Entre Sangue e Coração: O Preço da Escolha

— Não acredito que estás a fazer isto, pai! — gritou o Tiago, com os olhos vermelhos de raiva e mágoa. — Depois de tudo o que ela me fez, tu ficas do lado dela?

A sala parecia mais pequena naquele momento, as paredes a apertarem-me o peito. O relógio de parede marcava as oito da noite, mas para mim o tempo tinha parado. Olhei para o meu filho, aquele rapaz que vi nascer, crescer, tropeçar e levantar-se tantas vezes. Agora era um homem feito, mas nos olhos dele via o menino que me pedia colo quando caía da bicicleta. E via também o estranho que não me perdoava por eu ter escolhido apoiar a Milica, a sua ex-mulher.

— Tiago, não é uma questão de lados — tentei explicar, a voz a tremer-me. — É uma questão de justiça. O teu filho precisa de estabilidade. E a Milica está sozinha aqui, sem família, sem ninguém. Não posso virar-lhe as costas.

Ele bufou, virou-me as costas e saiu porta fora, batendo com força. Fiquei ali parado, a ouvir o eco da porta a fechar-se, como se fosse um prego a mais no caixão da nossa relação. Sentei-me no sofá, as mãos a tremerem-me. A televisão estava ligada, mas não ouvia nada. Só conseguia pensar: onde foi que errei?

A verdade é que nunca imaginei que a minha vida chegasse aqui. Sempre fui um homem simples, trabalhador. Vim da Beira Baixa para Lisboa nos anos 80, à procura de uma vida melhor. Casei com a Ana, tivemos o Tiago. A vida era dura, mas havia amor. Quando o Tiago trouxe a Milica para casa pela primeira vez — ela vinda da Sérvia, com aquele sotaque doce e um sorriso tímido — senti logo que ela precisava de proteção. Era diferente das raparigas portuguesas: reservada, mas generosa. E quando nasceu o Mateus, o meu neto, senti que a família estava completa.

Mas os anos passaram e as coisas mudaram. O Tiago começou a chegar tarde a casa, sempre cansado, sempre irritado. A Milica tentava manter tudo em ordem, mas eu via-lhe as olheiras fundas e o sorriso cada vez mais raro. Até que um dia ele anunciou: “Vamos divorciar-nos.” Não houve gritos nem pratos partidos — só um silêncio pesado e olhares vazios.

Depois do divórcio, pensei que cada um seguiria o seu caminho. Mas não foi assim. O Tiago arranjou logo outra namorada e começou a passar menos tempo com o Mateus. A Milica ficou sozinha num T2 em Chelas, com um emprego precário numa pastelaria e um filho pequeno para criar. Eu via-a todos os domingos quando ia buscar o Mateus para passar o dia comigo. Ela agradecia-me sempre com aquele olhar triste, como se pedisse desculpa por existir.

A Ana dizia-me: “Dragan, não te metas nisso. O Tiago é nosso filho.” Mas eu não conseguia ignorar aquela sensação de injustiça. O Mateus precisava de estabilidade, de amor dos dois lados da família. E a Milica precisava de alguém que lhe dissesse: “Não estás sozinha.” Comecei a ajudá-la com pequenas coisas — levava-lhe compras, arranjava-lhe coisas em casa, ficava com o Mateus quando ela tinha de fazer horas extra.

Foi aí que começaram os problemas com o Tiago. Ele apareceu um dia em minha casa, furioso:

— Ou escolhes-me a mim ou ficas com ela! Não podes ter os dois!

Fiquei sem palavras. Como é que se escolhe entre um filho e uma nora que já é quase filha? Entre sangue e coração? Disse-lhe apenas:

— Não te estou a trair. Estou só a tentar ser justo.

Ele não quis ouvir. Deixou de me falar durante semanas. A Ana chorava à noite, dizia-me que eu estava a destruir a família. Mas eu sentia que estava apenas a tentar salvá-la — à minha maneira.

Os dias foram passando assim: eu dividido entre dois mundos. De manhã ia ao café do bairro e ouvia os vizinhos comentarem:

— Lá vai o Dragan ajudar a estrangeira outra vez…

Sentia os olhares de lado, os sorrisos falsos. Portugal é terra de gente boa, mas também de muita língua afiada.

Uma tarde chuvosa de novembro, recebi uma chamada da escola do Mateus: ele tinha tido uma crise de ansiedade e estava a chorar sem parar. Corri para lá sem pensar duas vezes. Quando cheguei, encontrei-o encolhido num canto do recreio.

— Avô… — soluçou ele — porque é que o pai não gosta mais da mãe?

Abracei-o com força, sentindo o coração apertado.

— O pai gosta de ti e da mãe à sua maneira… Às vezes os adultos fazem coisas difíceis de entender.

Levei-o para casa da Milica. Ela abriu-me a porta com os olhos inchados de tanto chorar.

— Dragan… não sei quanto mais aguento isto…

Sentei-me com ela à mesa da cozinha, enquanto o Mateus brincava na sala.

— Milica — disse-lhe — tu és forte. Mas não tens de carregar isto sozinha. Eu estou aqui.

Ela agarrou-me na mão e chorou baixinho. Senti-me impotente e ao mesmo tempo orgulhoso por poder ser apoio para alguém tão perdido como eu já fui.

Os meses passaram e as feridas não sararam. O Tiago continuava distante; só vinha buscar o Mateus quando lhe dava jeito. A Ana tentava mediar as coisas, mas também ela se cansou das discussões e acabou por se afastar um pouco de mim.

No Natal desse ano, fizemos duas ceias: uma com o Tiago e outra com a Milica e o Mateus. Senti-me partido ao meio — metade do coração numa casa, metade noutra.

Uma noite, depois de todos irem embora e eu ficar sozinho na sala com as luzes da árvore ainda acesas, perguntei-me: será que valeu a pena? Será que fiz bem em escolher apoiar quem mais precisava em vez de seguir cegamente o meu próprio sangue?

Às vezes olho para trás e penso nas palavras do Tiago: “Ou escolhes-me ou ficas com ela!” E pergunto-me: será possível amar dois lados opostos sem perder-se pelo caminho? Será que alguém aí já passou pelo mesmo? O que fariam no meu lugar?