O Casamento do Meu Irmão, o Meu Pior Pesadelo: Quando a Família se Torna um Campo de Batalha por Dinheiro
— Não vou dar mais um cêntimo para esse casamento, Ricardo! — gritou o meu pai, batendo com a mão na mesa, fazendo saltar as migalhas do pão de ontem. O silêncio que se seguiu foi tão denso que quase me sufocou. A minha mãe olhou para mim, como se eu pudesse resolver tudo com um simples gesto. O meu irmão, de rosto vermelho, apertava os punhos debaixo da mesa.
Eu, Inês, sempre fui a mediadora da família. Mas naquele momento, sentia-me uma criança perdida num campo de batalha. O casamento do Ricardo, que devia ser motivo de alegria, estava a rasgar-nos por dentro.
Tudo começou há três meses, quando o Ricardo anunciou que ia casar com a Sofia. A notícia foi recebida com abraços e lágrimas felizes. Mas rapidamente a conversa virou para o dinheiro. “O salão custa quase cinco mil euros! E depois há o fotógrafo, o vestido da Sofia, o catering…”, enumerava ele, como se estivesse a ler uma lista de compras banal. O meu pai, reformado da CP, olhava para ele com olhos cansados. “Ricardo, não temos esse dinheiro. Já te ajudámos com a casa…”
A minha mãe, sempre protetora do filho mais velho, tentava suavizar: “Oh António, é uma vez na vida… Não podemos deixar o nosso filho passar vergonha!” Eu sentia-me esmagada entre os dois lados. O meu irmão olhava para mim à espera de apoio. “Inês, tu percebes… Não queres ver o teu irmão feliz?”
Mas eu também tinha contas para pagar. Trabalhava como professora contratada numa escola secundária em Almada e mal conseguia juntar dinheiro para as minhas próprias despesas. Ainda assim, sentia-me culpada por não poder ajudar mais.
As discussões tornaram-se rotina. Ao jantar, já ninguém falava de outra coisa. O meu pai começou a chegar mais tarde do café só para evitar as conversas. A minha mãe chorava baixinho na cozinha enquanto lavava a loiça. O Ricardo e a Sofia apareciam cada vez menos cá em casa.
Uma noite, ouvi os meus pais a discutir no quarto. “Se tu deres dinheiro ao Ricardo às escondidas, eu nunca te perdoo!”, ameaçava o meu pai. A minha mãe soluçava: “Ele é nosso filho! Não posso vê-lo assim!” Senti-me tão pequena, tão impotente.
No domingo seguinte, durante o almoço de família, a tensão explodiu. O Ricardo apareceu com a Sofia e anunciou: “Se não querem ajudar, fazemos tudo sozinhos! Mas depois não venham pedir para participar!” A Sofia olhava para nós com um ar de superioridade que me irritou profundamente.
— Achas justo falares assim aos nossos pais? — perguntei-lhe, sem conseguir conter-me.
— Justo? Justo é sermos tratados como adultos! — respondeu ela, levantando a voz.
O meu pai levantou-se da mesa e saiu para o quintal. A minha mãe ficou sentada, imóvel, com as mãos trémulas no colo. Eu queria gritar, chorar, fugir dali.
Nessa noite não consegui dormir. Fiquei a olhar para o teto do meu quarto, a pensar em tudo o que tínhamos perdido pelo caminho: as conversas à mesa, as gargalhadas partilhadas, os domingos no parque da cidade. Agora só havia acusações e silêncios pesados.
Os dias seguintes foram um arrastar de mágoas. O Ricardo deixou de me atender o telefone. A minha mãe evitava olhar-me nos olhos. O meu pai passava horas no quintal a podar roseiras que já estavam mortas.
Uma tarde, ao chegar a casa depois das aulas, encontrei a minha mãe sentada no sofá com uma caixa de fotografias antigas. Mostrou-me uma foto do Ricardo em pequeno, com um sorriso rasgado e os joelhos esfolados. “Ele sempre foi tão sensível…”, murmurou ela. Senti uma pontada no peito.
— Mãe, não podemos continuar assim… — tentei dizer.
— Eu só queria que fôssemos felizes outra vez — respondeu ela, com lágrimas nos olhos.
No dia do casamento, fui sozinha à igreja. O meu pai recusou-se a ir. A minha mãe apareceu à última hora, de olhos inchados e vestido simples. O Ricardo parecia nervoso; evitou olhar para nós durante toda a cerimónia.
Quando chegou a hora das fotografias de família, senti-me uma figurante num filme triste. A Sofia sorria para as câmaras como se nada tivesse acontecido. O Ricardo abraçou-a com força demais.
No copo-de-água, sentei-me numa mesa afastada e observei os convidados a dançar e rir. Senti inveja deles — inveja da leveza que pareciam ter nas suas famílias.
No final da noite, aproximei-me do Ricardo. Ele estava sozinho na varanda do salão.
— Parabéns — disse-lhe baixinho.
Ele olhou para mim com os olhos marejados.
— Achas que algum dia isto vai passar? — perguntou-me ele.
Não soube responder-lhe. Só lhe apertei a mão e ficámos ali em silêncio.
Hoje olho para trás e pergunto-me: como é possível que uma festa tenha destruído tanto? Será que alguma vez voltaremos a ser uma família? E vocês — já sentiram que perderam tudo por causa de algo que devia ser motivo de alegria?