Duas vezes traída: Como pude confiar na minha própria mãe?

— Mãe, onde estão o Tiago e o Martim? — perguntei, com a voz a tremer, ao entrar em casa dela naquela tarde chuvosa de novembro. O relógio marcava quase sete e meia, e eu já devia ter chegado há meia hora para os ir buscar. O silêncio era estranho, pesado, como se as paredes soubessem de algo que eu não sabia.

A minha mãe, Maria do Carmo, estava sentada à mesa da cozinha, as mãos entrelaçadas com força. Não me olhou nos olhos. — Eles… foram ao parque — murmurou, mas a hesitação na voz dela fez-me gelar por dentro.

— Ao parque? Com quem? — insisti, sentindo o pânico a crescer no peito. — Sozinhos?

Ela não respondeu. Levantou-se devagar, como se cada movimento lhe custasse anos de vida. — Lucinda… aconteceu uma coisa. — A voz dela falhou. — Eu só fui ao supermercado um instante…

O grito que saiu de mim foi mais animal do que humano. Corri para a rua, tropeçando nos degraus molhados, o coração aos pulos. O parque ficava a dois quarteirões dali. Quando lá cheguei, só encontrei o baloiço a ranger ao vento e um polícia a falar com uma vizinha.

Foi assim que começou o pior ano da minha vida.

Os meus filhos, Tiago de seis anos e Martim de quatro, tinham desaparecido. A polícia foi chamada, buscas foram feitas, cartazes colados por toda a cidade de Setúbal. Durante dias, semanas, vivi num limbo entre esperança e desespero. A minha mãe chorava comigo, dizia-me vezes sem conta: — Desculpa, filha, desculpa… Eu só queria comprar pão para o lanche deles…

No início, tentei perdoar-lhe. Afinal, quem nunca cometeu um erro? Mas à medida que os dias passavam e nada se sabia dos meus meninos, comecei a sentir uma raiva surda a crescer dentro de mim. Como é que ela pôde deixá-los sozinhos? Como é que eu confiei nela?

O meu marido, Rui, afastou-se de mim. Não conseguia olhar-me nos olhos sem me culpar — e eu também me culpava. As discussões tornaram-se diárias. Ele gritava:

— Tu é que insististe para eles ficarem com a tua mãe! Sabias perfeitamente que ela já não estava bem da cabeça!

Eu gritava de volta:

— E tu nunca quiseste saber! Sempre foste trabalhar até tarde! Nunca quiseste assumir nada!

A casa ficou fria, vazia. Os brinquedos dos meninos continuavam espalhados pela sala. O cheiro deles ainda pairava nos lençóis. Eu dormia com as roupas deles abraçadas ao peito.

Dois meses depois do desaparecimento do Tiago e do Martim, encontraram o corpo do Martim junto ao rio Sado. O mundo desabou sobre mim outra vez. A polícia disse que tinha sido um acidente — ele deve ter caído à água enquanto brincava perto da margem.

A minha mãe entrou em choque. Passou dias sem comer nem falar. Eu queria odiá-la, mas via nela uma mulher destruída pela culpa.

O Tiago continuava desaparecido. A esperança era uma faca cravada no meu peito: cada vez que o telefone tocava, eu saltava da cadeira; cada vez que alguém batia à porta, corria como uma louca.

Foi então que começaram os boatos na vizinhança. Diziam que a minha mãe era negligente, que já antes tinha deixado os netos sozinhos em casa para ir às compras ou ao café. Uma vizinha contou-me:

— Lucinda… eu vi a tua mãe sair muitas vezes e deixar os meninos sozinhos no pátio.

Senti-me traída. Como é que nunca soube disto? Porque é que ninguém me avisou?

Um dia, encontrei um caderno antigo da minha mãe enquanto arrumava o quarto dela. Nele estavam escritas frases soltas: “Não posso mais”, “Estou cansada”, “Eles gritam tanto”. O medo apoderou-se de mim: será que ela fez alguma coisa aos meus filhos?

A polícia reabriu o caso como possível negligência grave. O Rui já não falava comigo — tinha ido viver para casa dos pais dele em Lisboa.

No tribunal, sentei-me atrás da minha mãe enquanto ela era interrogada pelo juiz:

— Dona Maria do Carmo, tem consciência das consequências dos seus atos?

Ela chorava baixinho:

— Eu só queria ajudar a minha filha… Eu nunca quis mal aos meus netos…

O advogado de acusação foi implacável:

— A senhora deixou duas crianças pequenas sozinhas repetidas vezes! Sabia dos riscos! Não foi a primeira vez!

Eu queria gritar: “Parem! Já chega!” Mas fiquei calada. Senti-me dividida entre o amor de filha e a raiva de mãe.

No final do julgamento, a minha mãe foi condenada por negligência grave com resultado de morte e desaparecimento. Foi-lhe aplicada pena suspensa devido à idade avançada e ao estado de saúde mental.

A cidade virou-me as costas. No supermercado, sentia os olhares pesados das outras mães. No trabalho, os colegas evitavam falar comigo. Até os meus irmãos se afastaram: “Tu é que insististe para ela tomar conta dos miúdos”, disse-me o meu irmão mais velho.

Sozinha em casa, comecei a beber para adormecer à noite. O Rui pediu o divórcio. A minha vida tornou-se um eco vazio dos risos dos meus filhos.

Um dia, recebi uma carta anónima na caixa do correio: “A culpa é tua.”

Passei horas a olhar para aquelas palavras escritas à mão tremida. Será mesmo minha? Devia ter percebido antes que a minha mãe já não estava capaz? Devia ter ouvido os avisos silenciosos?

Hoje vivo sozinha num pequeno apartamento em Almada. Não falo com a minha mãe há meses — ela está num lar de idosos e diz que não quer ver ninguém.

Às vezes sonho com o Tiago e o Martim a correrem pelo parque, rindo ao vento como se nada tivesse acontecido. Acordo sempre com lágrimas nos olhos.

Pergunto-me todos os dias: como é possível sobreviver depois de perder tudo? Como se perdoa uma traição destas — vinda da própria mãe? E vocês… acham que algum dia conseguirão perdoar alguém assim?