À Sombra do Meu Lar: Uma História de Fuga
— Não podes ficar aqui, Mariana. O Rui não quer confusões — sussurrou Inês, com os olhos vermelhos de tanto chorar, enquanto eu apertava os meus filhos contra o peito, sentindo o cheiro do medo e da chuva entranhados nas suas roupas.
A tempestade lá fora era quase tão violenta quanto a que me devastava por dentro. O Tiago, de oito anos, tremia em silêncio; a Leonor, com apenas quatro, chorava baixinho, como se já soubesse que o mundo não era justo. Eu queria gritar, implorar, mas as palavras ficavam presas na garganta. O que dizer quando a tua melhor amiga te fecha a porta? Quando a única pessoa em quem confiaste durante anos agora hesita por causa de um homem?
— Inês, por favor… Só esta noite. Amanhã eu vou-me embora. Não tenho para onde ir — supliquei, sentindo as lágrimas misturarem-se com a água da chuva no meu rosto.
Ela olhou para trás, para o corredor escuro onde Rui se mantinha imóvel, braços cruzados, olhar frio. — Mariana, não percebes? Se o Paulo vier cá… Se ele descobre que estás aqui… — sussurrou ela, quase sem voz.
O nome dele era como uma faca. Paulo. O homem com quem casei aos vinte e dois anos, o pai dos meus filhos, o mesmo que me ensinou o significado do medo. Durante anos aguentei os gritos, as portas a bater, os insultos sussurrados ao ouvido quando ninguém via. Aguentei porque acreditava que era assim que as famílias sobreviviam. Aguentei porque em Portugal ainda se diz muitas vezes: “É só uma fase”, “Ele não é assim”, “Pensa nos miúdos”.
Mas naquela noite, quando ouvi o estrondo da porta e vi o olhar vazio do Paulo depois de mais uma discussão por causa do dinheiro — sempre o dinheiro — percebi que não podia ficar mais. Agarrei nos miúdos, enfiei-os no carro e conduzi sem destino até à casa da Inês. Ela era a minha âncora desde o liceu. Sempre disse que podia contar com ela para tudo.
— Mariana… — murmurou Inês, tocando-me no braço. — Eu quero ajudar-te. Mas o Rui está furioso. Ele diz que não quer problemas com a polícia. Que não quer misturar-se nisto.
Olhei para ela e vi o medo nos seus olhos. Não era só medo do Paulo; era medo do próprio marido. Medo de desagradar-lhe, de perder a paz frágil daquela casa de classe média nos arredores de Lisboa. Senti-me pequena, invisível.
— Então é isto? — perguntei, quase sem voz. — É assim que acaba?
Ela baixou os olhos. — Eu posso dar-te algum dinheiro… Podes ir para um hotel…
Ri-me, um riso amargo e desesperado. — Um hotel? Com dois miúdos? Achas que tenho dinheiro para isso?
O Rui apareceu à porta do corredor. — Mariana, desculpa, mas tens de ir. Não quero problemas aqui em casa. Já chega de dramas.
A raiva subiu-me à cabeça como uma onda quente. — Dramas? Achas que isto é um drama? Eu só quero proteger os meus filhos!
Ele encolheu os ombros e virou costas.
A Inês chorava em silêncio. O Tiago olhava para mim com olhos grandes e assustados. A Leonor agarrava-se à minha perna.
Saímos para a rua debaixo da chuva. O carro estava frio e húmido. Sentei-me ao volante sem saber para onde ir. Liguei à minha mãe em Setúbal.
— Mãe… preciso de ajuda.
O silêncio do outro lado foi pesado.
— Mariana… Tu sabes como é o teu pai… Ele nunca gostou do Paulo, mas também não quer confusões cá em casa… E sabes como ele é com as crianças…
Fechei os olhos. O meu pai sempre foi rígido, distante. A minha mãe sempre viveu à sombra dele. Não havia espaço para fraquezas na nossa família.
— Está bem, mãe. Desculpa incomodar.
Desliguei e fiquei ali parada, com as mãos a tremer no volante. O Tiago perguntou:
— Mãe… vamos dormir onde?
Olhei para ele e tentei sorrir.
— Vamos encontrar um sítio seguro, filho.
Conduzi sem rumo pelas ruas molhadas de Oeiras até encontrar um parque de estacionamento vazio junto ao rio Tejo. A chuva batia no tejadilho do carro como dedos impacientes. Tapei os miúdos com os casacos e tentei aquecê-los com o meu corpo.
Pensei em tudo o que tinha perdido: a casa onde plantei as primeiras flores no jardim; as fotografias das férias no Algarve; os livros que li em noites solitárias enquanto esperava que o Paulo adormecesse depois de mais uma discussão.
Pensei em tudo o que ainda podia perder: os meus filhos, a minha sanidade, a esperança.
Na manhã seguinte fui ao centro de saúde pedir ajuda social. A assistente social olhou para mim com pena e disse:
— Há uma casa-abrigo em Lisboa… Mas está cheia neste momento. Pode tentar ligar para esta linha de apoio…
Dei por mim a agradecer-lhe como se me tivesse salvo a vida.
Durante dias vivi entre carros emprestados por conhecidos e sofás de amigas distantes que me recebiam às escondidas dos maridos ou dos pais. O Tiago começou a perguntar quando voltávamos para casa; a Leonor chorava todas as noites antes de adormecer.
Uma tarde recebi uma mensagem da Inês:
“Desculpa-me. O Rui arrependeu-se… Podes vir cá buscar umas roupas e brinquedos dos miúdos se quiseres.”
Fui lá buscar as coisas com o coração apertado. Ela tentou abraçar-me à porta mas eu recuei.
— Não te culpo — disse-lhe eu, olhando-a nos olhos pela primeira vez desde aquela noite fatídica. — Mas nunca mais vou esquecer.
Ela chorou ainda mais forte.
Consegui finalmente um lugar numa casa-abrigo em Almada. Era um apartamento pequeno partilhado com outras mães e crianças fugidas como eu. Ali aprendi que não estava sozinha: havia outras mulheres com histórias ainda mais duras; outras Leonores e outros Tiagos a tentar perceber porque é que as mães choram à noite.
Comecei a trabalhar numa lavandaria durante o dia e à noite ajudava os miúdos com os trabalhos da escola improvisada na sala comum da casa-abrigo. A vida era dura mas havia uma espécie de paz: ninguém gritava comigo; ninguém batia portas; ninguém me fazia sentir invisível.
O Paulo tentou contactar-me várias vezes mas nunca respondi. Um dia apareceu à porta da lavandaria; chamei a polícia e ele foi embora sem olhar para trás.
Os meses passaram devagarinho até conseguir um pequeno T1 em Cacilhas através do apoio social da câmara municipal. Era minúsculo mas era nosso: pela primeira vez em anos fechei uma porta sabendo que ninguém ia entrar sem ser convidado.
O Tiago voltou a sorrir devagarinho; a Leonor começou a dormir noites inteiras sem pesadelos.
Às vezes ainda sonho com aquela noite de tempestade: vejo-me parada à porta da Inês, ouço o Rui a dizer “não quero problemas”, sinto o peso do mundo nos ombros.
Pergunto-me muitas vezes: quantas mulheres continuam hoje à espera que alguém lhes abra uma porta? Quantos filhos dormem no banco de trás de um carro enquanto lá fora chove?
E vocês? O que fariam se fosse convosco? Até onde iriam para proteger quem amam?