Entre o Silêncio e o Grito: O Peso das Escolhas do Meu Pai

— Não, Joana. Já disse que não vais trazer mais uma criança para esta casa enquanto os teus sobrinhos não forem crescidos. — A voz do meu pai ecoou pela sala, dura como pedra, enquanto eu sentia o chão fugir-me dos pés.

Olhei para ele, sentada à mesa da cozinha, as mãos trémulas a apertar a chávena de chá frio. A minha mãe, como sempre, calada num canto, fingia arrumar a louça só para não ter de olhar para mim. O Rui, o meu irmão mais novo, estava no sofá com o telemóvel, alheio ao drama que se desenrolava à sua volta. Os seus dois filhos pequenos brincavam no tapete, rindo alto, sem perceberem o peso daquela conversa.

— Pai, eu tenho trinta e três anos. O Miguel e a Leonor são teus netos, mas não são meus filhos. Eu quero ser mãe! — A minha voz saiu mais alta do que queria, mas já não aguentava mais aquela prisão invisível.

Ele bateu com a mão na mesa. — Não me desafies, Joana! Já basta o que temos cá em casa. O Rui precisa de apoio. Tu sabes como ele é…

Como ele é. Sempre foi assim: o Rui fazia asneiras, o Rui arranjava problemas, e eu tinha de ser a filha perfeita para compensar. Desde pequena que aprendi a calar-me, a estudar sem reclamar, a ajudar em casa. O Rui? Era o menino dos olhos do pai. Quando engravidou a namorada aos vinte anos e voltou para casa com ela e os bebés, ninguém lhe disse nada. Só eu é que ouvi: “Ajuda o teu irmão. Ele precisa de ti.”

A minha mãe nunca se opôs ao meu pai. Vivia num silêncio resignado desde que me lembro. Às vezes penso que ela se esqueceu de quem era antes de casar com ele. Eu prometi a mim mesma que não ia ser assim.

Mas agora… agora estava ali, adulta, com um emprego estável como professora primária, uma relação sólida com o Pedro — que já me tinha pedido em casamento duas vezes — e ainda assim presa à vontade do meu pai. Ele dizia que era “para bem da família”, mas eu sabia que era só mais uma forma de controlar tudo à sua volta.

O Pedro tentava compreender. — Joana, não podes deixar que ele decida por ti. — dizia-me baixinho à noite, quando eu chorava no seu ombro.

— Não percebes… Se eu sair de casa agora, deixo a minha mãe sozinha com ele. E os miúdos? O Rui mal trabalha…

O Pedro suspirava. — E tu? Quando é que pensas em ti?

A verdade é que nunca pensei muito em mim. Sempre fui treinada para pensar nos outros primeiro — no Rui, na mãe, até no pai. Mas agora sentia uma raiva surda crescer dentro de mim.

Naquela noite, depois do jantar, ouvi o Rui discutir com a namorada na sala. Ela chorava baixinho; ele gritava sobre dinheiro e trabalho. O meu pai entrou e mandou-a calar-se: — Aqui em casa não há gritaria! — Mas nunca levantou a voz ao Rui.

Fui ter com a minha mãe à cozinha. Ela lavava pratos mecanicamente.

— Mãe… — comecei, hesitante — Tu achas justo isto? Eu não poder ter filhos porque o Rui precisa de apoio?

Ela parou por um segundo, mas não me olhou nos olhos.

— O teu pai só quer o melhor para todos…

— Não quer nada! Só quer controlar-nos! — explodi finalmente.

Ela tremeu ligeiramente e voltou ao trabalho.

Nessa noite não dormi. Fiquei a olhar para o teto do meu quarto de infância, onde ainda estavam coladas as estrelas fosforescentes que pus quando tinha doze anos. Senti-me ridícula: uma mulher feita presa num quarto de menina porque nunca teve coragem de sair.

No dia seguinte fui trabalhar com olheiras fundas. As crianças da escola eram o meu único alívio; ali sentia-me útil e respeitada. Uma colega percebeu o meu estado.

— Joana, está tudo bem?

Quase chorei ali mesmo. Mas sorri e disse: — São só coisas de família.

À tarde liguei ao Pedro e pedi-lhe para nos encontrarmos no café onde demos o nosso primeiro beijo.

— Não aguento mais — confessei-lhe assim que me sentei.

Ele pegou-me nas mãos.

— Joana… Vem viver comigo. Não tens de pedir permissão ao teu pai para seres feliz.

— E a minha mãe? E os miúdos?

— Eles vão sobreviver. Tu é que estás a morrer aos poucos aí dentro.

As palavras dele ficaram-me na cabeça durante dias. Em casa, o ambiente piorava: o Rui começou a chegar tarde e a sair cedo; a namorada dele chorava cada vez mais; os miúdos estavam sempre doentes ou birrentos; o meu pai gritava por tudo e por nada; a minha mãe parecia um fantasma.

Uma noite ouvi um estrondo na sala: o Rui tinha atirado uma cadeira ao chão durante uma discussão com o meu pai. Os miúdos choravam assustados; a namorada dele saiu porta fora com eles ao colo. O meu pai ficou vermelho de raiva mas não fez nada ao Rui — só murmurou: “Isto é tudo culpa tua”, olhando para mim como se eu fosse responsável por tudo.

Nesse momento percebi: nunca ia ser suficiente para ele. Nunca ia poder viver a minha vida enquanto estivesse ali.

No dia seguinte fiz as malas em silêncio. A minha mãe apareceu à porta do quarto enquanto eu dobrava as roupas.

— Vais mesmo sair?

Olhei para ela com lágrimas nos olhos.

— Mãe… Eu preciso disto para sobreviver.

Ela abraçou-me pela primeira vez em anos. Senti-a tremer nos meus braços.

— Desculpa… — sussurrou ela — Desculpa nunca ter tido coragem.

Saí de casa sem olhar para trás. O Pedro esperava-me no carro; abraçou-me forte e prometeu-me um futuro diferente.

Durante meses senti culpa: pelos miúdos, pela mãe, até pelo Rui — apesar de tudo era meu irmão. Mas também senti alívio: finalmente podia respirar sem medo de desiludir alguém.

O meu pai deixou de me falar durante quase um ano. Só me procurou quando a minha mãe adoeceu gravemente; fui vê-la ao hospital e ela sorriu-me com ternura pela primeira vez desde que era criança.

O Rui acabou por sair de casa também; foi viver com outra mulher noutro lado qualquer. Os miúdos ficaram com a mãe deles e vejo-os sempre que posso.

Hoje sou mãe da pequena Matilde — uma filha muito desejada e amada. O Pedro é um companheiro incrível; juntos construímos uma casa onde ninguém grita nem impõe regras absurdas.

Às vezes pergunto-me se podia ter feito diferente; se devia ter lutado mais pela minha mãe ou pelos sobrinhos… Mas sei que só consegui salvar-me porque tive coragem de sair.

E vocês? Quantos de nós vivemos presos às expectativas dos outros? Até onde devemos sacrificar-nos pela família? Gostava mesmo de saber as vossas histórias.