Expulsei o Meu Marido e os Sogros de Casa. Não Me Arrependo.
— Não aguento mais, Rui! — gritei, sentindo a garganta arder, enquanto a minha mão tremia sobre a bancada da cozinha. O cheiro do café queimado misturava-se ao aroma do detergente barato que a minha sogra insistia em usar. — Isto não é vida!
O Rui olhou para mim, olhos baixos, como se procurasse uma resposta no chão de mosaico gasto. A minha sogra, Dona Lurdes, cruzou os braços e soltou um suspiro teatral.
— Filha, não é assim que se fala com o marido. Nós viemos para ajudar, não para atrapalhar — disse ela, com aquele tom passivo-agressivo que me fazia querer gritar ainda mais.
Ajuda? Pensei. Desde que os meus sogros vieram morar connosco, há seis meses, a minha casa deixou de ser minha. Vieram de Vila Real porque já não conseguiam cuidar da quinta. O Rui achou que era o nosso dever recebê-los. Eu tentei ser compreensiva. Mas cada dia era uma batalha: a Dona Lurdes criticava tudo — desde a forma como dobrava as toalhas até ao modo como educava a nossa filha, a Mariana. O meu sogro, o Senhor Joaquim, passava os dias sentado no sofá, a ver televisão e a reclamar do preço do pão.
Naquela noite, tudo explodiu. Mariana tinha chegado da escola em lágrimas porque a avó lhe dissera que era malcriada por não comer sopa. O Rui limitou-se a encolher os ombros.
— São velhos, Catarina. Tens de ter paciência.
— E tu? Quando é que tens paciência comigo? — perguntei-lhe, sentindo as lágrimas ameaçarem cair.
O silêncio instalou-se na sala. O relógio da parede marcava 21h17. Oiço o som da chuva a bater nos vidros. Mariana fechou-se no quarto. Senti-me sozinha na minha própria casa.
Lembro-me de quando conheci o Rui. Era um rapaz doce, trabalhador, sempre pronto a ajudar. Casámos cedo, talvez cedo demais. A vida em Lisboa era dura, mas juntos dávamos conta do recado. Até ao dia em que ele decidiu trazer os pais para casa sem sequer me perguntar.
— Catarina, eles não têm para onde ir — disse-me ele na altura. — A quinta já não dá nada e o meu pai está doente.
Aceitei. Achei que era temporário. Mas os meses passaram e nada mudou. Pelo contrário: as discussões aumentaram, o dinheiro começou a faltar e eu sentia-me cada vez mais sufocada.
Naquela noite, depois do jantar desastroso, sentei-me à mesa da cozinha com um copo de vinho barato. O Rui entrou e sentou-se à minha frente.
— Catarina, não podes continuar assim. Eles são meus pais.
— E eu? Eu sou tua mulher! Não vês que estou a desmoronar?
Ele ficou calado. Pela primeira vez vi medo nos seus olhos.
No dia seguinte, acordei cedo e fui trabalhar como sempre. Sou enfermeira num hospital público; vejo sofrimento todos os dias, mas nada me preparou para o sofrimento dentro da minha própria casa.
Quando voltei, encontrei a Dona Lurdes a remexer nas minhas gavetas.
— Só estava a arrumar — disse ela, sem vergonha.
— Isto é demais! — explodi.
O Rui apareceu à porta.
— Catarina, por favor…
— Chega! Ou eles vão embora ou eu vou!
O Senhor Joaquim levantou-se do sofá pela primeira vez em semanas.
— Não tens respeito nenhum! Esta casa também é do nosso filho!
— Pois é — respondi, com voz trémula mas firme — mas eu também sou gente! E já chega de viver assim!
A discussão durou horas. Gritos, acusações, lágrimas. Mariana chorava no quarto. No fim da noite, tomei uma decisão: fiz as malas deles e do Rui.
— Catarina… — murmurou o Rui, com voz embargada.
— Preciso de espaço para respirar. Preciso de reencontrar quem sou.
Eles saíram naquela noite chuvosa. Mariana ficou comigo; agarrou-se a mim como se tivesse medo de me perder também.
Os dias seguintes foram um misto de alívio e culpa. Os vizinhos cochichavam; alguns familiares ligaram-me a chamar egoísta. Mas pela primeira vez em anos consegui dormir uma noite inteira sem acordar sobressaltada.
O Rui tentou ligar-me várias vezes. Não atendi. Precisava de silêncio para ouvir os meus próprios pensamentos.
Mariana perguntou-me:
— Mãe, o pai vai voltar?
Abracei-a com força.
— Não sei, filha. Às vezes as pessoas precisam de se afastar para perceberem o que realmente importa.
Voltei ao trabalho com outra energia. Os colegas notaram a diferença; até os pacientes diziam que eu sorria mais.
Um mês depois, o Rui apareceu à porta. Trazia flores e olhos inchados.
— Catarina… Perdoa-me. Nunca devia ter-te posto nesta situação.
Conversámos durante horas. Disse-lhe tudo o que sentia: o cansaço, a solidão, o medo de perder quem eu era.
Ele chorou. Pediu-me uma segunda oportunidade — mas desta vez só para nós dois e para a Mariana.
Ainda não sei o que vai acontecer ao nosso casamento. Mas sei que fiz o que era preciso para sobreviver.
Às vezes pergunto-me: quantas mulheres vivem presas em casas que deixaram de ser suas? Quantas têm coragem de dizer basta? E vocês… teriam feito diferente?