O Meu Marido, o Pão-duro: Sonho com o Divórcio

— Mariana, já te disse que não precisamos de comprar pão fresco todos os dias! — gritou o Rui da cozinha, enquanto eu tentava, em vão, encontrar um momento de paz antes de sair para o trabalho.

A minha mão tremia ao segurar a chávena de café. O cheiro a café queimado misturava-se com o azedume das palavras dele. Olhei para o relógio: 7h15. Mais um dia a começar com discussões sobre tostões. Mais um dia em que me pergunto como é que cheguei aqui.

Quando conheci o Rui, ele era diferente. Ou talvez eu quisesse acreditar que era. Trabalhava como contabilista numa pequena empresa em Setúbal, sempre meticuloso, sempre com um sorriso tímido. Eu achava graça à forma como ele fazia contas de cabeça no supermercado e como me surpreendia com flores colhidas do jardim da mãe dele. Mas depois do casamento, tudo mudou. Ou talvez tenha sido eu que comecei a ver melhor.

— Mariana, não te esqueças de desligar a luz do corredor! — voltou a insistir, já com aquele tom impaciente que me fazia sentir uma criança apanhada em falta.

— Já desliguei, Rui. — respondi, tentando não mostrar o cansaço na voz.

Ele apareceu à porta da cozinha, camisa amarrotada e olhar desconfiado.

— Sabes quanto custa deixar uma luz acesa durante a noite inteira? — perguntou, como se eu não soubesse já de cor todos os cálculos dele.

— Sei, Rui. — murmurei.

O silêncio instalou-se entre nós como uma parede fria. O nosso filho, o Tiago, ainda dormia. Tinha oito anos e já percebia mais do que devia. Uma vez ouvi-o perguntar à avó porque é que o pai não lhe comprava gelados no verão. Senti uma dor aguda no peito nesse dia.

No trabalho, tentava esquecer. Sou professora primária numa escola pública. Os meus alunos são a minha alegria e o meu refúgio. Mas mesmo ali, às vezes, dou por mim a pensar em contas: quanto falta para pagar a renda, se posso comprar fruta fresca ou se tenho de me contentar com as promoções do supermercado.

A minha mãe liga-me todos os dias.

— Filha, está tudo bem? — pergunta ela, sempre com aquela voz doce mas preocupada.

— Está tudo bem, mãe. — minto quase por reflexo.

Ela sabe que não está. Sabe porque vê nos meus olhos o mesmo olhar que ela tinha quando o meu pai chegava bêbado a casa e contava as moedas para comprar tabaco.

À noite, depois de deitar o Tiago, sento-me no sofá e olho para o Rui. Ele está sempre agarrado ao telemóvel, a ver vídeos sobre poupança ou fóruns de descontos. Já nem me lembro da última vez que conversámos sobre algo que não fosse dinheiro.

— Mariana, viste esta aplicação? Dá para comparar preços em todos os supermercados da zona! — diz ele, entusiasmado.

— Não me interessa, Rui. — respondo sem levantar os olhos do livro que finjo ler.

Ele suspira alto e levanta-se para ir verificar se fechei bem a torneira da casa de banho.

Às vezes pergunto-me se sou eu que estou errada. Se devia ser mais compreensiva. Afinal, vivemos tempos difíceis. Mas depois lembro-me das vezes em que precisei de um abraço e só recebi sermões sobre despesas desnecessárias. Lembro-me do Natal passado, quando comprei um presente simples para o Tiago e o Rui fez uma cena porque “não se gasta dinheiro em futilidades”.

No verão passado, fomos passar uns dias à casa dos meus sogros no Alentejo. O calor era insuportável e o Tiago pediu para irmos à praia. O Rui recusou porque “a gasolina está cara”. Passei a tarde a ver o meu filho brincar sozinho no quintal seco enquanto eu tentava esconder as lágrimas.

A minha irmã Inês diz-me para sair deste casamento há anos.

— Mariana, tu mereces mais! — insiste ela sempre que nos encontramos para um café rápido depois do trabalho.

— Não é assim tão fácil, Inês… — respondo sempre.

Ela revira os olhos:

— Não é fácil porque tu não queres! Tens medo do quê? De ficar sozinha? De não conseguir pagar as contas?

Talvez seja isso mesmo. O medo paralisa-me. O medo de recomeçar do zero, de magoar o Tiago, de enfrentar os olhares da família e dos vizinhos. Em Portugal ainda se fala baixo sobre divórcio nas aldeias e nos bairros pequenos. Ainda há quem ache que uma mulher deve aguentar tudo pelo bem da família.

Mas até quando? Até quando vou continuar a viver nesta prisão dourada?

Uma noite, depois de mais uma discussão sobre as contas da água — porque lavei roupa “fora do horário económico” — fechei-me na casa de banho e olhei-me ao espelho. Não reconheci a mulher cansada que me olhava de volta. Tinha olheiras fundas e os olhos apagados.

Peguei no telemóvel e escrevi uma mensagem à Inês:

“Preciso falar contigo. Acho que não aguento mais.”

Ela respondeu logo:

“Vem cá amanhã. Dorme cá se quiseres.”

No dia seguinte levei o Tiago à escola e fui ter com a minha irmã. Ela abraçou-me com força e eu desatei a chorar como uma criança perdida.

— Mariana… tu tens direito a ser feliz — sussurrou ela ao meu ouvido.

Falámos durante horas sobre tudo: sobre o Rui, sobre os meus medos, sobre o futuro do Tiago. Pela primeira vez em anos senti esperança misturada com medo.

Quando voltei para casa nessa noite, encontrei o Rui sentado à mesa da cozinha com uma pilha de faturas à frente.

— Onde estiveste? — perguntou seco.

— Fui falar com a Inês — respondi firme.

Ele olhou-me como se eu fosse uma estranha.

— Estás diferente…

Sentei-me à frente dele e respirei fundo:

— Estou cansada, Rui. Cansada desta vida feita só de contas e restrições. Quero mais para mim e para o Tiago.

Ele ficou calado durante muito tempo. Depois levantou-se e saiu sem dizer palavra.

Nessa noite dormi sozinha pela primeira vez em muitos anos. Senti medo mas também alívio.

Os dias seguintes foram estranhos. O Rui evitava-me ou falava apenas do essencial. O Tiago percebia que algo estava errado mas não dizia nada.

Uma tarde sentei-me com ele no sofá:

— Tiago… se a mãe e o pai deixarem de viver juntos… tu sabes que vais continuar a ser muito amado, não sabes?

Ele olhou para mim com aqueles olhos grandes e sérios:

— Eu só quero ver-te sorrir outra vez, mãe…

Chorei baixinho enquanto ele me abraçava.

Hoje escrevo esta história sem saber ainda qual será o meu próximo passo. Mas sei que mereço mais do que viver à sombra da avareza de alguém que não sabe amar senão através do dinheiro.

Será que é egoísmo querer ser feliz? Será que alguém aí já sentiu este aperto no peito? Partilhem comigo…