Quando a Família se Parte: A Escolha que Mudou Tudo
— Não aguento mais, Marta! — gritou o João, batendo com a mão na mesa da cozinha. O som ecoou pela casa pequena, misturando-se com o choro abafado do Tiago, que se escondia atrás da porta do quarto. Eu sentia o coração a bater tão forte que quase me sufocava. O cheiro do café frio e do pão queimado pairava no ar, tornando tudo ainda mais irrespirável.
“Como é que chegámos aqui?”, pensei, olhando para o João, o homem por quem troquei tudo há três anos. O mesmo homem que agora olhava para mim com olhos de quem já não me reconhecia. O Tiago, o meu filho de dez anos, nunca se adaptou ao novo padrasto. Desde que nos mudámos para Lisboa, tudo parecia uma luta: as birras, as notas a cair na escola, as discussões constantes. E eu no meio, a tentar ser mãe e mulher, sem conseguir ser nenhuma das duas.
— Ele não me respeita! — continuou o João. — Não posso viver numa casa onde sou tratado como estranho!
— Ele é só uma criança… — tentei argumentar, mas a minha voz saiu fraca, quase um sussurro.
— Uma criança malcriada! — cortou ele. — Ou isto muda, ou eu vou-me embora.
O silêncio caiu pesado. Senti as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto antes sequer de perceber que estava a chorar. Fui até ao quarto do Tiago. Ele estava encolhido na cama, abraçado ao urso de peluche que já tinha idade para ter deixado para trás.
— Mãe… — murmurou ele, sem me olhar nos olhos. — Eu posso ir viver com os avós?
A pergunta ficou a pairar no ar como uma sentença. Recordei os verões felizes na aldeia de Trás-os-Montes, onde os meus pais ainda viviam. Lá, o Tiago era livre: corria pelos campos, ajudava o avô a tratar das galinhas, ria-se sem medo. Aqui, era só tristeza e tensão.
Naquela noite não dormi. Fiquei sentada à janela a ver a chuva cair sobre Lisboa, cada gota uma memória do que perdi. O João dormia no sofá; o Tiago soluçava baixinho no quarto. Senti-me sozinha como nunca antes.
No dia seguinte liguei à minha mãe.
— Mãe… preciso de te pedir um favor — disse eu, tentando manter a voz firme.
Ela percebeu logo.
— O Tiago vem cá ficar?
— Só por uns tempos… até as coisas acalmarem.
O silêncio dela foi mais pesado do que qualquer palavra.
— Sabes que aqui tem sempre lugar — respondeu por fim, mas ouvi-lhe o desgosto na voz.
Arrumei as roupas do Tiago numa mala azul. Ele não protestou. Abraçou-me forte antes de entrar no comboio com o meu pai. Os olhos dele diziam tudo: medo, tristeza e uma pontinha de esperança.
Quando voltei para casa, o João tentou abraçar-me.
— Fizeste o certo — disse ele. — Agora podemos começar de novo.
Mas eu sentia-me vazia. A casa parecia maior e mais fria sem o Tiago. Os dias passaram lentos; as noites eram ainda piores. O João tentava animar-me: levava-me ao cinema, fazia jantares especiais. Mas nada preenchia o buraco dentro de mim.
As chamadas com o Tiago eram curtas. Ele dizia sempre que estava bem, mas eu conhecia-lhe a voz: faltava-lhe o brilho. A minha mãe dizia que ele passava horas calado, a olhar pela janela.
Um dia recebi uma chamada da escola da aldeia.
— A senhora Marta? O Tiago tem tido dificuldades em adaptar-se…
O meu coração apertou-se ainda mais. Senti-me uma traidora. Tinha escolhido o conforto do João em vez do meu filho? Será que alguma vez me perdoaria?
Comecei a discutir com o João quase todos os dias. Pequenas coisas tornavam-se grandes guerras: um prato mal lavado, um comentário fora de tempo.
— Não era isto que eu queria! — gritei-lhe uma noite.
— Então porquê? — respondeu ele, cansado. — Não te chega nunca nada!
Percebi então que estava sozinha nesta luta. O João queria uma família perfeita; eu só queria recuperar o meu filho.
Numa tarde de domingo, fui visitar o Tiago à aldeia. Ele estava mais magro, os olhos fundos e tristes.
— Mãe… quando é que posso voltar? — perguntou ele baixinho.
Não soube responder-lhe. Senti-me pequena diante dele, como se fosse eu agora a filha e ele o adulto.
Na viagem de regresso chorei tanto que tive de parar o carro à beira da estrada. Olhei para o telemóvel: dezenas de mensagens do João a perguntar onde estava.
Cheguei a casa tarde. O João esperava-me à porta.
— Isto não pode continuar assim — disse ele, sem raiva, só cansaço.
— Tens razão — respondi. — Mas eu também não posso continuar sem o Tiago.
Ficámos ali parados, dois estranhos na mesma casa.
Na semana seguinte tomei uma decisão: pedi ao João para sair de casa durante uns tempos. Ele não protestou; apenas fez as malas e saiu em silêncio.
Fui buscar o Tiago à aldeia. No caminho de volta ele adormeceu no banco de trás, agarrado ao urso de peluche. Quando chegámos a Lisboa, olhou para mim com um sorriso tímido.
Os primeiros dias foram difíceis: ele tinha medo de tudo, até dos barulhos da rua. Mas aos poucos foi voltando a ser criança: trouxe amigos para casa, pediu para ir ao cinema comigo.
O João ligou algumas vezes; nunca atendi. Não sabia se algum dia conseguiria perdoá-lo — ou perdoar-me a mim própria.
Hoje olho para o Tiago enquanto faz os trabalhos de casa na mesa da cozinha onde tudo começou. Pergunto-me se fiz as escolhas certas ou se apenas tentei sobreviver ao caos.
Será possível reconstruir uma família depois de tantas feridas? Ou há dores que nunca saram? E vocês… já tiveram de escolher entre dois amores impossíveis?