Vestidos de Seda, Lágrimas de Mãe: Entre o Amor e o Julgamento
— Outra vez essa roupa cara, Mariana? Achas mesmo que uma bebé precisa disso? — A voz da minha mãe ecoou pela cozinha, carregada de reprovação, enquanto eu vestia a Lili com um vestidinho de seda azul-claro, ainda com a etiqueta da loja pendurada.
Senti o rosto arder. Não era a primeira vez que ouvia aquele tom. Desde que engravidei, parecia que cada decisão minha era alvo de escrutínio. Mas agora, com Lili nos meus braços, tudo parecia ainda mais intenso. Olhei para ela, tão pequena, tão indefesa, e tentei ignorar o olhar crítico da minha mãe e da minha irmã, sentadas à mesa.
— Mãe, eu só quero o melhor para ela. Não percebes? — respondi, tentando controlar a voz trémula.
A minha irmã, Inês, bufou. — O melhor não é gastar metade do ordenado em roupas que ela nem vai usar duas vezes. O melhor é amor, Mariana. E tempo. Não etiquetas.
Apertei Lili contra o peito. O cheiro dela era doce, tranquilizador. Mas as palavras da minha família eram como agulhas. Será que tinham razão? Ou estaria eu apenas a tentar compensar algo?
Desde pequena que me lembro da minha mãe a remendar roupas para mim e para a Inês. Nunca nos faltou nada de essencial, mas também nunca houve espaço para luxos. Talvez por isso, quando soube que estava grávida — depois de anos a tentar e de duas perdas dolorosas — jurei a mim mesma que a minha filha teria tudo aquilo que eu nunca tive.
O pai da Lili, o Tiago, não percebeu logo esta minha obsessão. No início achou graça às minhas compras online, às caixas que chegavam quase todos os dias ao apartamento em Lisboa. Mas depois começaram as discussões.
— Mariana, precisamos de poupar para o futuro dela! Não faz sentido gastar tanto dinheiro em coisas que ela vai deixar de servir daqui a um mês! — dizia ele, exasperado.
Eu respondia sempre o mesmo:
— Quero que ela se sinta especial. Quero que tenha tudo do melhor.
Mas será que era mesmo por ela? Ou por mim?
As noites eram as piores. Quando Lili finalmente adormecia no berço branco — também ele comprado numa loja cara do Chiado — eu ficava horas acordada, rolando no Instagram, vendo outras mães com bebés vestidos de marcas famosas. Sentia inveja e culpa ao mesmo tempo. E se eu não fosse suficiente? E se Lili crescesse a sentir-se menos do que os outros?
Uma noite, depois de mais uma discussão com o Tiago sobre uma camisola da Burberry para bebés (que custava quase tanto como a renda da casa dos meus pais em Setúbal), sentei-me no chão do quarto da Lili e chorei em silêncio. Senti-me sozinha. Senti-me perdida.
No dia seguinte, fui buscar Lili à creche — sim, voltei ao trabalho cedo demais, mas precisava do salário completo — e encontrei a educadora a trocar-lhe a roupa.
— Olá Mariana! A Lili sujou-se toda na sopa… Tive de lhe pôr este body simples que temos aqui na creche. Espero que não se importe.
Olhei para a minha filha: sorria feliz, com um body branco sem marca nenhuma. E naquele momento percebi: ela estava feliz. Não precisava de nada do que eu lhe comprava para isso.
Mas quando contei isto à minha mãe à noite, ela não resistiu:
— Vês? O amor não se mede pelo preço das roupas.
Senti-me humilhada. E zangada. Porque ninguém parecia perceber o medo que eu sentia: medo de falhar como mãe, medo de não ser suficiente, medo de perder tudo outra vez.
Nessa noite, Tiago sentou-se ao meu lado na cama.
— Mariana… Eu sei que tens medo. Eu também tenho. Mas não podemos comprar felicidade para a Lili. Ela precisa de nós inteiros, não de etiquetas.
Chorei nos braços dele como há muito não chorava.
No fim-de-semana seguinte, fomos visitar os meus pais em Setúbal. A casa cheirava a café acabado de fazer e pão quente. A Inês estava lá com os meus sobrinhos — gémeos traquinas de três anos — todos vestidos com roupas simples e sorrisos rasgados.
Durante o almoço, tentei relaxar. Mas quando a minha mãe comentou:
— A Lili está tão bonita hoje… E esse vestido é tão simples! Fica-lhe mesmo bem.
Senti um nó na garganta. Era verdade: pela primeira vez tinha vestido à Lili um vestido herdado da prima mais velha. E ela estava linda.
Depois do almoço, sentei-me no jardim com a minha mãe.
— Mãe… Achas que estou a ser uma má mãe?
Ela olhou-me nos olhos e pegou-me na mão.
— Mariana… Tu és uma excelente mãe porque amas a tua filha. Mas tens de aprender a amar-te também. Não precisas de provar nada a ninguém.
Fiquei ali sentada muito tempo depois dela se levantar. Olhei para Lili a brincar na manta com os primos e pensei em tudo o que tinha perdido e em tudo o que tinha agora.
Quando voltámos para casa nesse domingo à noite, abri o armário da Lili e olhei para todas aquelas roupas caras ainda com etiquetas. Senti vergonha e tristeza. Mas também senti esperança: talvez ainda fosse tempo de mudar.
Na segunda-feira seguinte, levei uma caixa cheia dessas roupas à creche e ofereci-as às mães que precisavam mais do que eu.
Quando cheguei a casa nesse dia, Tiago abraçou-me com força.
— Estou tão orgulhoso de ti.
Sorri pela primeira vez em muito tempo sem sentir culpa ou medo.
Agora olho para Lili — já com sete meses — e vejo nela tudo aquilo que sempre quis: felicidade simples, amor genuíno e sorrisos sinceros.
Mas continuo a perguntar-me: será que alguma vez vamos conseguir libertar-nos das expectativas dos outros? Ou estaremos sempre presos ao medo de não sermos suficientes?
E vocês? Já sentiram este peso? Como lidam com as vozes (internas e externas) que vos dizem como devem ser mães?