Entre o Silêncio e o Grito: O Peso de Ser Mãe, Nora e Mulher

— Não podes fazer isto, Mariana! — gritou a minha sogra, Dona Lurdes, enquanto eu tentava controlar as contrações que me rasgavam por dentro. O suor escorria-me pela testa e as luzes frias do hospital de Santa Maria pareciam zombar da minha dor. O meu marido, Rui, estava encostado à parede, com os braços cruzados, sem saber para que lado se virar.

— Por favor, mãe, agora não! — sussurrou ele, mas Dona Lurdes não se calava.

— Eu só quero o melhor para o meu neto! — insistia ela, os olhos faiscando de preocupação e controlo.

Naquele instante, percebi que não era só o meu corpo que estava em trabalho de parto. Era também a minha vida, a minha identidade, a minha autonomia. Senti-me esmagada entre duas gerações: a mulher que me criou e a mulher que me julgava insuficiente para criar os meus próprios filhos.

Tudo começou meses antes, quando descobri que estava grávida pela terceira vez. Não foi planeado. O Rui ficou em choque; eu chorei de medo e alívio ao mesmo tempo. Já tínhamos dois filhos pequenos, a casa era pequena e o dinheiro curto. Mas havia amor — pelo menos eu achava que sim.

A Dona Lurdes sempre foi presente. Demasiado presente. Desde que casei com o Rui, ela fazia questão de opinar sobre tudo: desde a sopa dos miúdos até à cor das cortinas da sala. Quando soube da gravidez, apareceu em casa com um saco cheio de roupinhas amarelas e um discurso pronto:

— Mariana, desta vez tens de fazer tudo direitinho. Não quero mais complicações como da última vez.

Fiquei calada. Da última vez, tive uma depressão pós-parto que quase me levou ao fundo do poço. O Rui não percebeu; ela fingiu não ver. Fui salva pelas amigas e por uma psicóloga do centro de saúde.

Os meses passaram entre consultas, enjôos e discussões. O Rui trabalhava cada vez mais horas no escritório de contabilidade. Eu sentia-me sozinha, exausta, invisível. Os miúdos começaram a notar — o Tomás fazia birras sem razão, a Leonor chorava por tudo e por nada.

Uma noite, depois de um jantar silencioso, explodi:

— Rui, não aguento mais! Preciso de ti! Preciso que escolhas: ou somos nós ou é a tua mãe!

Ele olhou-me como se eu fosse uma estranha.

— Mariana, ela só quer ajudar…

— Não! Ela quer controlar! E tu deixas!

Ele saiu para fumar um cigarro na varanda. Fiquei sozinha na cozinha, a olhar para os pratos por lavar e para as mãos trémulas.

No dia do parto, tudo aconteceu depressa demais. As águas rebentaram às três da manhã. O Rui levou-me ao hospital em silêncio. Quando chegámos à maternidade, Dona Lurdes já lá estava — não sei como soube tão depressa.

Na sala de espera, ela discutia com as enfermeiras:

— Quero estar presente! Sou avó!

— Só pode entrar o pai — respondeu uma enfermeira com voz firme.

O Rui hesitou. Olhou para mim, depois para a mãe.

— Mariana… talvez seja melhor ela entrar contigo. Tu ficas nervosa…

Senti uma raiva surda crescer dentro de mim.

— Não! — gritei. — Quero estar sozinha! Quero decidir eu!

Dona Lurdes começou a chorar alto:

— És ingrata! Depois de tudo o que fiz por ti!

As dores aumentavam. Senti-me pequena, esmagada pelo peso das expectativas alheias. Uma enfermeira aproximou-se:

— Mariana, está pronta? Vamos para o bloco.

Olhei para o Rui:

— Vais comigo ou ficas com ela?

Ele baixou os olhos.

— Mariana… desculpa…

Fui sozinha. No corredor frio do hospital, chorei em silêncio. Senti-me abandonada por quem mais amava.

O parto foi difícil. O bebé nasceu saudável, mas eu perdi muito sangue. Fiquei internada mais tempo do que o previsto. Nos dias seguintes, Dona Lurdes não apareceu. O Rui vinha visitar-me à pressa, sempre com o telemóvel na mão.

Quando finalmente voltei para casa, encontrei-a vazia de alegria. Os miúdos estavam com a avó materna; o Rui evitava olhar-me nos olhos.

Na primeira noite em casa, sentei-me na cama com o bebé ao colo e chorei até adormecer.

Os dias seguintes foram um desfile de silêncios e pequenas agressões passivo-agressivas. Dona Lurdes ligava para saber do neto, mas nunca perguntava por mim. O Rui mergulhou no trabalho; eu mergulhei na solidão.

Uma tarde, enquanto dava de mamar ao bebé na sala escura, ouvi a porta abrir-se com estrondo.

— Mariana! — era Dona Lurdes. — Vim ver o meu neto!

Levantou-o dos meus braços sem pedir licença.

— Ele está magrinho… Tens mesmo leite suficiente?

Senti um nó na garganta.

— Estou a fazer o melhor que posso…

Ela bufou:

— O melhor? O melhor era ouvires quem sabe!

Nesse momento percebi: nunca seria suficiente para ela. E talvez nunca fosse suficiente para o Rui também.

Nessa noite esperei pelo Rui até tarde.

— Precisamos falar — disse-lhe quando entrou.

Ele sentou-se à mesa sem dizer palavra.

— Não posso continuar assim. Ou tu pões limites à tua mãe ou eu vou embora com os miúdos.

Ele olhou-me assustado:

— Vais separar-te de mim?

— Vou separar-me do que me faz mal — respondi baixinho.

Seguiram-se dias de discussões intensas. Dona Lurdes ligava aos gritos; o Rui tentava apaziguar sem nunca tomar partido. Eu sentia-me cada vez mais sozinha na minha própria casa.

Até que um dia fiz as malas e fui para casa da minha mãe com os três filhos.

O silêncio do meu quarto de infância soube-me a liberdade e tristeza ao mesmo tempo. O Rui ligou-me todos os dias durante uma semana; depois deixou de ligar.

Passaram-se meses até ele aparecer à porta da minha mãe:

— Quero falar contigo — disse ele, olhos vermelhos de chorar.

Sentámo-nos no jardim onde brinquei em criança.

— Perdoa-me — pediu ele. — Fui cobarde. Deixei-te sozinha quando mais precisavas de mim.

Chorei tudo outra vez. Mas desta vez não cedi logo.

— Preciso de saber se vais ser meu marido ou filho da tua mãe — disse-lhe sem rodeios.

Ele prometeu mudar. Voltámos devagarinho, com terapia e muitas conversas difíceis pelo meio. Dona Lurdes nunca pediu desculpa; limitou-se a aceitar as novas regras porque percebeu que podia perder o filho e os netos de vez.

Hoje olho para trás e pergunto-me: quantas mulheres vivem presas entre expectativas alheias e o medo de serem julgadas? Quantas vezes sacrificamos a nossa voz para manter uma paz podre?

E vocês? Já sentiram que tiveram de escolher entre vocês próprias e aquilo que esperam de vocês?