“Vou ter quantos filhos quiser”: O drama de uma família dividida em Coimbra

— Mariana, não podes estar a falar a sério… — disse eu, com a voz trémula, enquanto olhava para a minha irmã mais nova, sentada à mesa da cozinha da nossa mãe. O cheiro do café acabado de fazer misturava-se com o aroma do pão quente, mas nada conseguia disfarçar o peso daquela manhã.

Ela olhou-me nos olhos, desafiadora, e respondeu:

— Posso sim, Miguel. Vou ter quantos filhos quiser. Não é da tua conta.

O silêncio caiu sobre nós como uma cortina pesada. A nossa mãe, D. Teresa, fingia arrumar a loiça, mas eu via-lhe as mãos a tremer. O meu pai, António, já tinha saído para o café, como fazia sempre que pressentia tempestade. Eu sentia o coração a bater forte no peito. Não era só preocupação — era medo. Medo de ver a minha família a desmoronar-se.

Mariana tinha apenas vinte e seis anos e já ia no terceiro filho. O João, o mais velho, tinha quatro anos e corria pela casa como um furacão; a Leonor, de dois anos, era um anjo de olhos grandes; e agora vinha mais um a caminho. O marido dela, o Rui, trabalhava nas obras e passava semanas fora. Eu via-a cansada, com olheiras fundas e um sorriso forçado. Mas sempre que alguém lhe perguntava se não era demais, ela respondia com aquela teimosia que sempre a caracterizou:

— Cada um sabe de si.

Mas será mesmo assim? Será que cada um sabe de si? Ou será que às vezes precisamos de ouvir quem nos quer bem?

Lembro-me do dia em que tudo começou a descambar. Era domingo e estávamos todos reunidos para o almoço em casa dos meus pais, em Coimbra. A mesa estava cheia: arroz de pato, salada de alface e tomate, vinho tinto da Bairrada. O João gritava porque queria sobremesa antes do tempo; a Leonor chorava porque não queria comer sopa. Mariana tentava acalmar os dois ao mesmo tempo, enquanto o Rui olhava para o telemóvel.

— Mariana, já pensaste bem nisto? — perguntei-lhe baixinho, tentando não chamar a atenção dos outros.

Ela largou a colher e fitou-me com uma expressão dura:

— Pensar em quê?

— Em ter mais um filho… Não achas que já tens as mãos cheias?

Ela riu-se, mas foi um riso amargo:

— E tu? Achas que és melhor por não teres filhos nenhuns?

Senti-me atingido. Eu e a minha mulher, Sofia, tentávamos engravidar há anos sem sucesso. Aquela frase doeu mais do que ela podia imaginar.

A partir desse dia, tudo mudou entre nós. As conversas tornaram-se tensas; os almoços de domingo passaram a ser evitados. A minha mãe chorava em silêncio na cozinha; o meu pai refugiava-se no quintal. Eu sentia-me dividido entre o desejo de proteger a minha irmã e a vontade de lhe gritar que estava a destruir-se.

Uma noite, recebi uma chamada da minha mãe:

— Miguel, vem cá… A Mariana está mal.

Corri para casa dos meus pais. Encontrei-a sentada no chão da casa de banho, abraçada às pernas. Chorava baixinho.

— Não aguento mais — sussurrou ela quando me viu.

Sentei-me ao lado dela e abracei-a.

— Porque é que não me disseste nada?

Ela limpou as lágrimas com as costas da mão:

— Porque toda a gente acha que sabe o que é melhor para mim… Mas ninguém vive a minha vida.

Ficámos ali sentados durante muito tempo. Pela primeira vez percebi que o peso das escolhas dela era maior do que eu imaginava.

Nos meses seguintes, tentei ser mais compreensivo. Mas as discussões continuaram. O Rui perdeu o emprego; as contas começaram a acumular-se; os miúdos adoeciam constantemente. A minha mãe ajudava como podia, mas já não tinha forças para tudo.

Um dia, durante um jantar em família, explodi:

— Isto não pode continuar assim! Mariana, tu precisas de ajuda! Não podes continuar a trazer crianças ao mundo sem pensar nas consequências!

Ela levantou-se da mesa com os olhos cheios de lágrimas:

— Tu não percebes nada! Achas que és melhor do que eu? Achas que tens o direito de julgar?

O Rui tentou acalmá-la, mas ela saiu porta fora. Fiquei ali parado, com todos os olhos postos em mim. Senti-me pequeno, egoísta… mas também revoltado.

Nos dias seguintes tentei falar com ela, mas recusava-se a atender as minhas chamadas. A distância entre nós tornou-se um abismo.

O tempo passou. O bebé nasceu prematuro e ficou semanas no hospital. A família uniu-se para ajudar — mesmo eu, apesar do ressentimento. Vi Mariana transformar-se: tornou-se mais fechada, desconfiada dos outros. O Rui arranjou trabalho fora do país e ela ficou sozinha com três crianças pequenas.

Uma tarde de inverno, fui buscá-la ao hospital depois de uma consulta do bebé. No carro, o silêncio era pesado.

— Mariana… — comecei eu — desculpa por tudo o que disse.

Ela olhou pela janela e respondeu:

— Só queria que me ouvisses sem julgar.

Nesse momento percebi que talvez nunca tivesse realmente ouvido a minha irmã. Sempre quis protegê-la… mas talvez ela só precisasse de alguém ao lado dela.

Hoje olho para trás e vejo uma família marcada por silêncios e mágoas. A Mariana continua a lutar todos os dias pelos filhos; eu continuo à procura do meu lugar nesta história. A nossa mãe envelheceu dez anos num só; o meu pai já quase não fala.

Pergunto-me muitas vezes: teria sido diferente se eu tivesse ficado calado? Ou será que temos mesmo o direito de intervir na vida daqueles que amamos? E vocês — o que fariam no meu lugar?