O Dia em que a Minha Filha Não Veio ao Aniversário do Pai

— Não venho, mãe. Não insistas. — A voz da Leonor, do outro lado do telefone, era fria como nunca ouvi antes. Senti o chão fugir-me dos pés. O aniversário do António, o meu marido, era sempre um momento sagrado na nossa família. Desde pequena, Leonor fazia questão de preparar-lhe um bolo, de lhe escrever um cartão com desenhos toscos mas cheios de amor. Agora, adulta e casada há pouco mais de um ano, parecia que tudo isso tinha ficado para trás.

Desliguei o telefone sem conseguir dizer mais nada. O António estava na sala, a tentar montar o puzzle que a neta lhe oferecera no Natal. Olhou para mim com aqueles olhos cansados, mas cheios de uma esperança que me partia o coração.

— Ela vem? — perguntou ele, tentando disfarçar a ansiedade.

— Não vem, António. Disse que está ocupada. — A minha voz saiu-me mais baixa do que queria.

Ele não disse nada. Apenas baixou a cabeça e continuou a encaixar peças no silêncio. Senti-me sozinha, traída até. Como é que uma filha se afasta assim dos pais? O que fizemos de errado?

A verdade é que tudo começou a mudar quando Leonor conheceu o Miguel. No início, parecia um rapaz simpático, trabalhador, daqueles que cumprimentam os sogros com dois beijos e trazem flores à mãe da namorada. Mas com o tempo, fui percebendo que ele era reservado demais, quase frio. E Leonor foi mudando com ele. Deixou de vir aos almoços de domingo, começou a recusar convites para jantar, e as conversas ao telefone tornaram-se cada vez mais curtas.

Lembro-me de uma noite em particular, há uns meses atrás. Estávamos todos à mesa — eu, António, Leonor e Miguel — e tentei puxar conversa sobre as férias de verão.

— Este ano podíamos ir todos juntos ao Algarve, como fazíamos quando eras pequena — sugeri, sorrindo para ela.

Leonor olhou para Miguel antes de responder.

— Este ano queremos ir só os dois, mãe. Precisamos de tempo para nós.

O silêncio caiu sobre a mesa como uma nuvem pesada. António tentou aliviar:

— Claro, filha. Vocês agora têm a vossa vida.

Mas eu sentia um nó na garganta. A minha menina estava a afastar-se e eu não sabia como trazê-la de volta.

No dia do aniversário do António, preparei tudo como sempre: o arroz de pato que ele adora, a tarte de amêndoa da receita da minha mãe, a mesa posta com a toalha branca dos dias especiais. Convidei também o nosso filho mais novo, o Pedro, que veio com a mulher e os filhos. Mas faltava ela. Faltava Leonor.

Durante o almoço, tentei disfarçar a tristeza. Os netos corriam pela casa, Pedro falava alto sobre o trabalho novo em Lisboa, mas eu só conseguia olhar para o lugar vazio à mesa. António sorria para os netos, mas os olhos dele procuravam sempre a porta.

Depois do almoço, fui à varanda respirar fundo. O Pedro veio ter comigo.

— Mãe, não fiques assim. A Leonor está numa fase diferente… — tentou consolar-me.

— Uma fase? Pedro, ela nem sequer ligou ao pai hoje! — respondi, sentindo as lágrimas a quererem saltar.

Ele abraçou-me sem dizer mais nada. Senti-me velha e inútil naquele momento.

À noite, depois de todos irem embora e a casa voltar ao silêncio habitual, sentei-me na cama ao lado do António.

— Achas que fizemos alguma coisa mal? — perguntei-lhe em voz baixa.

Ele demorou a responder.

— Não sei… Talvez seja só o tempo a passar. Os filhos crescem e seguem as suas vidas.

Mas eu não conseguia aceitar essa resposta. Não podia ser só isso.

Nos dias seguintes tentei ligar à Leonor várias vezes. Às vezes não atendia; outras vezes respondia com monossílabos ou dizia que estava ocupada. Senti-me cada vez mais impotente.

Uma tarde decidi ir ter com ela ao trabalho. Esperei à porta do escritório onde ela trabalha como contabilista em Lisboa. Quando saiu e me viu ali parada no passeio, ficou surpreendida.

— Mãe? O que fazes aqui?

— Precisava de falar contigo. — A minha voz tremia.

Ela olhou em volta, desconfortável.

— Agora não posso… Tenho uma reunião daqui a pouco.

— Leonor… — insisti — O teu pai ficou tão triste no aniversário…

Ela suspirou fundo e olhou para mim com olhos cansados.

— Mãe, eu não sou mais uma criança! Tenho a minha vida agora! Não posso estar sempre aí para tudo…

Senti uma raiva surda crescer dentro de mim.

— Não te estou a pedir tudo! Só queria que estivesses presente nos momentos importantes! Somos tua família!

Ela desviou o olhar.

— O Miguel não gosta muito de vir cá… Diz que se sente deslocado…

— E tu? Também te sentes deslocada connosco?

Ela não respondeu. Ficámos ali paradas no passeio durante uns segundos eternos até ela dizer:

— Tenho mesmo de ir…

Vi-a afastar-se apressada e senti-me derrotada.

Nessa noite não consegui dormir. Fiquei horas a olhar para o teto do quarto escuro, a pensar em tudo o que tínhamos vivido juntas: os passeios ao parque quando ela era pequena; as noites em que lhe contava histórias até adormecer; os abraços apertados quando tinha pesadelos; os risos cúmplices quando cozinhávamos juntas ao domingo…

Como é que tudo isso se perdeu?

Nos dias seguintes tentei ocupar-me com as tarefas da casa: lavar roupa, arrumar armários, cuidar das flores no quintal. Mas nada preenchia o vazio que sentia por dentro.

Uma tarde recebi uma mensagem da Leonor: “Mãe, podemos falar?” O coração disparou-me no peito. Liguei-lhe imediatamente.

— Mãe… — ouvi-a dizer do outro lado — Desculpa por ter faltado ao aniversário do pai… Eu sei que devia ter ido…

A voz dela estava embargada pelas lágrimas.

— O que se passa contigo, filha? Porque é que te afastaste assim?

Ela hesitou antes de responder:

— Sinto-me sufocada às vezes… O Miguel diz que eu tenho de aprender a pôr limites… Que vocês me controlam demasiado…

Fiquei sem palavras por uns segundos.

— Controlamos? Só queremos estar contigo! Só queremos saber se estás bem!

Ela chorava baixinho do outro lado da linha.

— Eu sei… Mas às vezes sinto-me dividida entre vocês e ele… E acabo por não conseguir agradar a ninguém…

Nesse momento percebi que talvez eu também tivesse errado. Talvez tivesse exigido demais dela sem perceber os desafios da vida adulta dela.

— Leonor… Eu amo-te tanto… Só quero que sejas feliz…

Ela soluçou:

— Eu também vos amo… Só preciso de tempo para encontrar o meu equilíbrio…

Desliguei o telefone com lágrimas nos olhos mas com uma sensação estranha de alívio. Talvez fosse mesmo preciso dar-lhe espaço para ela voltar quando estivesse pronta.

Nos dias seguintes tentei mudar: deixei de ligar todos os dias; comecei a escrever cartas para mim própria em vez de mensagens para ela; voltei a dedicar-me aos meus hobbies antigos — costura, leitura, jardinagem. Aos poucos fui aprendendo a viver com a ausência dela sem deixar que isso me destruísse por dentro.

Passaram-se meses até voltarmos a estar juntas numa ocasião especial: o batizado do filho do Pedro. Quando vi Leonor entrar na igreja com Miguel ao lado, senti um aperto no peito mas também uma alegria imensa por vê-la ali finalmente.

No final da cerimónia abraçámo-nos longamente sem dizer nada. Senti que talvez ainda houvesse esperança para nós.

Agora escrevo estas palavras sentada na varanda da nossa casa em Sintra enquanto vejo o sol pôr-se atrás das árvores do jardim onde Leonor costumava brincar em pequena. Penso em tudo o que vivemos e pergunto-me: será possível recuperar o amor perdido entre mãe e filha? Ou será que temos mesmo de aprender a amar à distância?

E vocês? Já sentiram este vazio dentro da vossa própria família? Como lidaram com ele?