“Vemo-nos daqui a cinco anos!” – A promessa que desfez a minha família

— Vais mesmo deixar-nos assim, Dário? — perguntei-lhe, com a voz embargada, enquanto ele enfiava à pressa as últimas camisas no saco de viagem. Os olhos dele não me encaravam. — É só por uns anos, Maria. Cinco, no máximo. Quando tudo melhorar, volto. Juro-te. — A porta bateu antes que eu pudesse responder, e o silêncio que ficou foi mais pesado do que qualquer discussão.

Naquela manhã de fevereiro de 1992, o mundo desabou sobre mim. O Dário, meu marido há quase dez anos, pai dos nossos dois filhos — o Tiago, com oito anos, e a pequena Sofia, com apenas três — partiu para França à procura de trabalho. Não foi o primeiro homem da aldeia a fazê-lo, mas foi o primeiro a prometer-me que voltaria em cinco anos, como se a vida pudesse ser posta em pausa e retomada depois.

Os primeiros meses foram um nevoeiro de saudade e raiva. A minha mãe dizia-me para ser forte, que os homens faziam o que tinham de fazer para pôr comida na mesa. Mas eu via nos olhos dela o mesmo medo que sentia: e se ele não voltasse? E se nos esquecesse?

O dinheiro começou a chegar, aos poucos. Notas dobradas em envelopes sem carta. O Tiago perguntava pelo pai todas as noites. A Sofia começou a chamar “pai” ao vizinho Joaquim, que lhe dava rebuçados quando passava pelo quintal. Eu sentia-me a desaparecer — primeiro como mulher, depois como mãe.

A aldeia murmurava. “A Maria ficou sozinha… O Dário foi-se embora… Dizem que arranjou outra lá em França.” Eu fingia não ouvir, mas cada palavra era uma farpa. O meu irmão António veio ajudar-me na horta e a minha irmã Ana ficou mais presente, mas havia sempre um vazio à mesa.

Os anos passaram devagar. O Tiago cresceu revoltado, começou a faltar às aulas e a responder-me torto. Uma noite, encontrei-o a fumar atrás do celeiro com os rapazes mais velhos. — O pai não está cá para me dar na cabeça — atirou-me, com um sorriso amargo. A Sofia tornou-se tímida, agarrada às minhas saias, com medo de tudo.

No quarto ano da ausência do Dário, o dinheiro deixou de chegar. Fui pedir trabalho à dona Emília, na padaria da vila. Acordava às quatro da manhã para amassar pão e voltava ao fim do dia para tratar dos miúdos e dos animais. O corpo doía-me sempre, mas era melhor do que ficar sozinha em casa a ouvir o eco das promessas dele.

No quinto ano, deixei de esperar. O Tiago fez treze anos e não quis bolo nem festa. A Sofia chorou porque não sabia desenhar o rosto do pai para um trabalho da escola. Eu vendi as alianças para pagar a luz.

Foi então que ele apareceu.

Era uma tarde húmida de setembro de 1997. Estava a estender roupa quando ouvi passos no caminho de terra batida. Olhei e vi-o: mais magro, cabelo grisalho nas têmporas, um saco de viagem na mão e um sorriso hesitante nos lábios.

— Maria… — disse ele, como se nada tivesse mudado.

Fiquei imóvel. O Tiago saiu disparado de casa ao ouvir vozes e parou ao vê-lo. — Pai? — perguntou, sem saber se devia correr ou fugir.

A Sofia escondeu-se atrás de mim.

O Dário largou o saco e tentou abraçar-nos. Eu recuei. — Vieste fazer o quê? — perguntei-lhe, fria.

— Voltei para ficar. Cumpri o que prometi… — respondeu ele, como se cinco anos fossem só um intervalo.

— Cumpriste? Achas mesmo? Sabes quantas noites chorei sozinha? Sabes quantas vezes os teus filhos perguntaram por ti? Sabes que deixaste de mandar dinheiro há mais de um ano? — As palavras saíam-me como pedras.

Ele baixou os olhos. — As coisas correram mal lá fora… Perdi o emprego… Tive problemas… Mas nunca deixei de pensar em vocês.

O Tiago explodiu: — Não queres saber! Se te importasses mesmo connosco tinhas voltado antes! A mãe é que esteve cá sempre! — E entrou em casa a bater com a porta.

A Sofia chorava baixinho. Peguei-lhe ao colo e levei-a para dentro.

Nessa noite, o Dário dormiu no sofá da sala. Eu fiquei acordada até tarde, a ouvir-lhe a respiração pesada e a pensar em tudo o que tinha mudado. No dia seguinte tentou falar comigo:

— Maria, eu sei que errei… Mas quero tentar outra vez. Podemos recomeçar?

Olhei-o nos olhos pela primeira vez em anos. Vi ali um homem cansado, talvez arrependido, mas também vi o egoísmo de quem achava que podia voltar quando lhe apetecesse.

— Não sei se consigo perdoar-te — disse-lhe. — Não sei se quero.

Os dias seguintes foram um inferno de discussões baixas para não acordar os miúdos e silêncios pesados à mesa. O Tiago recusava-se a falar com ele; a Sofia tinha pesadelos todas as noites.

A minha mãe veio visitar-nos e puxou-me para o lado:

— Filha, pensa bem… Ele é o pai dos teus filhos. Não é fácil criar uma família sozinha…

— Mas também não é fácil viver com alguém em quem já não confio — respondi-lhe.

O Dário tentou arranjar trabalho na vila, mas ninguém queria dar emprego ao “francês” que abandonara a família. Passava os dias sentado no quintal ou a tentar conversar com os filhos sem sucesso.

Uma noite ouvi-o chorar baixinho na sala. Fiquei parada à porta do quarto, sem saber se devia ir ter com ele ou não.

O tempo foi passando e nada melhorava. O Tiago começou a sair cada vez mais tarde; uma noite não voltou para casa. Fui procurá-lo pela aldeia com o coração nas mãos até o encontrar no largo da igreja com os amigos. Agarrei-o pelo braço:

— Não podes continuar assim! Preciso de ti aqui!

Ele olhou-me nos olhos: — Precisas de mim porque o pai não serve para nada!

Senti-me esmagada entre dois mundos: o passado que não voltava e o presente que não queria aceitar.

O Dário tentou aproximar-se da Sofia com presentes baratos e promessas novas. Ela aceitava-os mas continuava calada.

Um dia sentei-me com ele à mesa da cozinha:

— Dário… Não sei se isto tem volta atrás. Tu foste embora quando mais precisávamos de ti. Agora queres voltar como se nada fosse…

Ele chorou outra vez:

— Eu só queria dar-vos uma vida melhor… Mas perdi-me pelo caminho.

— E nós? Também nos perdeste?

Ele não respondeu.

No Natal desse ano fizemos uma ceia fria, cada um no seu canto da mesa. O Tiago saiu antes da sobremesa; a Sofia adormeceu no sofá com um boneco novo no colo; eu fiquei a olhar para as luzes da árvore e pensei: quantas famílias há por aí desfeitas por promessas vazias?

Hoje passaram-se mais de vinte anos desde aquele regresso amargo do Dário. Os filhos cresceram: o Tiago vive em Lisboa e raramente telefona; a Sofia casou cedo demais e mora longe. Eu fiquei na aldeia, sozinha na casa grande onde cada canto tem uma memória diferente.

Às vezes pergunto-me: teria sido diferente se tivesse perdoado? Ou há feridas que nunca saram? E vocês, conseguiriam perdoar uma traição destas ou preferiam recomeçar sozinhos?