Quando Saí de Casa, Ela Já Morava Lá: O Que Ficou Por Dizer
— Não precisas de bater à porta, Mariana. A chave ainda é tua, não é? — A voz dela ecoou pelo corredor, fria, como se eu fosse uma intrusa na minha própria casa.
O cheiro do café acabado de fazer misturava-se com o perfume doce e enjoativo que eu nunca usaria. Entrei devagar, com o coração a bater tão forte que temi que ela ouvisse. Olhei em volta: as minhas plantas estavam mortas, os quadros trocados de lugar, e no cabide do hall pendia um casaco vermelho que não era meu.
— O João não está — disse ela, sem sequer me olhar nos olhos. — Foi buscar pão. Mas podes ir buscar as tuas coisas à vontade.
A minha garganta apertou-se. Três semanas antes, quando saí daquela casa, ainda acreditava que era uma pausa. Que precisávamos de espaço, como ele dizia. Nunca imaginei que a tal “amiga do trabalho” já dormia na nossa cama.
— Não vou demorar — murmurei, tentando não tremer.
Ela sorriu de lado, um sorriso vitorioso. — Faz como quiseres. Só não mexas nas gavetas do João. Agora são dele… e minhas.
Subi as escadas quase a correr. O quarto parecia mais pequeno, sufocante. Abri o armário e comecei a tirar os meus casacos de inverno, dobrando-os com mãos trémulas. Cada peça era uma memória: o cachecol que ele me ofereceu no Natal passado, o vestido azul da nossa última viagem ao Douro.
Ouvi passos atrás de mim. Virei-me devagar. Ela estava encostada à ombreira da porta, braços cruzados.
— Sabes, Mariana… — começou ela, com voz baixa — sempre achei estranho como tu confiavas nele. Achavas mesmo que ele vinha trabalhar até tarde todos os dias?
Senti o chão fugir-me dos pés. Não respondi. Não queria dar-lhe esse prazer.
— Ele nunca te amou como me ama a mim — continuou ela, impiedosa. — Ficaste tanto tempo agarrada a uma ilusão…
As lágrimas ameaçaram cair, mas engoli-as com raiva. Peguei nas minhas coisas e desci as escadas sem olhar para trás. No corredor, parei junto à porta da sala. O João tinha deixado ali a nossa fotografia de casamento, caída de lado numa prateleira.
— Mariana… — ouvi a voz dele atrás de mim. Virei-me devagar. Ele estava parado à porta, com um saco de pão na mão e um olhar culpado.
— Só vim buscar o resto das minhas coisas — disse eu, tentando soar firme.
Ele pousou o saco na mesa e aproximou-se.
— Desculpa… Eu devia ter-te contado antes. Mas tu estavas tão frágil…
— Frágil? — repeti, quase rindo. — Ou foi só mais fácil mentires?
Ele baixou os olhos. A outra apareceu atrás dele e pousou-lhe a mão no ombro.
— Já chega, João — disse ela, olhando-me com desprezo. — Deixa-a ir.
Senti uma raiva surda crescer dentro de mim. Peguei na fotografia caída e atirei-a para dentro do saco com os meus casacos.
— Fiquem com tudo — disse eu, a voz embargada. — Só quero paz.
Saí dali sem olhar para trás. Na rua, o frio cortava-me a pele e as lágrimas finalmente caíram. Caminhei até à minha nova casa — uma cave húmida em Benfica, onde o sol mal entrava pela janela pequena da cozinha.
Os dias seguintes foram um borrão de tristeza e raiva. A minha mãe ligava todos os dias:
— Mariana, filha… Tens de comer alguma coisa! Queres que vá aí?
— Não, mãe… Preciso de estar sozinha.
O meu pai não dizia nada. Só suspirava ao telefone.
No trabalho, os colegas olhavam-me de lado, cochichavam quando eu passava no corredor. A Carla tentou puxar conversa:
— Se precisares de falar…
— Obrigada, Carla. Prefiro não falar disso agora.
À noite, deitava-me cedo só para não pensar. Mas os pensamentos vinham sempre: como é que não vi? Como é que fui tão ingénua?
Uma noite, bati à porta da minha irmã mais nova, Inês.
— Mariana! — exclamou ela, abraçando-me forte. — Anda cá para dentro!
Chorámos juntas na cozinha dela até às três da manhã.
— Ele não te merecia — dizia ela vezes sem conta. — Tu deste tudo por aquele casamento!
— E agora? O que faço à minha vida?
Ela sorriu-me com ternura.
— Agora começas do zero. Vais ver que ainda vais ser feliz.
Mas eu não acreditava nisso. Sentia-me vazia, traída por quem mais confiava.
Um mês depois recebi uma mensagem do João:
«Preciso de falar contigo.»
O coração disparou outra vez. Encontrei-o num café perto do trabalho.
— Mariana… Eu errei muito contigo. Mas queria pedir-te desculpa cara a cara.
Olhei-o nos olhos pela primeira vez em semanas.
— Não há desculpa possível para o que fizeste — respondi baixinho.
Ele assentiu, cabisbaixo.
— Só queria que soubesses… Não foi planeado. As coisas aconteceram…
Ri-me amargamente.
— As coisas não “acontecem”, João. As pessoas escolhem.
Ele ficou em silêncio e eu levantei-me para sair.
No caminho para casa pensei em tudo o que tinha perdido: a casa onde sonhei ter filhos, os jantares em família ao domingo, as viagens planeadas e nunca feitas.
Mas também pensei no que podia ganhar: liberdade para ser quem sou sem medo de ser traída; espaço para descobrir o que quero da vida; tempo para cuidar de mim.
Comecei a ir ao ginásio com a Inês, inscrevi-me num curso de fotografia e voltei a sair com amigos antigos que tinha deixado para trás por causa do João.
Aos poucos fui recuperando o sorriso. Ainda doía — claro que sim — mas já não era aquela dor insuportável dos primeiros dias.
Um dia cruzei-me com ela no supermercado. Olhou para mim de cima a baixo e sorriu com desdém.
— Espero que estejas melhorzinha agora — disse ela baixinho.
Olhei-a nos olhos e respondi:
— Estou melhor do que nunca. Obrigada por me mostrares quem realmente são vocês os dois.
Ela ficou sem palavras pela primeira vez desde aquele dia na minha casa.
Hoje olho para trás e vejo tudo como um filme antigo: as lágrimas, as discussões caladas, as noites sem dormir… E pergunto-me: quantas vezes aceitamos menos do que merecemos só por medo de ficarmos sozinhos? Será que é preciso perder tudo para nos encontrarmos a nós próprios?