Irmãs, Sangue e Lágrimas: Como Deixei de Falar com a Minha Irmã
— Mariana, não podes continuar assim! — gritou a minha mãe da cozinha, enquanto eu subia as escadas com os olhos marejados. O cheiro do arroz de pato misturava-se ao peso do silêncio entre mim e a Joana, a minha irmã mais nova. Desde pequenas que éramos como água e azeite, mas naquela noite tudo pareceu desabar de vez.
Lembro-me de olhar para trás, já no topo das escadas, e ver a Joana parada à porta da sala, os braços cruzados e o olhar duro. — Não te preocupes, mãe. Ela é que nunca sabe ouvir ninguém — atirou ela, com aquela voz fria que sempre usava quando queria magoar.
Fechei-me no quarto e deixei-me cair na cama. Oiço ainda hoje o eco dos gritos abafados pela porta fechada. “Porque é que tudo tem de ser uma guerra?”, pensei, enquanto as lágrimas me corriam pelo rosto. Crescemos juntas em Lisboa, num apartamento pequeno em Benfica, partilhando brinquedos, segredos e até o mesmo cobertor nas noites frias. Mas à medida que crescíamos, as diferenças tornaram-se abismos.
Joana era extrovertida, sempre rodeada de amigos, com notas brilhantes e um sorriso fácil. Eu era mais reservada, preferia livros e tardes silenciosas no Jardim da Estrela. A minha mãe dizia que éramos como o sol e a lua — diferentes, mas igualmente necessárias. O meu pai, por outro lado, limitava-se a suspirar e a esconder-se atrás do jornal sempre que começávamos a discutir.
O pior veio quando o nosso avô adoeceu. A família uniu-se em torno dele, mas as tensões entre mim e a Joana só aumentaram. Ela queria decidir tudo: quem ficava com ele no hospital, quem tratava dos papéis da reforma, até quem cozinhava para ele nos fins de semana. Eu sentia-me sempre posta de lado, como se a minha opinião não valesse nada.
Uma noite, depois de mais uma discussão acesa sobre os cuidados ao avô, Joana atirou-me à cara:
— Se fosses menos egoísta e pensasses mais nos outros, talvez o avô não estivesse assim tão mal!
Essas palavras ficaram-me cravadas no peito como uma faca. Saí de casa sem dizer nada e caminhei durante horas pelas ruas vazias. Senti-me sozinha como nunca antes.
A partir desse dia, comecei a afastar-me. Deixei de responder às mensagens da Joana, evitava estar na mesma divisão que ela e até inventava desculpas para não ir aos almoços de família. A minha mãe chorava baixinho na cozinha, o meu pai tentava juntar-nos à mesa como se nada se passasse. Mas eu já não conseguia fingir.
O tempo passou e o avô acabou por falecer numa manhã cinzenta de novembro. No funeral, mantive-me afastada da Joana. Vi-a chorar nos braços da nossa mãe, mas não consegui aproximar-me. Senti raiva dela — por ser sempre o centro das atenções, por nunca perceber o quanto me magoava.
Depois do funeral, a família reuniu-se em casa dos meus pais. O ambiente era pesado, todos falavam baixo. A certa altura, a Joana aproximou-se de mim na varanda.
— Mariana… podemos falar?
Olhei para ela sem expressão. — Não há nada para dizer.
Ela hesitou antes de responder:
— Eu sei que as coisas não têm sido fáceis entre nós… mas somos irmãs.
— Pois somos — respondi seca — mas isso não significa que tenhamos de nos magoar constantemente.
Ela ficou calada durante uns segundos e depois afastou-se. Naquele momento percebi: talvez nunca conseguíssemos entender-nos.
Os meses seguintes foram um vazio. As festas de Natal passaram sem trocarmos uma palavra. Os aniversários eram celebrados em horários diferentes para evitarmos cruzar-nos. A minha mãe tentava convencer-me a dar o braço a torcer:
— Mariana, ela é tua irmã! Vais arrepender-te se deixares isto arrastar-se…
Mas eu sentia-me exausta. Cansada de ser sempre eu a ceder, cansada de sentir que nunca era suficiente.
Um dia, ao regressar do trabalho — sou professora numa escola básica em Lisboa — encontrei a minha mãe sentada à mesa da cozinha com os olhos vermelhos.
— O que se passa? — perguntei preocupada.
Ela olhou para mim com tristeza:
— A Joana foi ao médico hoje… disseram-lhe que pode ter um problema no coração.
Senti um aperto no peito. Por um momento quis correr até ela, abraçá-la como fazíamos em pequenas quando tínhamos medo do escuro. Mas algo me travou — orgulho? Mágoa? Não sei.
Durante semanas vivi dividida entre o desejo de perdoar e o medo de voltar a ser magoada. Via a minha mãe definhar entre as duas filhas em guerra e sentia-me culpada por lhe causar tanta dor.
Finalmente, numa noite chuvosa de março, decidi ir ter com a Joana. Toquei à campainha do seu apartamento em Alvalade com as mãos a tremer.
Ela abriu a porta surpreendida:
— Mariana?
Ficámos ali paradas durante uns segundos até que ela me deixou entrar. Sentámo-nos na sala em silêncio até que finalmente falei:
— Não sei se consigo perdoar tudo o que aconteceu… mas também não quero continuar assim.
Ela começou a chorar baixinho:
— Eu também sinto falta de ti… Sinto falta da minha irmã.
Abraçámo-nos pela primeira vez em anos. Não resolvemos todos os nossos problemas naquela noite — longe disso — mas demos um passo importante.
Hoje ainda há dias em que discutimos por coisas pequenas: quem leva a mãe ao médico ou quem fica encarregue do almoço de domingo. Mas aprendemos a dar espaço uma à outra e a pedir desculpa quando erramos.
Às vezes pergunto-me: quantas famílias vivem presas em silêncios e mágoas como nós? Vale mesmo a pena deixar o orgulho falar mais alto do que o amor? Talvez nunca encontre uma resposta definitiva… Mas sei que cada dia é uma nova oportunidade para tentar ser melhor irmã — e melhor filha.