Entre o Amor e a Justiça: A Minha Luta por um Lar e uma Família

— Mariana, não penses que vais ficar com aquilo que não te pertence! — gritou Dona Amélia, a voz dela ecoando pelo corredor do velho apartamento em Benfica. O cheiro a café queimado misturava-se com o perfume forte dela, e eu sentia o coração a bater tão alto que parecia querer saltar-me do peito.

Olhei para o Miguel, que estava encostado à ombreira da porta, olhos baixos, mãos nos bolsos. O silêncio dele doía-me mais do que as palavras da mãe. Eu queria gritar, queria que ele dissesse alguma coisa, qualquer coisa, mas ele limitava-se a olhar para o chão, como se ali encontrasse respostas para perguntas que nunca teve coragem de fazer.

Aquele apartamento era suposto ser o nosso novo começo. Depois de anos a viver em quartos arrendados, finalmente tínhamos conseguido um espaço só nosso — ou assim pensava eu. O Miguel herdara o apartamento do pai, mas Dona Amélia nunca aceitou essa decisão. Para ela, eu era uma intrusa, uma oportunista que lhe roubara o filho e agora queria roubar-lhe também a casa.

— Eu não quero nada que não seja nosso por direito — tentei explicar, a voz trémula. — Só quero que possamos viver em paz.

Ela riu-se, um riso seco e amargo. — Paz? Achas mesmo que vais encontrar paz aqui? Enquanto eu for viva, não te vou deixar destruir esta família!

Miguel continuava calado. Lembro-me de pensar: “Será que ele alguma vez vai escolher-me?”. A dúvida corroía-me por dentro. Desde o início do nosso namoro, sentia-me sempre à margem. A mãe dele fazia questão de me lembrar todos os dias que nunca seria suficiente para o filho dela.

Os meses seguintes foram um inferno. Dona Amélia começou a aparecer sem avisar, a entrar em casa com as suas próprias chaves — nunca as tinha devolvido desde que o marido morrera. Encontrava sempre defeitos em tudo: na comida, na limpeza, até na forma como eu arrumava os livros na estante.

— Isto não é maneira de tratar uma casa! — dizia ela, atirando as almofadas para o chão. — No tempo do meu António, tudo estava impecável!

Miguel tentava apaziguar as coisas. — Mãe, por favor… — Mas ela não queria ouvir.

As discussões tornaram-se diárias. Eu comecei a evitar estar em casa quando sabia que ela vinha. Ia trabalhar mais cedo, ficava até mais tarde no escritório. Os meus colegas começaram a notar.

— Está tudo bem contigo? — perguntou-me a Sofia, uma tarde enquanto tomávamos café na copa.

— Está… — menti. Mas a verdade é que já não dormia bem há semanas. Tinha pesadelos com portas a bater, vozes a gritar, e acordava sempre com aquela sensação de sufoco.

A gota de água foi quando Dona Amélia me acusou de roubar as joias dela. Um dia cheguei a casa e encontrei-a aos gritos na sala.

— Onde estão os meus brincos de ouro? Foste tu! Só pode ter sido tu!

Miguel tentou acalmar a mãe, mas ela estava fora de si. Chamou a polícia. Os vizinhos ouviram tudo; no dia seguinte, ninguém me olhava nos olhos no elevador.

A polícia revistou o apartamento. Não encontraram nada. As joias apareceram dias depois no fundo de uma gaveta da própria Dona Amélia. Nem um pedido de desculpas.

Foi então que ela decidiu avançar para tribunal. Alegou que o testamento do marido era inválido, que Miguel não tinha direito ao apartamento e muito menos eu. Começou uma guerra judicial que parecia não ter fim.

Os dias passaram a ser preenchidos com reuniões com advogados, idas ao tribunal e noites em claro. O Miguel começou a afastar-se; passava mais tempo fora de casa, dizia que precisava de “espaço para pensar”.

Uma noite, depois de mais uma audiência desgastante, sentei-me sozinha na sala escura. Olhei para as paredes nuas, para as caixas ainda por arrumar desde a última tentativa de recomeço. Senti-me tão pequena ali dentro.

Lembrei-me da minha mãe, da infância em Évora, das tardes passadas no quintal a ouvir as histórias do meu avô sobre tempos difíceis mas felizes porque havia união. Perguntei-me onde tinha ido parar essa força que sempre admirei nas mulheres da minha família.

O Miguel chegou tarde nessa noite. Sentou-se ao meu lado no sofá sem dizer nada durante longos minutos.

— Mariana… — começou ele finalmente — Eu já não sei se consigo continuar assim.

Olhei para ele, os olhos dele vermelhos de cansaço e tristeza.

— O que é que isso quer dizer?

— A minha mãe… Ela está doente. O médico diz que pode ser Alzheimer. Eu não posso deixá-la sozinha agora.

Senti um nó na garganta. Por um lado compreendia-o; por outro sentia-me traída. Tínhamos feito planos juntos, tínhamos lutado tanto para chegar ali… E agora tudo parecia desmoronar-se.

— E nós? — perguntei baixinho.

Ele não respondeu.

Os meses seguintes foram um arrastar penoso de rotinas partidas e silêncios ensurdecedores. O processo judicial continuava; Dona Amélia piorava de dia para dia. O Miguel mudou-se temporariamente para casa dela para cuidar dela — pelo menos foi isso que me disse.

Fiquei sozinha no apartamento durante semanas. Comecei a questionar tudo: será que tinha feito bem em lutar tanto? Será que devia ter desistido logo no início?

Um dia recebi uma carta do tribunal: tínhamos perdido o processo em primeira instância. O apartamento ia ser devolvido à herança; teríamos de sair dali em menos de um mês.

Sentei-me no chão da sala e chorei como há muito tempo não chorava. Senti raiva da injustiça, da solidão, da sensação de impotência perante um sistema que parecia proteger sempre os mais fortes ou os mais antigos.

No último dia antes de sair do apartamento, sentei-me no parapeito da janela e olhei para Lisboa lá fora: os telhados vermelhos, o Tejo ao fundo, as luzes acesas nas casas dos outros onde talvez também houvesse histórias como a minha.

O Miguel veio ajudar-me com as caixas. Não falámos muito; havia demasiado por dizer e já não havia tempo nem força para conversas difíceis.

Quando fechei a porta pela última vez, senti um misto de alívio e tristeza profunda. Perdi uma casa, perdi uma família — ou talvez nunca tenha tido nenhuma das duas verdadeiramente.

Hoje vivo num pequeno estúdio em Campo de Ourique. Recomecei do zero: novo emprego, novos amigos, novas rotinas. Às vezes ainda sonho com aquele apartamento e com o futuro que imaginei ali dentro.

Pergunto-me muitas vezes: valeu a pena lutar tanto? Ou será que há batalhas que simplesmente não podemos vencer? Talvez o mais importante seja aprender a reconhecer quando é tempo de partir e procurar a nossa paz noutro lugar.