremiam levemente. — Preciso de falar contigo, Ana. Por favor, deixa-me entrar.

Por um momento, hesitei. Seis meses antes, ele tinha feito as malas numa manhã de domingo e saído sem olhar para trás. Tinha-me deixado sozinha com as contas, com as perguntas da nossa filha Mariana — “O pai vai voltar?” — e com o silêncio ensurdecedor da casa vazia. Tudo por causa da Teresa, a colega nova do escritório. A traição não foi só física; foi uma ferida aberta em cada gesto do quotidiano.

— Não sei se consigo ouvir-te — respondi, sentindo o nó na garganta apertar ainda mais. — Depois de tudo…

Ele baixou os olhos. — Eu sei que não mereço. Mas preciso mesmo de falar contigo. Nem que seja só para me ouvires.

Deixei-o entrar. Não por ele, mas porque precisava de respostas. Fechei a porta atrás de mim e segui-o até à sala, onde as luzes baixas davam um ar fantasmagórico às fotografias antigas na estante. Miguel sentou-se no sofá onde tantas vezes adormecemos juntos a ver filmes portugueses ao domingo à noite.

— A Mariana está a dormir — disse-lhe, quase como um aviso. — Não quero que a acordes.

Ele assentiu em silêncio. Ficámos assim durante uns segundos eternos, até que ele começou:

— Eu errei, Ana. Não há desculpa para o que fiz. Achei que estava apaixonado pela Teresa, mas…

— Mas? — interrompi, sentindo a raiva subir-me à cabeça. — Lembraste-te agora que tinhas uma família?

Miguel passou as mãos pelo rosto, exausto. — Não é isso. Eu… achei que precisava de algo novo, diferente. Senti-me preso na rotina, no trabalho, nas contas… E quando a Teresa apareceu, parecia tudo mais fácil. Mas não era real.

Ri-me amargamente. — E só percebeste isso agora? Depois de me deixares sozinha a lidar com tudo? Sabes quantas noites passei acordada a pensar no que fiz de errado?

Ele olhou-me nos olhos pela primeira vez desde que entrou. — Não fizeste nada de errado. Fui eu. Fugi dos meus próprios medos e inseguranças e destruí tudo à minha volta.

O silêncio caiu sobre nós como uma manta pesada. Lembrei-me das discussões antes dele partir: as contas por pagar, os jantares silenciosos, a Mariana a tentar animar-nos com desenhos coloridos colados no frigorífico.

— E agora? — perguntei finalmente. — O que queres de mim?

Miguel respirou fundo. — Quero pedir-te perdão. Quero tentar reconstruir o que destruí… Se me deixares.

Senti as lágrimas escorrerem-me pelo rosto sem conseguir controlá-las. — Achas mesmo que é assim tão simples? Que basta pedires desculpa e tudo volta ao normal?

Ele abanou a cabeça. — Sei que não é simples. Sei que talvez nunca consigas perdoar-me. Mas precisava de te dizer isto cara a cara.

Levantei-me e fui até à janela, olhando para as luzes da rua molhada lá fora. Lembrei-me da primeira vez que conheci o Miguel: éramos dois miúdos na faculdade de Letras em Lisboa, sonhadores e cheios de planos para o futuro. Nunca imaginei que acabaríamos assim.

— A Mariana ainda pergunta por ti todos os dias — disse-lhe, sem me virar. — Invento histórias para ela dormir melhor à noite. Digo-lhe que o pai está a trabalhar longe, mas vai voltar.

Ouvi-o soluçar baixinho atrás de mim. — Sinto tanto, Ana…

Virei-me devagar e encarei-o finalmente. — E se eu não quiser voltar atrás? E se eu quiser seguir em frente?

Miguel ficou calado por um momento longo demais.

— Então eu aceito — murmurou ele, com a voz embargada. — Só queria pedir-te perdão e dizer à Mariana que a amo.

Nesse instante ouvi passos leves no corredor: Mariana apareceu à porta da sala, esfregando os olhos sonolentos.

— Pai? És mesmo tu?

Miguel abriu os braços e ela correu para ele sem hesitar. O abraço deles foi tão apertado que quase me partiu o coração outra vez.

Fiquei ali parada, dividida entre o alívio de ver a filha feliz e o medo de voltar a confiar em quem me magoou tanto.

Depois daquela noite, nada voltou a ser igual. Miguel ficou uns dias em casa da mãe dele em Almada e vinha visitar Mariana aos fins-de-semana. Eu tentei reconstruir-me aos poucos: voltei ao trabalho na escola primária do bairro, comecei a sair com amigas antigas e até aceitei um convite para jantar do Rui, um colega simpático do agrupamento escolar.

A família do Miguel tentou convencer-me a dar-lhe outra oportunidade: “Ele arrependeu-se mesmo”, dizia a sogra ao telefone. “Pensa na Mariana.” Mas ninguém sabia o que era acordar todos os dias com aquele vazio no peito.

Certa tarde, enquanto passeava com Mariana pelo Jardim da Estrela, ela perguntou:

— Mãe, tu ainda gostas do pai?

Fiquei sem resposta durante uns segundos.

— Gosto dele como amigo… E gosto muito de ti.

Ela sorriu e agarrou-me na mão pequenina dela.

Os meses passaram e Miguel continuou presente na vida da filha, mas entre nós ficou sempre uma distância impossível de atravessar. Tentei perdoar, tentei esquecer, mas percebi que algumas feridas nunca fecham completamente.

Hoje escrevo esta história sentada na mesma sala onde tudo aconteceu naquela noite chuvosa. Mariana está maior e mais feliz; eu aprendi a viver sozinha e até gosto do silêncio agora.

Às vezes pergunto-me: quantas vezes podemos recomeçar depois de uma traição? Será possível confiar outra vez em quem nos partiu o coração? E vocês… já passaram por algo assim?