Sem berço, sem fraldas: O regresso a casa que me partiu o coração
— Rui, onde é que está o berço? — perguntei, a voz a tremer, enquanto pousava a mala no chão do corredor. O cheiro a hospital ainda me envolvia, misturado com o perfume suave da minha filha, adormecida nos meus braços. O Rui olhou-me de relance, sentado no sofá com o telemóvel na mão, como se a minha pergunta fosse uma inconveniência.
— Ainda não tive tempo de montar — respondeu, sem sequer se levantar. — Tive uma semana complicada no trabalho.
O silêncio caiu pesado entre nós. Senti o peito apertar-se, como se alguém me tivesse roubado o ar. Olhei em volta: nada. Nem um pacote de fraldas, nem um body lavado, nem sequer um cobertor para a bebé. O quarto que devia ser dela estava vazio, as paredes nuas, o chão frio. Sentei-me na beira da cama, com a pequena Leonor ao colo, e as lágrimas começaram a correr-me pela cara sem pedir licença.
Lembrei-me de todas as promessas que o Rui me fez durante a gravidez. “Vai correr tudo bem, amor. Eu trato de tudo.” Acreditei nele. Acreditei porque queria acreditar. Porque precisava de acreditar que não ia estar sozinha nesta aventura assustadora que é ser mãe pela primeira vez.
A minha mãe ligou-me nesse momento. Atendi em silêncio.
— Filha? Já chegaram? Como está a Leonor?
— Mãe… — tentei controlar a voz — não está nada pronto aqui em casa. O Rui não fez nada do que prometeu.
Ouvi o suspiro do outro lado da linha. — Queres que vá aí?
Queria. Queria tanto. Mas sentia vergonha de admitir que precisava dela, que não era capaz de enfrentar isto sozinha. Disse-lhe que não era preciso, mas ela percebeu logo tudo.
Naquela noite, dormi sentada na poltrona do quarto, com a Leonor ao colo embrulhada numa manta velha. O Rui deitou-se cedo e ressonou alto, indiferente ao choro da filha e ao meu próprio desespero. Cada vez que ela chorava, sentia-me mais pequena, mais perdida.
No dia seguinte, acordei com o som da campainha. Era a minha mãe, com sacos cheios de fraldas, bodies e até um berço portátil emprestado pela vizinha. Abraçou-me sem dizer nada e eu desatei a chorar outra vez.
— Filha, isto não é vergonha nenhuma. Ser mãe é difícil. E ninguém devia passar por isto sozinha.
O Rui apareceu à porta do quarto, despenteado e maldisposto.
— Não era preciso este drama todo — murmurou ele.
A minha mãe olhou para ele com uma calma cortante.
— O drama é não cuidar da própria filha — respondeu-lhe.
Durante dias vivi num limbo entre o amor avassalador pela Leonor e a raiva surda pelo Rui. Ele continuava ausente, sempre cansado ou ocupado. Não percebia — ou não queria perceber — o peso que eu carregava sozinha.
Uma tarde, enquanto embalava a Leonor para adormecer, ouvi-o ao telefone na sala:
— Não sei se isto vai resultar… Ela anda sempre nervosa, nunca está satisfeita… — dizia ele a alguém.
Senti uma dor aguda no peito. Era sobre mim que ele falava assim? Depois de tudo? Fui até à sala com a Leonor nos braços.
— Rui, se não estás feliz, diz-me. Mas não fales de mim como se eu fosse um fardo.
Ele desligou o telefone rapidamente.
— Não é isso… Só estou cansado. Isto é tudo novo para mim também.
— Para mim também! — gritei-lhe, finalmente deixando sair tudo o que me sufocava há semanas. — Mas eu estou aqui! Eu estou a tentar! E tu?
Ele ficou calado. Pela primeira vez vi-lhe nos olhos um medo qualquer — medo de perder algo ou alguém? Ou só medo da responsabilidade?
Os dias passaram arrastados. A minha mãe vinha quase todos os dias ajudar-me com a Leonor. O Rui ia ficando cada vez mais distante. Uma noite chegou tarde e cheirava a álcool. Disse que tinha ido beber um copo com colegas do trabalho para desanuviar.
— E eu? Quando é que eu posso desanuviar? Quando é que alguém cuida de mim? — perguntei-lhe baixinho.
Ele não respondeu. Limitou-se a fechar-se na casa de banho.
Comecei a sentir-me invisível dentro da minha própria casa. As noites eram longas e solitárias; os dias uma sucessão de tarefas repetitivas e exaustão física e emocional. Só o sorriso da Leonor me dava forças para continuar.
Um domingo à tarde, decidi sair com ela até ao jardim perto de casa. Sentei-me num banco ao sol e vi outras mães com bebés ao colo, algumas acompanhadas pelos maridos, outras sozinhas como eu. Troquei olhares cúmplices com uma delas — uma mulher de cabelo curto e olhar cansado.
— Também estás sozinha nisto? — perguntou-me ela com um sorriso triste.
Assenti.
— Chamo-me Marta — disse ela. — O pai do meu filho também acha que isto é tudo “drama” meu…
Conversámos durante horas sobre fraldas, noites mal dormidas e maridos ausentes. Pela primeira vez senti-me compreendida sem precisar de explicar nada.
Quando voltei para casa nesse dia, encontrei o Rui sentado à mesa da cozinha com um papel na mão.
— Precisamos de falar — disse ele.
Sentei-me à sua frente, com a Leonor ao colo.
— Eu… não sei se consigo ser pai agora — confessou ele, os olhos baixos. — Sinto-me perdido. Não era isto que imaginei para nós…
Senti uma mistura de raiva e alívio. Raiva por ele desistir tão facilmente; alívio por finalmente ouvir a verdade sem rodeios.
— Eu também estou perdida — respondi-lhe. — Mas não vou desistir da nossa filha. Se quiseres ir embora, vai. Mas eu fico.
Ele levantou-se devagar e saiu de casa sem olhar para trás.
Chorei muito nessa noite. Liguei à minha mãe e pedi-lhe para vir ficar comigo uns dias. Ela veio logo, trouxe comida feita e abraços quentes. Aos poucos fui aprendendo a cuidar da Leonor sozinha — com ajuda das mulheres da minha vida: a minha mãe, as vizinhas, até a Marta do jardim.
O Rui foi aparecendo cada vez menos até desaparecer de vez. Mandei-lhe fotos da Leonor nos primeiros meses mas ele raramente respondia. Aprendi a viver sem esperar nada dele.
Hoje olho para trás e vejo aquela casa vazia como o início da minha verdadeira vida: dura, solitária às vezes, mas cheia de amor real — aquele que não foge quando as coisas ficam difíceis.
Pergunto-me quantas mulheres em Portugal passam pelo mesmo silêncio gelado ao regressar do hospital com um filho nos braços e um vazio à espera em casa? Será que o amor-próprio é suficiente para reconstruirmos tudo quando nos tiram o chão? E vocês, já sentiram esse vazio? Como encontraram forças para continuar?