Entre o Silêncio e o Grito: A Minha Vida Entre Quatro Paredes

“Se trouxeres isso outra vez, faço-te engolir com o saco e tudo.” O tom da Mariana cortou-me como uma lâmina. Fiquei parado à porta da cozinha, com o saco do pão ainda na mão, sentindo o cheiro quente e familiar que, naquele momento, parecia vir de outro mundo. O meu coração batia tão forte que temi que ela ouvisse. Olhei para ela — olhos frios, braços cruzados — e percebi que não era só o pão que estava errado. Era eu.

Nunca pensei que a minha vida chegasse a isto. Quando conheci a Mariana, ela era o furacão que varria tudo à sua volta. No café do bairro, todos olhavam para ela — a rapariga de cabelo ruivo, riso fácil e palavras afiadas. Eu era só o Miguel, o rapaz que trabalhava na papelaria do pai e sonhava em ser escritor. Ela entrou na minha vida como quem entra numa sala escura e acende todas as luzes de uma vez.

No início, tudo era paixão. As discussões eram intensas, mas acabavam sempre com beijos roubados no corredor do prédio ou risos abafados debaixo dos lençóis. Mas depressa percebi que havia algo nela que não sabia ceder. Mariana estava habituada a ser obedecida — até os pais dela, o Sr. António e a Dona Lurdes, baixavam a cabeça perante os seus caprichos. Eu tentei resistir, tentei ser diferente. Mas cada vez que dizia “não”, sentia-me mais pequeno.

“Não percebo porque insistes em trazer este pão horrível”, continuou ela, sem me olhar nos olhos. “Já te disse mil vezes que prefiro da padaria do Sr. Joaquim.”

“Estava fechada…”, murmurei.

“Arranjas sempre desculpas.”

O silêncio caiu pesado entre nós. Atrás da porta da cozinha, ouvi passos pequenos — a nossa filha Inês, de seis anos, espreitava com os olhos muito abertos. Sorri-lhe, mas ela desviou o olhar. Nos últimos tempos, até ela parecia ter medo de falar alto.

A vida com a Mariana tornou-se uma sucessão de pequenas guerras. O jantar nunca estava suficientemente quente, as camisas nunca estavam bem passadas, as contas nunca eram pagas a tempo porque eu “não sabia organizar nada”. No trabalho, o meu pai começou a notar que eu chegava atrasado e distraído. “Estás bem, filho?”, perguntou-me uma manhã.

“Estou cansado”, menti.

A verdade é que já não sabia quem era fora daquela casa. Os meus amigos afastaram-se — “O Miguel já não sai”, diziam eles no grupo do WhatsApp. A Mariana não gostava deles; dizia que eram infantis e que me puxavam para baixo. Aos poucos, fui deixando de responder às mensagens.

Uma noite, depois de mais uma discussão por causa do jantar — “O arroz está empapado! Não sabes fazer nada direito!” — saí para a rua sem destino. Sentei-me num banco do jardim em frente ao prédio e olhei para as janelas iluminadas das outras casas. Perguntei-me se lá dentro também havia silêncios pesados e palavras afiadas como as nossas.

No dia seguinte, tentei falar com ela.

“Mariana, temos de conversar.”

Ela nem levantou os olhos do telemóvel.

“Sobre quê? Sobre como estragas tudo?”

Senti um nó na garganta. “Sobre nós… Sobre a Inês.”

Ela bufou. “A Inês está bem. O problema és tu.”

A Inês… Era por ela que eu aguentava tudo. Quando me abraçava à noite e pedia para lhe ler uma história, sentia-me útil outra vez. Mas até esses momentos começaram a rarear; Mariana dizia que eu a mimava demasiado.

O tempo foi passando e a casa tornou-se um campo minado. Qualquer palavra podia ser um detonador. Uma noite, ouvi Mariana ao telefone com a mãe:

“Ele não faz nada de jeito… Não sei porque casei com ele.”

Senti-me esmagado por dentro. Pensei em sair de casa, mas tinha medo de perder a Inês. Em Portugal, toda a gente tem opinião sobre quem sai de casa — “Ele abandonou a família”, diriam os vizinhos.

Certa tarde, depois de mais uma discussão sobre dinheiro — “Se fosses homem a sério ganhavas mais!” — sentei-me no chão da sala quando ela saiu para ir ao cabeleireiro. A Inês veio ter comigo e sentou-se ao meu lado.

“Pai… Estás triste?”

Olhei para ela e não consegui mentir.

“Estou um bocadinho.”

Ela abraçou-me com força. “Eu gosto muito de ti.”

Chorei baixinho para não a assustar.

Nessa noite tomei uma decisão: ia procurar ajuda. Falei com o meu irmão mais velho, o Pedro.

“Não podes continuar assim”, disse ele. “Vens dormir cá uns dias.”

Quando contei à Mariana que ia sair por uns dias para pensar, ela riu-se na minha cara.

“Vai lá chorar para o colinho do mano! És mesmo fraco.”

Arrumei uma mochila às pressas enquanto ela gritava atrás de mim:

“Se saíres por essa porta nunca mais voltas!”

Fechei a porta devagar para não acordar a Inês.

Na casa do Pedro senti-me leve pela primeira vez em anos. Dormi uma noite inteira sem sobressaltos. No dia seguinte fui ao café do bairro e vi alguns amigos antigos.

“Onde tens andado?”, perguntou o João.

“Perdido”, respondi.

Contei-lhes um pouco do que se passava em casa. Eles ouviram em silêncio e depois bateram-me no ombro.

“Não tens de aguentar tudo sozinho”, disse o Rui.

Comecei a ir a sessões com uma psicóloga no centro de saúde. Falei-lhe dos gritos da Mariana, do medo constante de errar, da culpa por pensar em sair de casa.

“Às vezes amar também é saber ir embora”, disse ela.

Demorei semanas até ganhar coragem para pedir a separação. Quando finalmente voltei a casa para falar com Mariana, ela estava sentada no sofá com um olhar vazio.

“Quero separar-me”, disse-lhe com voz firme.

Ela ficou em silêncio durante uns segundos eternos e depois atirou um copo contra a parede.

“És um cobarde! Vais deixar-me sozinha com tudo?”

Respirei fundo. “Quero continuar presente na vida da Inês.”

Ela chorou pela primeira vez desde que me lembrava.

Os meses seguintes foram duros — discussões sobre guarda partilhada, olhares reprovadores dos vizinhos (“Coitada da Mariana…”), noites sozinho num quarto alugado em Benfica. Mas aos poucos fui reconstruindo-me. Voltei à papelaria do meu pai e comecei finalmente a escrever as minhas histórias à noite.

A Inês passou a vir dormir comigo aos fins-de-semana. No início estava calada, mas depois começou a rir outra vez quando íamos ao Jardim da Estrela ou fazíamos panquecas ao domingo.

Hoje olho para trás e pergunto-me: como é possível amar alguém que nos faz sentir tão pequenos? E será que algum dia conseguimos perdoar-nos por termos ficado tanto tempo presos ao medo? Gostava de saber se alguém aí já sentiu isto — essa mistura de culpa e alívio quando finalmente dizemos basta.