Quando o Passado Não Quer Partir: Como a Nova Companheira do Meu Ex-Marido Mudou a Minha Vida
— Não percebes, Rui? Ela não pode continuar a meter-se entre mim e o Tomás! — gritei-lhe ao telefone, a voz embargada pela raiva e pelo desespero. O silêncio do outro lado só tornava tudo mais insuportável. O Rui sempre foi assim: calado, a evitar conflitos, a deixar que as coisas se resolvessem sozinhas. Mas desta vez não era possível.
Nunca pensei que a minha vida se transformasse nisto. Quando me separei do Rui, há dois anos, foi doloroso, mas necessário. O nosso casamento já não era mais do que uma sucessão de silêncios e pequenas mágoas. O Tomás, com apenas oito anos, foi o que mais me preocupou. Sempre tentei protegê-lo, garantir que o amor dos pais não mudava, mesmo que já não vivêssemos juntos. E durante algum tempo, funcionou. Até aparecer a Sílvia.
Conheci-a numa dessas entregas de fim de semana. O Rui apresentou-a como “amiga”, mas bastou um olhar para perceber que era mais do que isso. Sílvia era bonita, elegante, com aquele ar seguro de quem sabe o que quer. Cumprimentou-me com um sorriso frio e um olhar avaliador. O Tomás ficou envergonhado, escondendo-se atrás das pernas do pai.
No início tentei ser cordial. Não queria ser aquela ex-mulher amarga, nem criar problemas desnecessários. Mas rapidamente percebi que a Sílvia não estava ali para facilitar nada. Começou com pequenas coisas: comentários sobre como o Tomás estava sempre cansado quando vinha de minha casa, sugestões de que talvez eu não soubesse lidar com ele tão bem quanto pensava. O Rui ouvia tudo em silêncio, sem nunca me defender.
Uma noite, depois de deixar o Tomás em casa do pai, recebi uma mensagem da Sílvia: “O Tomás disse que não jantou contigo ontem. Tens noção de que uma criança precisa de comer?” Fiquei furiosa. Liguei imediatamente ao Rui.
— Isto vai acabar mal, Rui. Não admito que ela me acuse de ser má mãe! — disse-lhe, sentindo as lágrimas a ameaçarem cair.
— Inês, ela só está preocupada com o Tomás… — respondeu ele, hesitante.
— Preocupada? Ou quer apenas mostrar que é melhor do que eu?
A partir daí tudo piorou. Sílvia começou a aparecer em todas as entregas e recolhas do Tomás. Fazia questão de estar presente nas reuniões da escola, sentando-se ao lado do Rui como se fosse mãe do meu filho. Os professores olhavam para mim com pena ou confusão. Uma vez, durante uma reunião sobre as dificuldades do Tomás a matemática, Sílvia interrompeu-me:
— Talvez seja melhor mudarmos o método de estudo em casa… — sugeriu, olhando diretamente para mim.
— Em casa dele ou em casa minha? — perguntei, tentando manter a calma.
O Rui olhou para o chão. Eu sentia-me cada vez mais isolada.
As discussões começaram a afetar o Tomás. Ele tornou-se mais calado, evitava falar sobre o tempo passado com o pai e com a Sílvia. Uma noite, enquanto lhe dava banho, perguntou-me:
— Mãe, tu e a Sílvia vão ser amigas?
O nó na garganta apertou-se ainda mais.
— Não sei, filho… Mas eu vou estar sempre aqui para ti.
A verdade é que comecei a duvidar de mim própria. Será que estava a exagerar? Será que era eu quem não conseguia aceitar a nova realidade? Falei com a minha mãe sobre isso numa tarde chuvosa de domingo.
— Inês, tu és a mãe dele. Ninguém pode tirar-te isso — disse-me ela, apertando-me as mãos com força.
Mas parecia que todos os dias perdia um pouco mais do meu lugar na vida do Tomás. Um dia cheguei à escola para o buscar e encontrei-o já de mão dada com a Sílvia à porta do portão.
— Vim buscá-lo porque o Rui está atrasado — explicou ela, sorrindo como se nada fosse.
— Não voltas a fazer isto sem me avisar — respondi-lhe entre dentes.
Ela encolheu os ombros.
— Só quero ajudar.
A raiva crescia dentro de mim como uma fogueira incontrolável.
As coisas atingiram o auge quando o Tomás adoeceu com uma gripe forte. Liguei ao Rui para saber como ele estava e foi a Sílvia quem atendeu.
— O Tomás está bem entregue — disse ela friamente. — Não te preocupes tanto.
Senti-me impotente. Era como se me tivessem roubado o direito de cuidar do meu próprio filho.
Nessa noite não consegui dormir. Levantei-me várias vezes para olhar para as fotografias antigas: eu, o Rui e o Tomás na praia da Nazaré; os aniversários cheios de balões; os Natais em família antes de tudo ruir. Perguntei-me onde tinha falhado.
No dia seguinte fui à escola falar com a professora do Tomás. Precisava de saber se ele estava bem, se notavam alguma diferença nele.
— O Tomás anda mais triste ultimamente — confessou-me ela. — Parece confuso… às vezes diz que tem duas mães.
Saí da escola com as lágrimas a correrem-me pela cara. Era isto que eu temia: perder o meu filho para outra mulher.
Decidi então procurar ajuda profissional. Marquei consulta com uma psicóloga familiar. Fui sozinha à primeira sessão e contei-lhe tudo: os ciúmes da Sílvia, a passividade do Rui, os meus medos e inseguranças.
— Inês, é normal sentir-se ameaçada — disse-me ela calmamente. — Mas precisa de encontrar uma forma de comunicar com o Rui sem entrar em conflito constante. O Tomás precisa de estabilidade.
Segui o conselho dela e tentei falar com o Rui numa esplanada perto da nossa antiga casa.
— Rui, precisamos de conversar seriamente sobre limites — comecei eu, tentando controlar a voz trémula. — A Sílvia está a ultrapassar todos eles e tu deixas…
Ele olhou-me finalmente nos olhos.
— Eu sei… Mas ela só quer ajudar…
— Não é ajudar quando me faz sentir invisível na vida do nosso filho! Preciso que me apoies nisto!
Pela primeira vez vi hesitação no olhar dele. Talvez começasse finalmente a perceber.
As semanas seguintes foram um pouco melhores. O Rui começou a impor algumas regras à Sílvia: nada de buscar o Tomás sem avisar; nada de interferir nas decisões escolares sem me consultar; nada de mensagens passivo-agressivas.
Mas a relação entre mim e ela nunca melhorou realmente. Havia sempre tensão no ar, olhares trocados cheios de ressentimento e palavras ditas com veneno disfarçado de preocupação.
O Tomás continuava dividido entre dois mundos: o da mãe e o da nova família do pai. Às vezes perguntava-me se algum dia ia sentir-se inteiro outra vez.
Hoje olho para trás e vejo como tudo mudou desde aquele primeiro encontro com a Sílvia à porta da escola. Percebo agora que há feridas que nunca saram completamente e que há batalhas silenciosas travadas todos os dias nos corredores das famílias desfeitas.
Mas continuo aqui, firme no meu amor pelo Tomás e na certeza de que ninguém pode roubar-me esse lugar — mesmo quando parece que tudo conspira para me afastar dele.
E vocês? Já sentiram que alguém tentou ocupar um espaço que é vosso por direito? Como lidaram com isso? Será possível encontrar paz quando o passado insiste em não partir?