Quando o Amor Não Chega: A História de uma Mãe Portuguesa Entre a Filha e os Sogros Ricos
— Mãe, não percebes? Eu preciso de ajuda, não só de palavras! — A voz da Ana ecoou pela cozinha, cortando o silêncio pesado da noite. As mãos tremiam-me enquanto segurava a chávena de chá, já fria. Oiço-lhe a frustração, mas também a mágoa. E eu? Eu só queria poder dar-lhe tudo, mas a vida não me deixou.
Desde que o António morreu, há sete anos, tudo mudou. Fiquei sozinha com uma pensão que mal chega para pagar a renda desta casa antiga em Almada. A Ana era o meu mundo, a razão pela qual me levantava todos os dias. Mas agora, com trinta anos feitos e um casamento recente com o Ricardo — filho único de um casal abastado de Cascais — sinto-a cada vez mais distante.
— Ana, filha, sabes que faço o que posso… — tentei dizer, mas ela interrompeu-me com um gesto brusco.
— Não é suficiente! A mãe do Ricardo já lhe ofereceu dinheiro para a entrada da casa nova. O pai dele vai pagar as férias deles este verão. E tu? Tu só me dás conselhos e memórias…
Senti uma dor aguda no peito. Não era só o peso das palavras dela; era o peso de tudo o que não podia dar. Lembrei-me das noites em que lhe fazia tranças antes de dormir, das manhãs em que lhe preparava torradas com manteiga e açúcar porque não havia mais nada. Lembrei-me do sorriso dela quando passou no exame de acesso à faculdade — um orgulho que me fez esquecer todas as dificuldades. Agora, parecia que nada disso importava.
Naquela noite, depois de ela sair batendo a porta, sentei-me à mesa e chorei baixinho. Oiço os vizinhos a rir no andar de cima, o som distante da televisão do senhor Joaquim ao lado. O mundo segue, indiferente à minha dor.
No dia seguinte, fui ao mercado comprar legumes para a sopa. A dona Rosa, sempre atenta, perguntou:
— Então, Maria do Carmo, está tudo bem com a menina?
Sorri sem vontade.
— Está… Está casada, feliz… — menti.
A verdade é que não sei se está feliz. Desde o casamento, vejo-a menos. Quando vem cá, fala dos sogros como se fossem reis: viagens ao estrangeiro, jantares em restaurantes caros, presentes sem razão aparente. Eu dou-lhe um bolo de laranja feito com ovos caseiros e ela agradece com um sorriso triste.
Uma tarde, decidi ir visitá-la sem avisar. Levei-lhe um ramo de flores do meu jardim e um frasco de doce de abóbora. Quando cheguei ao prédio novo onde vive com o Ricardo, senti-me deslocada: carros caros à porta, vizinhos de ar apressado e distante.
Ela abriu a porta com surpresa.
— Mãe? Não disseste que vinhas…
— Queria fazer-te uma surpresa. Trouxe-te flores e doce.
Ela olhou para trás, como se temesse que alguém visse.
— Obrigada… Mas agora não posso falar muito. O Ricardo está numa reunião online e não gosta de barulho.
Fiquei ali à porta, sentindo-me pequena. Entreguei-lhe as coisas e fui embora antes que as lágrimas me traíssem.
Nessa noite sonhei com o António. Ele sorria-me do outro lado da mesa da cozinha e dizia:
— Maria do Carmo, não te esqueças: amor de mãe não se mede em dinheiro.
Acordei com o coração apertado. Mas será mesmo assim? Porque é que sinto que estou a perder a minha filha para um mundo onde não pertenço?
Os meses passaram e a distância entre nós cresceu. No Natal, convidei-os para jantar cá em casa. Preparei tudo como antigamente: bacalhau com broa, rabanadas e arroz-doce com canela em forma de coração. Eles chegaram atrasados; trouxeram uma garrafa de vinho caro e um presente embrulhado com fita dourada.
Durante o jantar, a Ana mal falou comigo. O Ricardo contou histórias das viagens aos Alpes e dos jantares no Bairro Alto. Senti-me invisível na minha própria casa.
Depois do jantar, enquanto lavava a loiça sozinha na cozinha, ouvi-os a conversar na sala:
— A tua mãe é simpática… Mas este bairro é tão deprimente — disse o Ricardo em voz baixa.
— Ela faz o melhor que pode — respondeu a Ana, mas sem convicção.
Senti uma raiva surda misturada com tristeza. Porque é que tudo o que faço parece tão pouco aos olhos deles?
Na Páscoa seguinte, recebi um telefonema inesperado da Ana.
— Mãe… Preciso falar contigo.
O coração disparou.
— Diz, filha.
— Estou grávida.
Fiquei sem palavras por uns segundos. Uma alegria imensa misturada com medo.
— Que felicidade! Quando é que vens cá para celebrarmos?
— Não sei… O Ricardo quer que eu fique em casa dos pais dele durante os primeiros meses. Dizem que têm melhores condições…
A notícia que devia unir-nos só serviu para me afastar ainda mais. Passei noites sem dormir, imaginando o meu neto a crescer longe de mim, rodeado de luxos mas talvez sem conhecer o cheiro do pão quente ou o sabor do doce feito pela avó.
Um dia, decidi escrever-lhe uma carta:
“Minha querida Ana,
Sei que não te posso dar tudo o que desejas. Sei que às vezes te envergonhas da minha vida simples. Mas quero que saibas: cada conselho meu é dado com amor; cada bolo ou doce é feito a pensar em ti; cada lágrima minha é por sentir a tua ausência. Espero que um dia percebas que há coisas que o dinheiro nunca poderá comprar: memórias partilhadas, abraços sinceros e o amor incondicional de uma mãe.
Com todo o meu amor,
Mãe”
Não sei se ela leu a carta ou se ficou esquecida numa gaveta qualquer daquela casa fria e moderna. Mas escrevê-la aliviou-me um pouco o peso no peito.
O tempo passou e nasceu o meu neto, Tomás. Vi-o pela primeira vez através do vidro do hospital — os sogros estavam lá dentro com ela; eu fiquei cá fora à espera da minha vez. Quando finalmente pude pegar nele ao colo, chorei baixinho para não assustar ninguém.
Agora vejo-os pouco. A Ana liga-me às vezes por obrigação; fala-me das festas dos sogros e das viagens planeadas para o Tomás conhecer o mundo. Eu fico aqui na minha casa antiga, rodeada das fotografias dela em pequena e dos brinquedos guardados para quando (se) vier cá passar uns dias.
Às vezes pergunto-me: onde foi que errei? Será que podia ter feito mais? Ou será que há batalhas que nunca poderemos vencer contra o poder do dinheiro?
No fundo do coração ainda espero que um dia ela volte — não por precisar de ajuda material ou conforto financeiro — mas porque sente falta do colo da mãe.
E vocês? Acham mesmo que o amor basta quando tudo à volta parece medir-se em euros e aparências?