“Mãe, não aguento mais!” – O dia em que fugi de casa e deixei tudo para trás

“Mãe, não aguento mais!” – gritei, com a voz embargada, enquanto a loiça se acumulava na pia e o cheiro do arroz queimado invadia a cozinha. O António entrou na sala, largando o telemóvel na mesa com um estrondo. “Outra vez, Mariana? Não podes esperar um bocadinho? Estou cheio de trabalho!”

Aquelas palavras caíram sobre mim como pedras. Olhei para os meus filhos, a Inês e o Tiago, sentados no sofá, olhos colados à televisão, alheios ao caos que era a nossa vida. Senti-me tão sozinha naquele momento, como se estivesse a gritar dentro de um poço sem fundo. “Eu só queria um pouco de ajuda”, murmurei, mas ninguém ouviu.

Os dias arrastavam-se sempre iguais. Acordava antes do sol para preparar pequenos-almoços, vestir as crianças, correr para o trabalho na escola primária da aldeia. À noite, entre banhos e jantares, sentia o peso do mundo nos ombros. O António chegava tarde, cansado, e mal trocávamos palavras. Quando tentava desabafar, ele respondia sempre: “Todos temos problemas, Mariana.”

Lembro-me de uma noite em particular. Estava sentada na cama, a olhar para o teto escuro. O António ressonava ao meu lado. Peguei no telemóvel e escrevi uma mensagem à minha mãe: “Não sei quanto tempo mais aguento.” Ela respondeu logo: “Filha, vem cá passar uns dias.” Mas eu não queria ser um fardo. Aguentei mais um mês.

No aniversário da Inês, preparei tudo sozinha: bolo de chocolate, balões, convites para os amiguinhos. O António esqueceu-se de comprar os sumos. Chegou atrasado à festa e passou o tempo todo ao telefone. Quando todos se foram embora, sentei-me no chão da cozinha a chorar baixinho. A Inês apareceu e abraçou-me: “Mãe, estás triste?” Sorri-lhe com lágrimas nos olhos: “Não, filha. Só estou cansada.”

As discussões começaram a ser diárias. Pequenas coisas tornavam-se grandes tempestades: o lixo por levar, as contas por pagar, as notas do Tiago que baixaram. Uma noite, perdi a cabeça e gritei: “Se calhar era melhor eu desaparecer!” O António olhou-me como se eu fosse louca: “Faz o que quiseres.”

Na manhã seguinte, acordei antes de todos. Fui ao quarto das crianças, dei-lhes um beijo na testa e deixei um bilhete: “A mãe vai sair por uns dias. Amo-vos muito.” Arrumei uma mala pequena e fui para casa da minha mãe em Viseu.

Quando cheguei lá, desabei nos braços dela. “Filha, já devias ter vindo há muito tempo”, disse-me ela. Passei os primeiros dias a dormir e a chorar. A minha mãe fazia-me chá e ouvia-me sem julgar. Pela primeira vez em anos, senti-me vista.

O António ligou-me dezenas de vezes. Não atendi. Mandou mensagens: “Como pudeste fazer isto às crianças?”; “Vais destruir a nossa família!”; “Volta para casa!” Senti culpa, raiva e alívio ao mesmo tempo.

A Inês mandou-me um áudio: “Mãe, tenho saudades tuas.” Chorei tanto que pensei que nunca mais ia parar.

Os meus irmãos vieram visitar-me. O Pedro disse: “Sempre foste tu a segurar tudo sozinha.” A Ana olhou-me nos olhos: “Não tens de ser mártir.” Pela primeira vez ouvi aquelas palavras sem sentir vergonha.

Depois de uma semana, o António apareceu à porta da minha mãe. Trazia flores e olheiras fundas. “Mariana, precisamos falar.” Sentámo-nos no jardim.

“Eu não sabia que estavas assim tão mal”, disse ele.

“Não quiseste ver”, respondi.

“Eu também estou cansado”, murmurou.

“Mas nunca me ouviste”, rebati.

Ficámos em silêncio muito tempo. Ele chorou pela primeira vez desde que nos conhecemos.

“Queres voltar?”, perguntou.

“Quero ser feliz”, respondi apenas.

Nos dias seguintes, conversámos muito. Fomos juntos a uma terapeuta familiar em Viseu. O António começou a perceber o quanto eu me sentia invisível. Eu percebi que ele também carregava dores que nunca partilhou.

As crianças vieram passar o fim de semana connosco à casa da minha mãe. A Inês não largava a minha mão; o Tiago estava mais calado do que nunca.

“Vais voltar para casa?”, perguntou ele baixinho.

“Talvez”, respondi-lhe com honestidade. “Mas só se todos mudarmos.”

A minha mãe ajudou-nos muito nesse processo. Fez-nos ver que não há vergonha em pedir ajuda nem em admitir fraqueza.

Depois de dois meses separados, decidi voltar para casa – mas com condições claras: divisão das tarefas domésticas, tempo para mim própria e espaço para conversarmos sem gritos nem acusações.

O António esforçou-se para mudar – começou a cozinhar ao fim de semana, levava as crianças à escola quando podia e até sugeriu noites só para nós dois.

Mas nem tudo foi fácil. Houve recaídas; houve dias em que pensei em fugir outra vez. A culpa ainda me assombra quando vejo os olhos tristes dos meus filhos ou quando sinto que não sou suficiente.

Hoje escrevo esta história porque sei que não sou a única mulher a sentir-se assim – exausta, invisível, à beira do abismo.

Pergunto-me muitas vezes: quantas mães há por aí a gritar em silêncio? Até onde devemos ir antes de escolhermos cuidar de nós? Será egoísmo querer ser feliz?

E vocês – já sentiram que estavam a desaparecer dentro da vossa própria vida?