Quando pedi ajuda à minha sogra: O dia em que a minha família se partiu
— Não, não posso. — A voz da Dona Amélia ecoou pela cozinha, cortante como uma faca. Fiquei ali parada, com as mãos ainda húmidas do detergente, a olhar para ela sem saber o que dizer. O relógio marcava seis e meia da tarde, a chuva batia forte nas janelas do nosso apartamento em Setúbal, e eu sentia o peso do mundo nos ombros. — Mas, Dona Amélia, é só por duas horas. O Ricardo está atrasado no trabalho e eu preciso mesmo de ir à farmácia buscar o antibiótico do Diogo. Ele está com febre desde ontem… — tentei explicar, a voz a tremer.
Ela cruzou os braços, os olhos duros. — Não sou criada de ninguém, Mariana. Já criei os meus filhos. Agora cada um que se desenrasque com os seus problemas.
O silêncio caiu pesado entre nós. O Diogo tossiu no quarto ao lado e a Leonor choramingava porque queria ver desenhos animados. Senti uma raiva surda a crescer dentro de mim, misturada com vergonha. Como é que cheguei aqui? Como é que uma coisa tão simples se tornou impossível?
Quando o Ricardo chegou, já depois das oito, encontrou-me sentada no chão da cozinha, a chorar baixinho. Ele pousou as chaves e ficou a olhar para mim como se eu fosse um problema difícil de resolver. — O que é que se passa agora? — perguntou, cansado.
— A tua mãe recusou-se a ajudar-me. Precisei dela e ela virou-me as costas — disse-lhe, tentando controlar as lágrimas.
Ele suspirou, passou as mãos pelo cabelo. — Mariana, já sabes como ela é. Não vale a pena insistires.
— Mas não percebes? Não é normal! Ela nunca está disponível para nós! Para ti, para os netos… Para ninguém! — gritei-lhe, a voz embargada.
Ele encolheu os ombros. — Sempre foi assim. Não vai mudar agora.
Foi nesse momento que percebi: o Ricardo aceitava aquela frieza como se fosse natural. Como se fosse o preço a pagar por ter nascido naquela família. E eu? Eu estava cansada de aceitar.
Naquela noite, depois de adormecer as crianças, sentei-me na sala escura e deixei-me afundar nos meus pensamentos. Lembrei-me da primeira vez que conheci a Dona Amélia: um domingo de Páscoa, há quase dez anos. Ela olhou-me de cima a baixo e disse apenas: “És muito magra para quem quer criar filhos.” Ri nervosamente na altura, mas agora percebia que aquele comentário era só o início de uma relação feita de pequenas farpas e grandes silêncios.
Os dias seguintes foram um arrastar de mágoas. A Dona Amélia deixou de aparecer cá em casa. O Ricardo evitava falar sobre o assunto e eu sentia-me cada vez mais sozinha. Comecei a reparar em coisas que antes me escapavam: como ele nunca falava da infância, como mudava de assunto sempre que alguém mencionava o pai dele (que morreu cedo), como parecia carregar um peso invisível nos ombros.
Uma noite, depois de pôr as crianças na cama, sentei-me ao lado dele no sofá. — Ricardo, precisamos de falar sobre a tua mãe.
Ele olhou para mim, desconfiado. — Outra vez?
— Sim, outra vez. Porque isto não é normal. Eu sinto-me sozinha nesta família. Sinto que estou sempre a pedir desculpa por existir.
Ele ficou calado durante tanto tempo que pensei que não ia responder. Mas depois disse, num sussurro: — A minha mãe nunca gostou de mim.
Fiquei sem palavras. — Como assim?
— Depois do meu pai morrer… Ela fechou-se numa concha. Eu era só mais uma responsabilidade para ela. Nunca me deu um abraço, nunca me disse que gostava de mim. Só queria que eu não desse trabalho.
Senti uma dor funda por ele — e por mim também. Porque percebi que aquela frieza não era só comigo; era com todos à volta dela.
— E vais deixar que isso continue? Vais deixar que ela trate os teus filhos assim?
Ele abanou a cabeça devagar. — Não sei fazer diferente, Mariana. Não sei como se faz.
Naquela noite não dormi. Fiquei a pensar em tudo o que tínhamos perdido por causa daquela muralha invisível entre nós e a Dona Amélia. Pensei na infância dos meus filhos, tão cheia de ausências e silêncios desconfortáveis.
No sábado seguinte, tomei uma decisão. Liguei à Dona Amélia e convidei-a para almoçar connosco. Ela hesitou, mas acabou por aceitar.
O almoço foi tenso desde o início. A Leonor entornou sumo na toalha branca e a Dona Amélia suspirou alto. O Diogo recusou comer sopa e ela comentou: “No meu tempo não havia destas birras.” O Ricardo estava calado, quase invisível.
Depois da sobremesa, tomei coragem:
— Dona Amélia, posso perguntar-lhe uma coisa?
Ela olhou-me desconfiada. — Diz lá.
— Porque é que nunca quer ficar com os seus netos? Eles gostam tanto da avó…
Ela ficou muito séria. — Eu não sou mulher de crianças. Nunca fui. Fiz o meu papel porque tinha de ser feito. Agora quero paz.
O Ricardo levantou-se abruptamente da mesa e saiu para a varanda. Fiquei ali sentada com ela, num silêncio pesado.
— Sabe… — comecei eu — às vezes sinto que estou sozinha nesta família.
Ela olhou-me nos olhos pela primeira vez em muitos anos. — Sozinha? Mariana… Sozinha estava eu quando o meu marido morreu e fiquei com um filho pequeno e contas para pagar. Sozinha estava eu quando tive de trabalhar noites inteiras na fábrica para pôr comida na mesa.
Senti um nó na garganta. — Eu entendo… Mas agora tem netos que precisam de si.
Ela abanou a cabeça devagarinho. — Eles têm mãe e pai. Eu já dei tudo o que tinha para dar.
Quando ela saiu, o Ricardo voltou para dentro com os olhos vermelhos.
— Desculpa — disse ele baixinho — por não saber proteger-te disto tudo.
Abracei-o com força. Pela primeira vez em anos senti que estávamos juntos nisto.
Os meses passaram devagarinho depois desse dia. A Dona Amélia continuou distante, mas já não me magoava tanto como antes. Aprendi a pedir ajuda a outras pessoas: à minha vizinha Rosa, à minha irmã Filipa… E comecei a construir uma rede à minha volta que me dava força nos dias maus.
O Ricardo começou finalmente a falar sobre o passado dele — às vezes chorava baixinho à noite, outras vezes contava histórias da infância que nunca tinha partilhado comigo ou com os filhos.
A nossa família mudou nesse dia em que pedi ajuda à minha sogra e ela me disse não. Percebi que há laços que não se podem forçar — mas também há outros que podemos criar do zero, com amor e paciência.
Às vezes pergunto-me: quantas famílias vivem presas em silêncios como este? Quantas mulheres sentem esta solidão dentro das próprias casas? Será possível quebrar este ciclo ou estamos todos condenados a repeti-lo?