O Dinheiro da Casa Já Não É Meu: A História de Uma Mulher Portuguesa Que Perdeu o Controle da Própria Vida

— Mariana, já te disse que agora é o meu pai que trata das contas. Não vale a pena estares sempre a perguntar! — gritou o Rui, com aquela voz cansada de quem já não tem paciência para mim.

Fiquei ali, parada no meio da cozinha, com as mãos ainda molhadas do detergente. O cheiro a cebola frita misturava-se com o da roupa acabada de passar. Senti um nó na garganta, mas não chorei. Já não choro à frente dele. Aprendi a engolir as lágrimas e a transformar tudo em silêncio.

O Rui nunca foi assim. Quando nos casámos, há dez anos, era carinhoso, fazia-me rir, dizia que eu era o seu porto de abrigo. Lembro-me do nosso primeiro apartamento em Almada, pequeno mas cheio de sonhos. Trabalhávamos os dois — eu no supermercado, ele na oficina do tio — e, mesmo com pouco dinheiro, sentíamo-nos ricos. Ricos de planos, de esperança.

Mas depois veio a crise. O supermercado fechou, fiquei desempregada. O Rui começou a trabalhar mais horas, sempre cansado, sempre ausente. E foi aí que o sogro se meteu na nossa vida.

— Mariana, tu não percebes nada de contas. O meu pai é que sabe gerir dinheiro — disse-me o Rui numa noite, enquanto eu fazia as contas ao cêntimo para ver se dava para pagar a luz e ainda comprar carne para os miúdos.

O sogro, o senhor António, sempre foi daqueles homens que gostam de mandar. Reformado da CP, acha que sabe tudo sobre tudo. Quando veio morar connosco — porque a sogra morreu e ele não queria ficar sozinho — trouxe consigo os seus hábitos e as suas regras. E agora trouxe também o nosso dinheiro.

— Mariana, não gastes tanto gás! — grita ele da sala sempre que me ouve acender o fogão.

— Mariana, não deixes as luzes acesas! — repete como um disco riscado.

Sinto-me uma criança na minha própria casa. Até para comprar pão tenho de pedir dinheiro ao senhor António. Ele abre aquela carteira gasta, conta as moedas uma a uma e pergunta sempre:

— Para quê tanto pão? Não chega uma carcaça para cada um?

Os meus filhos, o Tiago e a Sofia, já perceberam que alguma coisa mudou. O Tiago tem 8 anos e já me perguntou:

— Mãe, porque é que o avô manda tanto?

Não sei o que responder. Não quero falar mal do avô deles, mas também não quero mentir.

As discussões com o Rui tornaram-se rotina. Ele chega tarde, janta em silêncio e vai para o sofá ver futebol com o pai. Eu fico na cozinha a arrumar tudo sozinha. Às vezes penso em fugir. Pegar nos miúdos e ir para casa da minha mãe em Setúbal. Mas depois lembro-me do olhar triste da Sofia quando lhe digo que não posso comprar aquele iogurte de morango que ela gosta tanto.

Uma noite, depois de mais uma discussão sobre as contas do mês, perdi a cabeça.

— Rui, isto não é vida! Eu não sou empregada do teu pai! Quero poder decidir sobre o nosso dinheiro! Quero poder comprar um presente para os nossos filhos sem ter de pedir licença!

Ele olhou para mim como se eu fosse uma estranha.

— Mariana, estás a exagerar. O meu pai só quer ajudar. Tu é que complicas tudo.

Senti-me tão sozinha naquele momento. Como se ninguém me visse realmente. Como se eu fosse invisível dentro da minha própria casa.

Comecei a sair mais cedo de casa para ir ao café da Dona Lurdes antes de ir buscar os miúdos à escola. Lá posso desabafar um pouco.

— Mariana, tu tens de te impor — diz-me ela enquanto me serve um galão.

— Mas como? Se nem dinheiro tenho para comprar um café sem pedir ao senhor António?

Ela sorri com tristeza e aperta-me a mão.

Os dias passam todos iguais. O senhor António controla tudo: o dinheiro, as compras, até os programas de televisão. O Rui tornou-se uma sombra do homem por quem me apaixonei. Os miúdos andam calados, sentem o peso do ambiente pesado em casa.

No Natal passado, quis comprar um presente especial para cada um deles. Fui pedir dinheiro ao senhor António.

— Para quê brinquedos? Isso é tudo lixo caro! Dá-lhes um livro ou umas meias — disse ele sem sequer olhar para mim.

Acabei por comprar dois livros baratos na feira da escola com umas moedas que tinha guardado numa caixa antiga de bolachas.

Na noite de Natal, quando vi o sorriso triste da Sofia ao abrir o presente, senti-me a pior mãe do mundo.

Comecei a procurar trabalho outra vez. Entreguei currículos em cafés, lojas, até num lar de idosos. Mas ninguém me chama. Dizem que sou velha demais para começar de novo aos 38 anos.

Uma tarde, ouvi uma conversa entre o Rui e o pai dele na sala:

— Achas que a Mariana anda estranha? — perguntou o senhor António.

— Ela está cansada… — respondeu o Rui sem convicção.

— Cansada? Ela tem é sorte em ter casa e comida! As mulheres hoje querem tudo!

Senti uma raiva tão grande que tive vontade de entrar na sala e gritar. Mas fiquei quieta atrás da porta, a ouvir como quem ouve a própria sentença.

Comecei a escrever num caderno velho tudo aquilo que sentia. As mágoas, os sonhos perdidos, as pequenas alegrias dos miúdos quando brincam no parque. Escrever tornou-se o meu refúgio.

Um dia, encontrei uma folha rabiscada pela Sofia:

“Mãe triste. Mãe chora sozinha no quarto. Mãe abraça Sofia forte forte.”

Chorei tanto nesse dia que pensei que nunca mais ia parar.

A minha mãe liga-me todos os domingos.

— Mariana, filha… não podes continuar assim. Vem para casa se precisares.

Mas eu não quero ser um peso para ela também. Ela já tem pouco para viver com a reforma pequena.

No aniversário do Tiago, pedi ao Rui para fazermos uma festa simples em casa com dois amigos dele da escola.

— Não há dinheiro para festas — disse ele seco.

Acabei por fazer um bolo simples com farinha e ovos emprestados pela vizinha do lado.

Quando vi o Tiago soprar as velas com aquele sorriso tímido, prometi a mim mesma que ia mudar alguma coisa.

Comecei a guardar moedas sempre que podia: do troco das compras, das garrafas vazias entregues no supermercado… Aos poucos juntei dez euros escondidos num frasco de café vazio no fundo do armário.

Comprei um batom vermelho barato na farmácia da esquina. Quando cheguei a casa e passei o batom nos lábios pela primeira vez em anos, senti-me outra mulher por uns minutos.

O Rui reparou:

— Para quê isso agora? Vais sair?

Olhei-o nos olhos e respondi:

— Não preciso sair para me sentir bonita.

Ele encolheu os ombros e voltou para junto do pai dele.

Nessa noite escrevi no meu caderno: “Não vou deixar que me apaguem.” E repeti isso todos os dias desde então.

Ainda não consegui arranjar trabalho nem mudar de vida como queria. Mas já não peço licença para ser quem sou dentro da minha própria casa. Faço questão de escolher o jantar pelo menos uma vez por semana; levo os miúdos ao parque mesmo quando dizem que é desperdício de gasolina; rio alto quando vejo uma novela tonta só para irritar o senhor António.

Sei que ainda tenho um longo caminho pela frente. Mas já não sou só silêncio e medo.

Às vezes pergunto-me: quantas mulheres vivem assim caladas? Quantas Marianas existem em Portugal? Será que algum dia vamos conseguir ser donas das nossas próprias vidas outra vez?