À Sombra do Meu Irmão – Uma História de Traição e Perdão
— Vais mesmo ficar aí parado, Rui? Depois de tudo o que fizeste? — perguntei, a voz embargada, enquanto a chuva batia forte nas janelas do meu pequeno apartamento em Almada.
Ele hesitou à entrada, encharcado, com os olhos baixos. O cheiro a terra molhada misturava-se com o perfume antigo da casa da nossa mãe, que ainda pairava nas minhas memórias. O silêncio entre nós era pesado, quase palpável.
— Sofia, eu… — começou ele, mas não conseguiu terminar. O nome dele soava estranho na minha boca, como se fosse de outra pessoa. Rui. O meu irmão mais velho. O mesmo que me ensinou a andar de bicicleta no parque da cidade, que me defendeu dos miúdos na escola… e que, há cinco anos, me traiu da forma mais cruel.
Lembro-me como se fosse ontem. O meu pai tinha acabado de morrer. A nossa mãe estava perdida no luto e eu tentava manter a casa de pé. Rui apareceu com promessas de ajudar, mas acabou por vender a casa às escondidas para pagar dívidas de jogo. Deixou-nos sem teto e desapareceu sem olhar para trás.
Agora estava ali, à minha frente, com o rosto marcado pelo tempo e pelo arrependimento.
— Preciso falar contigo… — murmurou ele.
— Falar? Depois de tudo? — A raiva fervia-me no peito. — Sabes o que nos fizeste? Sabes o que passámos por tua causa?
Ele olhou-me nos olhos pela primeira vez naquela noite. Vi ali uma dor profunda, mas também medo. Medo do que eu pudesse dizer, medo do que ele próprio se tinha tornado.
— Não vim pedir desculpa — disse ele, surpreendendo-me. — Vim pedir ajuda.
Ri-me, amarga. — Achas mesmo que depois disto tudo eu vou ajudar-te?
O silêncio voltou a instalar-se. Por momentos, só se ouvia o vento lá fora e o tique-taque do relógio na parede.
— Sofia… — Ele deu um passo em frente. — Eu estou metido em sarilhos. Grandes sarilhos. E tu és a única pessoa em quem ainda confio.
Aquelas palavras doeram mais do que qualquer insulto. Eu? A única pessoa? Depois de tudo o que ele fez?
— Rui, eu perdi tudo por tua causa. A mãe morreu sozinha num lar porque eu não tinha dinheiro para cuidar dela. Eu tive de começar do zero! — As lágrimas começaram a cair-me pelo rosto sem eu conseguir controlar.
Ele baixou a cabeça. — Eu sei… E nunca me vou perdoar por isso.
A raiva misturava-se com pena. Odiava-o por me ter deixado sozinha, mas ao mesmo tempo via ali o rapaz que partilhava comigo os sonhos de infância.
— Que sarilhos são esses? — perguntei finalmente, num sussurro.
Rui olhou em volta, como se tivesse medo de ser ouvido. — Estou a ser ameaçado por gente perigosa. Se não conseguir dinheiro até ao fim da semana… não sei o que me pode acontecer.
Senti um nó no estômago. Não queria saber dos problemas dele, mas não conseguia ignorar aquele apelo desesperado.
— Não tenho dinheiro para te dar — respondi secamente.
Ele abanou a cabeça. — Não é isso… Preciso de um sítio para ficar. Só uns dias. Prometo que depois desapareço da tua vida para sempre.
Fiquei ali parada, a olhar para ele. O meu coração dizia-me para fechar a porta e nunca mais olhar para trás. Mas a voz da minha mãe ecoava-me na cabeça: “A família é tudo o que temos”.
Deixei-o entrar. Sentou-se no sofá como se carregasse o peso do mundo nos ombros.
Os dias seguintes foram um tormento. Rui quase não falava. Passava horas a olhar pela janela ou a mexer no telemóvel nervosamente. Eu tentava manter a rotina: trabalho no supermercado durante o dia, casa à noite. Mas sentia-me sempre observada, inquieta.
Numa noite, ouvi vozes baixas vindas da sala. Espreitei e vi Rui ao telefone:
— Não posso sair agora… Sim, ela está aqui… Não, não sabe de nada…
O sangue gelou-me nas veias. Estaria ele a meter-me em mais problemas?
No dia seguinte, ao chegar do trabalho, encontrei a porta entreaberta e sinais de luta na sala: uma cadeira caída, papéis espalhados pelo chão. O meu coração disparou.
— Rui! — gritei.
Ninguém respondeu.
Corri para o quarto e encontrei-o sentado na cama, com um corte na testa e as mãos a tremer.
— O que aconteceu?!
Ele olhou para mim com olhos vazios. — Vieram cá… disseram que se não lhes desse o dinheiro iam fazer-te mal a ti também.
Senti uma raiva cega crescer dentro de mim.
— Já chega! Vais sair daqui agora mesmo! Não vou deixar que destruas o pouco que me resta!
Ele levantou-se devagar, cambaleando.
— Sofia… desculpa… Eu só queria uma segunda oportunidade…
— Uma segunda oportunidade? Tu tiveste todas as oportunidades do mundo! E desperdiçaste-as todas! — gritei-lhe na cara.
Ele caiu de joelhos à minha frente, chorando como uma criança.
— Por favor… Ajuda-me…
Nesse momento vi-o como nunca antes: frágil, perdido, sozinho no mundo. E percebi que talvez fosse isso que sempre fomos: dois órfãos à deriva numa família desfeita pelas escolhas erradas.
Chamei a polícia naquela noite. Contei tudo: as ameaças, os homens estranhos à porta, o medo constante. Rui foi levado para interrogatório e eu fiquei sozinha na sala vazia, com as memórias a pesarem-me no peito.
Os dias passaram devagar. Recebi uma carta dele da prisão preventiva:
“Sofia,
Sei que nunca poderei desfazer o mal que te causei. Mas obrigado por me teres salvo desta vez – mesmo quando eu não merecia. Espero que um dia consigas perdoar-me ou pelo menos lembrar-te do irmão que fui antes de tudo isto.
Com amor,
Rui”
Li aquelas palavras vezes sem conta, sem saber se chorava ou se sentia alívio por finalmente estar livre daquele peso.
Hoje olho para trás e pergunto-me: até onde vai o nosso dever para com a família? Será possível perdoar quem nos destruiu? Ou há feridas que nunca saram? E vocês – já tiveram de escolher entre proteger-se ou dar mais uma oportunidade a quem vos magoou?