Quando Precisei de Apoio, a Família do Meu Marido Virou-me as Costas: Não Serei Mais o Porto de Abrigo Deles
— Não percebo porque é que nunca estás satisfeita, Sofia. A minha mãe só te pediu um favor, não custa nada — disse o Rui, com aquele tom cansado que já me era tão familiar.
Olhei para ele, sentada à mesa da cozinha, as mãos ainda a tremer depois do telefonema da sogra. Mais uma vez, Dona Lurdes precisava que eu fosse ver o tio Joaquim, que se queixava das pernas. Mais uma vez, eu era a enfermeira de serviço, a nora prestável, mas nunca a filha ou sequer a amiga.
— Rui, não é só um favor. É sempre assim. Quando foi que alguém da tua família me ligou só para saber como estou? — perguntei, a voz embargada pela frustração.
Ele desviou o olhar para o telemóvel. O silêncio dele era a resposta que eu já conhecia de cor.
Desde o dia em que casei com o Rui, há sete anos, senti-me uma peça fora do puzzle. A família dele era unida, mas só entre eles. Eu era a enfermeira Sofia, útil quando havia febres, quedas ou dúvidas sobre receitas médicas. Nunca fui convidada para os almoços de domingo sem ser por obrigação. Nunca recebi um abraço espontâneo da sogra ou um telefonema do cunhado só para conversar.
No início tentei de tudo: fiz bolos para os aniversários, ofereci-me para ajudar nas festas da aldeia, até aprendi a fazer arroz de cabidela como a Dona Lurdes gostava. Mas nada parecia suficiente. Sempre havia um comentário: “A Sofia não faz como nós fazemos”, “A Sofia é muito reservada”, “A Sofia não percebe destas coisas”.
O Rui dizia que era impressão minha. Que eles eram assim com toda a gente. Mas eu via como tratavam a irmã dele, a Mariana: risos cúmplices, segredos partilhados à mesa, olhares de ternura. Eu era invisível até alguém tossir ou se magoar.
O pior foi quando perdi o bebé. Estava grávida de três meses e meio quando comecei a sangrar no hospital onde trabalho. O Rui estava numa formação em Lisboa e só chegou horas depois. Liguei à Dona Lurdes porque precisava de alguém ao meu lado. Ela atendeu e disse apenas:
— Ai filha, agora não posso ir, estou a fazer o jantar para o teu cunhado. Logo vejo se passo por aí.
Nunca passou. Nem ela nem ninguém da família do Rui. Fiquei sozinha naquela enfermaria fria, com as mãos geladas e o coração despedaçado. No dia seguinte, recebi uma mensagem da Mariana: “As melhoras”. Só isso.
Depois disso, fechei-me ainda mais. O Rui tentou apoiar-me, mas ele próprio estava perdido na dor e na culpa de não ter estado presente. A nossa relação ficou tensa, cheia de silêncios e pequenas discussões.
Mesmo assim, continuei a ser chamada sempre que alguém precisava de mim. O tio Joaquim caiu? Chamem a Sofia. A avó tem dúvidas sobre os comprimidos? Perguntem à Sofia. O primo tem febre? A Sofia sabe o que fazer.
Até ao dia em que o meu pai foi internado com um AVC. Liguei ao Rui em lágrimas:
— Preciso de ti agora. Podes vir comigo ao hospital?
Ele hesitou:
— Hoje é o jantar dos meus pais… Não posso faltar.
Senti uma raiva surda a crescer dentro de mim. O meu pai podia morrer e o Rui achava mais importante ir ao jantar da família dele? Fui sozinha para o hospital, sentei-me ao lado do meu pai e chorei baixinho durante horas.
Quando voltei para casa nessa noite, encontrei o Rui sentado no sofá, com um prato de bacalhau à Brás à frente.
— Como está o teu pai? — perguntou sem levantar os olhos da televisão.
— Está mal — respondi seca. — Mas não te preocupes, não precisas de te incomodar.
Ele suspirou:
— Sofia, não compliques as coisas…
Nesse momento percebi que estava sozinha. Não só na família dele, mas também no meu próprio casamento.
Os meses seguintes foram um arrastar de dias cinzentos. O meu pai recuperou lentamente e eu continuei a trabalhar no hospital, cada vez mais exausta. Em casa, o Rui e eu éramos dois estranhos a partilhar o mesmo espaço.
Certa noite, depois de mais um telefonema da sogra a pedir-me para ir ver o tio Joaquim (de novo!), explodi:
— Chega! Não vou mais! Não sou vossa criada nem vossa enfermeira particular! Quando precisei de vocês, ninguém apareceu! Agora desenrasquem-se!
O Rui olhou-me como se eu tivesse enlouquecido:
— Estás a exagerar…
Levantei-me e fui arrumar as minhas coisas para dormir no quarto de hóspedes. Pela primeira vez em anos senti-me livre do peso daquela família.
Nos dias seguintes recusei todos os pedidos da família do Rui. Deixei de responder às mensagens da sogra e do cunhado. No hospital, concentrei-me nos meus pacientes — pessoas que realmente precisavam e valorizavam o meu cuidado.
O Rui tentou falar comigo várias vezes:
— Sofia, eles não percebem porque mudaste tanto…
— Porque nunca quiseram perceber quem eu sou — respondi-lhe.
Comecei a sair mais com as minhas amigas do hospital. Redescobri pequenos prazeres: caminhar sozinha junto ao rio Douro ao fim da tarde, ler um livro sem interrupções, ouvir música alta enquanto cozinhava só para mim.
A família do Rui continuou a viver como se nada fosse. Ouvi dizer que contrataram uma enfermeira particular para o tio Joaquim e que a Dona Lurdes agora se queixava das “pessoas ingratas” que só aparecem quando precisam.
O Rui e eu acabámos por nos separar alguns meses depois. Não houve grandes discussões nem cenas dramáticas — apenas um silêncio resignado e a certeza de que já não havia nada entre nós além do passado.
Hoje vivo sozinha num pequeno apartamento no Porto. Tenho menos gente à minha volta mas sinto-me mais leve. Aprendi a dizer não sem culpa e a cuidar de mim antes dos outros.
Às vezes pergunto-me: quantas mulheres continuam a ser o porto seguro de famílias que nunca as acolheram verdadeiramente? Quantas Sofias há por aí caladas, à espera de um gesto simples de carinho?
E vocês? Já sentiram que davam tudo por alguém ou por uma família… e mesmo assim nunca eram suficientes?