Quando a Verdade Dói: Um Pai em Luta pelo Filho

— Pai, não me sinto bem… — ouvi a voz do Rafael, trémula, enquanto me ligavam da escola. O telefone quase caiu-me das mãos. O coração disparou, e por um instante, tudo à minha volta ficou desfocado. Corri para o carro, as mãos a tremer, a cabeça cheia de perguntas: O que aconteceu? Será grave? Porquê o meu filho?

Quando cheguei à escola, vi-o deitado numa maca improvisada na enfermaria, pálido como nunca o tinha visto. A professora, Dona Teresa, olhou-me com preocupação: — Ele desmaiou durante a aula de Educação Física. Já chamámos o INEM, mas ainda não chegaram. — Senti uma raiva surda crescer dentro de mim. Como é possível que numa escola pública em Lisboa, em 2023, ainda não haja um enfermeiro permanente? O olhar do Rafael encontrou o meu. — Pai… — murmurou ele, antes de fechar os olhos novamente.

O tempo parecia não passar. Finalmente, chegaram os paramédicos. Levaram-no para o Hospital de Santa Maria. No caminho, tentei manter-me forte, mas por dentro sentia-me a desmoronar. A minha mulher, Sofia, chegou pouco depois, com os olhos vermelhos de tanto chorar. — O que se passa com o nosso filho? — perguntou-me, quase sem voz.

No hospital, fomos recebidos por uma médica jovem, Dra. Inês. — O Rafael teve uma quebra de tensão severa. Precisamos de fazer exames para perceber a causa. — As horas arrastaram-se entre corredores frios e cadeiras desconfortáveis. Vi outros pais ali sentados, todos com o mesmo olhar perdido.

Quando finalmente nos chamaram, a médica foi direta: — Encontrámos algo nos exames do Rafael. Ele tem uma arritmia cardíaca que pode ser perigosa se não for acompanhada de perto. — Senti o chão fugir-me dos pés. Sofia agarrou-se ao meu braço. — Mas… ele sempre foi saudável! Como é possível?

A médica explicou-nos que era necessário um acompanhamento especializado e talvez um pequeno dispositivo para monitorizar o coração do Rafael. Mas havia uma lista de espera enorme para consultas de cardiologia pediátrica no SNS. — Não há maneira de acelerar? — perguntei, desesperado. — Só se recorrerem ao privado… — respondeu ela, com um encolher de ombros resignado.

Saímos do hospital com mais perguntas do que respostas. Em casa, o silêncio era pesado. O Rafael dormia no quarto dele, exausto. Sofia chorava baixinho na cozinha. Sentei-me à mesa e enterrei a cabeça nas mãos. Como é possível que um pai em Portugal tenha de escolher entre esperar meses por uma consulta ou endividar-se para salvar o filho?

No dia seguinte, fui falar com a diretora da escola. — Compreendo a sua preocupação, Sr. Luís — disse ela, formalmente — mas não temos meios para garantir um enfermeiro a tempo inteiro. O Ministério da Educação diz que não há orçamento… — Não consegui conter-me: — E se fosse o seu filho? Também aceitaria esta resposta?

A conversa terminou sem soluções. Senti-me impotente e furioso. Decidi então expor o caso nas redes sociais. Escrevi um texto longo e sincero sobre o que estava a acontecer ao Rafael e à nossa família. Em poucas horas, centenas de pessoas partilharam e comentaram a publicação. Recebi mensagens de outros pais na mesma situação: crianças à espera de consultas, escolas sem apoio médico, famílias desesperadas.

Uma jornalista do Público contactou-me para contar a nossa história. Aceitei dar entrevista, apesar do medo da exposição pública. No dia seguinte, a reportagem saiu na primeira página: “Pais obrigados a recorrer ao privado para salvar filhos”. O telefone não parou de tocar: amigos, familiares, até desconhecidos ofereceram ajuda.

Mas nem todos os comentários eram positivos. Alguns acusavam-nos de exagerar ou de querer protagonismo. Outros diziam que devíamos “ter juízo” e confiar no sistema público. Sofia ficou abalada com as críticas. — Será que fizemos bem em expor tudo isto? — perguntou-me numa noite em que o Rafael dormia finalmente tranquilo.

— Fizemos o que qualquer pai faria por um filho — respondi-lhe, tentando acreditar nas minhas próprias palavras.

Entretanto, a situação do Rafael piorou. Teve outro desmaio em casa da avó Maria durante um almoço de domingo. A minha mãe entrou em pânico e ligou-me aos gritos: — Luís! O menino caiu redondo! Vem depressa!

Desta vez não hesitei: marquei consulta num cardiologista privado em Lisboa, mesmo sabendo que ia custar metade do meu ordenado daquele mês como funcionário público numa repartição das Finanças.

O médico confirmou o diagnóstico e recomendou a colocação urgente de um holter para monitorização contínua do coração do Rafael. O aparelho foi colocado dois dias depois e finalmente começámos a perceber os padrões das arritmias.

Mas as contas começaram a acumular-se: exames, consultas, medicamentos… Sofia teve de pedir um empréstimo ao banco para conseguirmos pagar tudo sem deixar faltar comida em casa.

A tensão entre nós aumentava todos os dias. Discutíamos por tudo e por nada: quem ia buscar o Rafael à escola, quem cozinhava, quem tratava dos papéis do seguro… Uma noite, depois de mais uma discussão acesa sobre dinheiro, Sofia atirou-me à cara:

— Se tivesses lutado mais pelo teu emprego antigo talvez agora tivéssemos dinheiro para isto tudo!

Fiquei sem palavras. Ela referia-se ao meu despedimento há três anos atrás da empresa onde era gestor financeiro — uma história cheia de intrigas e injustiças que ainda hoje me custa engolir.

— Achas que eu queria perder aquele emprego? Achas mesmo? — gritei-lhe de volta.

O Rafael ouviu-nos e apareceu à porta da sala com os olhos cheios de lágrimas:

— Por favor parem… eu não quero ser um problema para vocês…

A culpa esmagou-me como uma onda gigante.

Na semana seguinte, fomos chamados à escola para uma reunião com a psicóloga escolar porque o Rafael andava mais calado e distraído nas aulas.

— O Rafael sente-se responsável pelo stress em casa — disse-nos ela com delicadeza — É importante que ele perceba que não tem culpa nenhuma.

Saímos da reunião mais unidos mas também mais cansados do que nunca.

Os meses passaram entre exames médicos e reuniões escolares. A reportagem no jornal trouxe algum alívio: finalmente conseguimos uma consulta prioritária no hospital público graças à pressão mediática.

O Rafael foi acompanhado por uma equipa fantástica no Santa Maria e começou finalmente a recuperar alguma normalidade na vida dele: voltou ao futebol com os amigos (com algumas restrições), começou a sorrir mais vezes e até tirou boas notas no final do período.

Mas nada voltou a ser como antes.

A relação com Sofia ficou marcada pelas discussões e pelo medo constante de não conseguirmos proteger o nosso filho num país onde tantas vezes as famílias são deixadas sozinhas perante as dificuldades.

Hoje olho para trás e pergunto-me: quantos pais vivem esta angústia todos os dias sem voz nem meios para lutar? Quantas crianças continuam à espera de cuidados enquanto os adultos discutem orçamentos?

Será justo termos de escolher entre endividarmo-nos ou esperar meses por uma consulta vital? E vocês… o que fariam no meu lugar?